O que esperar de um romance escrito por um físico? Um tanto distante do glamour cômico que envolve os personagens nerds e geeks no programa The Big Bang Theory e muito próximos das idiossincrasias malucas que adornam as relações sociais desta categoria de pesquisadores – como físico, me incluo entre os tipos –, esperava que A solidão dos números primos fosse um livro frio. É mais que isso.

De cara, encontramos um linguajar diferenciado, duro, que beira o grotesco e muda à medida que os protagonistas Mattia e Alice envelhecem. As palavras parecem calculadas pra acompanhar a idade, partindo de perspectivas que se alteram com o tempo, numa dança que tem por objetivo nos sensibilizar para com as experiências que os dois protagonistas sofrem logo no início do romance. Traumatizados em suas infâncias por acontecimentos distintos – Mattia responsabiliza-se por perder (perder mesmo, pra sempre) a irmã excepcional e Alice culpando ao pai por um acidente que a deixou manca –, os dois jamais se permitem adquirir um senso comum de normalidade, pouco importando suas capacidades pra participar da sociedade.

[Leia esta resenha completa no Amálgama]

Não dá pra falar neste filme sem dizer o óbvio, de saída: é um filme.

A assertiva acima é fundamental para que se desfrute do novo filme do diretor Guy Ritchie. Simplesmente porque, como já disse Sherlock Holmes em Um estudo em vermelho: –“É um erro capital teorizar antes de ter todas as evidências. Isso distorce o raciocínio”; a importância da assertiva, entrementes, se deve ao fato de que muita gente que tem acesso a essa ululante informação consegue fazer a boa e velha reclamação de que o filme não é fiel à obra do criador Conan Doyle.

Pois que seja, filme e papel são meios muito diferentes e têm, cada, sua própria linguagem. Não bastasse a diferença entre meios, Sherlock e Watson são personagens contemporâneos de uma  Inglaterra Vitoriana que agora só existe em monumentos, livros, memórias.

Pra começo de conversa, confirmo o que foi visto no trailer (Santos e Marelovaldo, meus amigos, reclamaram): o filme tem muita ação. O resmungo dos amigos é explicado pela literatura: o universo de Holmes e Watson nunca foi de ação, as relações entre os personagens e o ambiente eram pensadas; vez por outra correrias aconteciam nas estórias, resultantes das urgências de algum caso, mas… pancadaria? Opa, não. Neste universo criado por Conan Doyle, de frio racionalismo – porque ele também criou o aquele de O mundo perdido –, não há necessidade de muita luta, a ação toda acontece entre os fatos narrados por Watson e as deduções de Sherlock.

Os protagonistas são quase os mesmos imortais criados por Doyle. Quase, porque foram repaginados. A amizade entre os dois certamente tem outro tom – e nem pretendo discutir sexualidade –, porque demonstram um companheirismo não muito típico dos fleumáticos ingleses. As suas relações com o mundo também parecem bem diferentes: Holmes, principalmente, é um valentão bom de briga; sua apresentação logo no começo do filme revela os traços do diretor Ritchie, numa seqüência de ação de movimentos lentos, em que o processo de deduções de Holmes é revelado, num observar e pensar que requer – pra ele, Sherlock – sempre poucos segundos (um pouco disso é exposto por Conan Doyle em A ciência da dedução, cap. 2 de Um estudo em vermelho).

A Inglaterra Vitoriana proposta por Ritchie beira o steampunk. O diretor simplesmente não sente necessidade de se ater a uma realidade, seja ela a de Conan Doyle, seja ela a dos livros de história. Em uma obra cuja principal função é entreter, não vejo porque seguir uma ou outra linha deva ser necessário. O público contemporâneo não tem mais o mesmo estômago pra certas fidelidades. É, Syd Field já andou por aí a dizer: –“Casablanca, não sendo um remake, talvez nunca tivesse o ritmo do filme original se fosse desenvolvido nos dias de hoje.”

Não acho que ele, Syd, esteja errado. É fácil rodar um remake igual a um filme original, cena após cena, e ter grande aceitação do público. Afinal, o remake já tem a seu favor o fato de (muito provavelmente) ter por base um filme clássico. A pergunta que me fizeram, entretanto, soa digna: será que não poderiam ter mudado os nomes dos personagens? Era mesmo necessário pegar carona na literatura de Conan Doyle?

Ora, é um filme. E como tal, liberdades foram tomadas – liberdades um tanto diferentes daquelas que vez por outra assolam a todos que lêem traduções (mas, ainda assim, liberdades); minha curiosidade é: como serão os filmes baseados em Sherlock Holmes daqui a 100 anos? Como será realizada essa nova tradução? Será ela mais ligada a um tempo ou aos textos de outrora?

Holmes, House, Batman. Nomes, variações, essências, traduções

Apaixonado por ciências e artes, acabei por desenvolver um senso estético e argumentações um tanto diferentes daquelas do divulgador científico comum. Escrevi um bocado sobre pro Amálgama, relatando experiências que tive trabalhando em planetários.

Pois que vivo a acompanhar o que acontece mundo afora e, meio sem querer, dei de cara com o Symphony of Science (sigam no twitter!: @musicalscience), projeto encabeçado por John Boswell usando vídeos de divulgação existentes em inglês – a série Cosmos será facilmente reconhecida – .

Estou a colocar o último vídeo (até esta data) com uma rápida tradução livre, abaixo. Espero que gostem.

[David Attenborough]
Toda a vida está relacionada
E isso nos permite construir com confiança
A árvore complexa que representa a história da vida

Nosso planeta, a Terra, é, tanto quanto sabemos
Único no universo; ele contém vida
Aqui as plantas e os animais se proliferam em tais números
Que ainda sequer nomeamos todas as espécies diferentes

O grande insight de Darwin revolucionou a forma como vemos o mundo
Agora entendemos por que existem tantas espécies diferentes

[Carl Sagan]
Cada célula é um triunfo da seleção natural
E nós somos feitos de trilhões delas (Dentro de nós há um pequeno universo)
Essas são algumas das coisas que as moléculas fazem
Dados quatro bilhões de anos de evolução (Nós somos, cada um de nós, uma multidão)

Agora como é que as moléculas da vida surgiram?

[Attenborough]
Tudo começou no mar
Cerca de 3 bilhões de anos atrás
Moléculas químicas complexas começaram a se agregar

Estas foram as “sementes”
De onde a árvore da vida se desenvolveu
Elas foram capazes de dividir-se, replicar-se
Como as bactérias fazem

[Sagan]
Os segredos da evolução
São o tempo e a morte
Há uma linha ininterrupta que se estende
A partir daquelas primeiras células até nós
(refrão)

[Jane Goodall]
Não existe uma linha precisa dividindo humanos
do resto do reino animal
É uma linha muito difusa

É uma linha muito difusa,
e está ficando mais difusa
Todo o tempo

Encontramos animais fazendo coisas que nós,
Em nossa arrogância,
Costumávamos pensar que era “apenas para humanos”

(refrão)

[Attenborough]
Sua sobrevivência agora descansa em nossas mãos

Estes pensamentos, meu caro amigo, são muitos deles crus e apressados, e se eu estivesse meramente ambicioso de adquirir alguma reputação em filosofia, deveria guardá-los comigo, até que sejam corrigidos e melhorados pelo tempo e pela experiência. Mas como mesmo indicações sucintas e experimentos imperfeitos em qualquer novo ramo da ciência, sendo comunicados, têm freqüentemente um bom efeito, tornando-se a ocasião de discussões mais exatas (como observei antes) e descobertas mais completas, sinta-se livre para comunicar este artigo a quem desejar, sendo de mais importância que o conhecimento cresça do que vir este seu amigo a ser considerado um filósofo preciso.”

(Joseph Priestley, em carta a Peter Collinson)

Livros de divulgação científica, em geral, procuram se aferrar aos desenvolvimentos das ideias filosóficas e científicas sobre as quais se propõe falar; as vidas de cientistas e pesquisadores são temas tangenciais neste tipo de literatura, meras curiosidades. Os personagens, causadores, são expostos meramente por suas contribuições científicas. Em A invenção do ar, Steven Berlin Johnson enfatiza as circunstâncias em que ocorreram tantas das ideias e descobertas de um pouco conhecido – pra nós, especialmente, brasileiros – Joseph Priestley.

Priestley nasceu no meio do século XVIII e, desde pequenino, brincava com ares de quem experimenta. Da brincadeira ao mais sério amadorismo, passaram-se pouco mais de 30 anos: Priestley viria a conhecer um grupo de pessoas apelidado por Benjamin Franklin – que não é o descobridor da eletricidade, apesar de todas as descobertas por ele realizadas neste ramo das ciências naturais – de “Clube dos Whigs Honestos”. Estes livres-pensadores não eram necessariamente acadêmicos e tampouco representavam uma única área de conhecimento. Com todo esse informalismo academicista, não deveria gerar qualquer espanto que muitos dos participantes do clube fossem teólogos – o que inclui o próprio Priestley, ele mesmo pastor protestante.

[Leia esta resenha completa no Amálgama]

[uma versão anterior deste texto foi publicada pelo jornal O Escafandro, da faculdade de Oceanografia da USP, em 2008]

O primeiro boom pela busca sistematizada de formas de vida extraterrestre, ciência atualmente conhecida como astrobiologia, provavelmente teve início com as observações de Giovanni  Schiaparelli, no século XIX: um emaranhado de linhas acinzentadas ou esverdeadas que ele acreditava serem canais naturais de água, chamados por ele (em italiano) de canali, e que talvez fossem acompanhados em certos locais por algum tipo de vegetação. Antes das observações realizadas por Schiaparelli através de um telescópio, durante a oposição de Marte – situação em que o planeta encontra-se na mesma direção que o Sol e a Terra, a uma pequena distância de nosso planeta – em 1877, não havia muito interesse científico pela busca de vida em outros planetas.

Observações realizadas até 1887 permitiam a inferência de algumas características de Marte (em especial, pela proximidade da Terra) como a duração aproximada de seu dia ou a existência de calotas polares, o que implica na existência de gelo e não necessariamente gelo de água. As observações de Schiapareli ressoaram entre os astrônomos da época, que confirmavam a observação dos canali e admitiam a possibilidade de que as áreas esverdeadas poderiam ser territórios cobertos por vegetação. É possível, entretanto, que um erro de tradução tenha sido o maior causador do fervor: os canali de Schiaparelli foram erroneamente traduzidos para o inglês como canals ao invés de channels, implicando que os canais eram estruturas artificiais. Os canais marcianos foram importante tópico de estudos por cerca de oitenta anos, ainda. O homem acreditou nos canais porque não havia excluído todas as possibilidades que justificavam sua existência e porque ansiava por companhia.

Anotações originais de Schiaparelli

Anotações originais de Schiaparelli

Das grandes navegações no séculos XV e XVI, passando pelas aventuras que buscavam os pólos terrestres e chegando aos confins do sistema solar – em 2006, enviamos a sonda New Horizons a Plutão –, permanecemos em busca de novos limites. Depois da segunda metade do século XX, o ser humano conseguiu enviar sondas para todo o sistema solar; as primeiras conquistas começaram somente há cerca de meio século, com a corrida espacial rumo à Lua.

O conceito de vida fora de nosso planeta, entretanto, certamente foi menos desenvolvido neste último século que outras áreas da ciência: desde Schiaparelli, criamos modelos que explicam com grande precisão o movimento de todos os planetas do sistema solar e descrevem razoavelmente bem  o comportamento da matéria em seus níveis mais fundamentais. Mas continuamos com uma pergunta que diz respeito a todos, nós: o que é vida?

Quais os critérios que definem a vida?

Parece sempre ter havido consenso no fato de que para haver vida é necessária a existência de água líquida; acreditava-se que a água líquida era necessária à vida (e essa restrição é bastante forte) simplesmente porque não conhecíamos qualquer forma de vida que não precisasse deste elemento, neste estado, para se desenvolver. Nos últimos anos, entretanto, encontramos criaturas que vivem em condições extremas, com o interior de vulcões, em resíduos de reatores nucleares ou mesmo em minas contaminadas. Mesmo que estas recém-descobertas formas de vida, as criaturas extremófilas, não precisem de água em estado líquido para se manterem vivas, ainda não encontramos justificativas que expliquem seu desenvolvimento de algo menos organizado à forma extremófila sem que água no estado líquido existisse. O período anterior soou redundante e para isso forneço uma explicação: a água no estado sólido ou gasoso não representa um meio tão hospitaleiro quanto a água em estado líquido. Sua fluidez é qualidade necessária para que o transporte de moléculas aconteça com maior facilidade e para que determinadas reações químicas aconteçam, e também porque a água é um excelente solvente e muito resistente às mudanças de temperatura.

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte ou na lua Europa

Os canali nunca foram encontrados, mas a busca pela existência de água – elemento que também facilitaria a vida do ser humano em outros ambientes – foi levado adiante, como se sempre entendêssemos sua importância para a vida. A busca contínua resultou em anúncio recente de que foram encontradas amostras de gelo de água em Marte. Não sabemos ainda se existe ou existiu vida no planeta vermelho, mas estamos conseguindo montar um cenário em que, eventualmente, essa possibilidade será validada ou completamente esquecida: é o método científico em ação.

A busca pela vida no universo vem assumindo, assim, novos rumos. Há anos temos um experimento em andamento, conhecido popularmente  como SETI, que procura por sinais de vida inteligente através de ondas eletromagnéticas que possivelmente estejam sendo emitidas por alguma civilização inteligente, inadvertidamente. Mas a vida pode assumir as mais variadas formas e, portanto, precisamos ampliar nossas possibilidades de busca.

Além da água em estado sólido encontrada em Marte, desenvolvemos nos últimos anos tecnologia suficiente para detectar planetas fora de nosso sistema solar, conhecidos como planetas extra-solares. Essa busca trouxe resultados muito interessantes e inesperados, já que de partida desfez a idéia de que planetas muito massivos de um determinado sistema estelar deveriam estar a distâncias consideráveis da estrela que circundam – como em nosso sistema planetário: os planetas mais massivos estão aquém do cinturão de asteróides –. Puro preconceito, é bem verdade, mas nunca antes pudemos observar planetas fora do sistema solar: estamos dando nossa primeira espiada. Os métodos são variados e, atualmente, conseguimos encontrar corpos com dimensões parecidas com as da Terra e até mesmo vários ao redor de uma mesma estrela. Outra novidade na busca por planetas extra-solares é o conceito de zona habitável, onde seria possível que um planeta com dimensões similares às da Terra portasse água líquida.

Formas de vida alternativa, que não dependam das mesmas condições que a maioria dos seres conhecidos ou mesmo das criaturas extremófilas, permitem que pensemos a vida como novos paradigmas. Temos vaga idéia do que procurar se esperamos encontrar outras formas de vida no universo, mas as condições – que permitem delimitar parâmetros às pesquisas – não são suficientemente restritivas e novos rumos vêm sendo tomados. Somos levados a crer que é possível que formas alternativas de vida co-habitam a Terra; elas não teriam sido detectadas por apresentarem reações bioquímicas diferentes ou porque nunca tropeçamos nelas – lembremos que sempre encontramos espécies novas na natureza –. Os parâmetros para as pesquisas seriam, então, muito diferentes dos que vêm sendo aplicados. O que podemos dizer com segurança, por enquanto, é que ainda não sabemos muito bem por onde começar.

Ir à Lua não foi um empreendimento fácil. A primeira ficção científica, O Outro Mundo: a História Cômica dos Estados e Império da Lua, foi publicada em 1657 por Savinien de Cyrano, autor que ficou muito conhecido porque teve sua vida romantizada no teatro (em cartaz em São Paulo!) e em filmes (o mais antigo realizado em 1900!, e o mais famoso em 1990 – porque o filme Roxanne, com Steve Martin e Daryl Hannah, foi esquecido). Outra referência importante é Le Voyage Dans La Lune, de 1902, a obra mais conhecida dos irmãos Meliès. Apenas dois exemplos pra ilustrar o quanto esse sonho sempre esteve presente entre nós (e do quão distantes essas fantasias podiam nos parecer).

Realizamos saltos à la Superman – que começou saltitante e hoje voa livremente por aí –: há 490 anos, Magalhães capitaneou a primeira circunavegação de que se tem notícia. Essa primeira expedição contava com 5 embarcações e cerca de 265 tripulantes, dos quais apenas 18 conseguiram completar a jornada. Em 1492, a expedição de Colombo, composta por 3 embarcações, cruzou o Atlântico. O principal navio dessa expedição, Santa Maria, tinha cerca de 21 metros de comprimento e abrigava 40 pessoas. Por volta do ano 1000, Bjarni Herjólfsson e Leif Ericson podem ter realizado as primeiras viagens dos europeus à América continental.

Até que os primeiros passos – ou melhor, vôos! – fossem dados em direção à conquista espacial, muito tempo se passou. A ficção começou a se tornar realidade somente na década de 1950. U.R.S.S. (espero que alguém ainda saiba o que significa) e E.U.A. já viviam intensamente a Guerra Fria e haviam desenvolvido suas bombas atômicas. Em meio a tudo isso, o aclamado autor de ficção científica Arthur C. Clarke propunha e detalhava o uso de satélites de comunicação que viriam a beneficiar o planeta inteiro. Diferentes e independentes esforços que possibilitaram à U.R.S.S lançar o primeiro satélite ao espaço, um ano antes do Brasil papar sua primeira Copa do Mundo: em 4 de outubro de 1957 foi colocado em órbita o Sputnik I, uma pequena esfera cujo peso é o mesmo de um homem adulto médio, 83,6 quilos, nem gordo nem magro; parece pouca coisa, mas a capacidade de lançar um satélite ao espaço, que emitia sinais de rádio em que podiam ser captados por qualquer rádio amador incendiaram a imaginação de todo mundo – afinal era um feito técnico sem igual – e, em especial, do público norte-americano. E se pudessem lançar mísseis, assim? E se pudessem nos espionar usando estes dispositivos (em tempos de Google, que vive guardando nossas informações e vendendo a seu bel prazer, muitos ainda vivem essa paranóia)? Tinha início, definitivamente, a corrida espacial.

Ouça: telemetria do Sputnik, que podia ser captada por rádios

Então, no fatídico 1957, sequer ganháramos nossa primeira Copa do Mundo, o primeiro planetário do Brasil acabara de abrir suas portas e Paul McCartney e John Lennon haviam acabado de se encontrar pela primeira vez.

A hegemonia espacial russa se manteve por alguns anos. Apesar de já existir, a corrida espacial só teve uma linha de chegada bem definida pouco mais de um mês depois que Yuri Gagarin orbitou a Terra pela primeira vez, em 12 de abril de 1961, por meros (e históricos) 108 minutos; pouco mais de um mês depois, Kennedy fez discurso em que delineava o plano dos E.U.A. de alcançar o feito histórico e tecnológico de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta são e salvo. Dava assim novo impulso ao programa Apollo, que fora lançado no ano anterior. O objetivo – levar um homem à Lua e trazê-lo de volta – era distante o suficiente pras duas superpotências. Ainda não havia como dar por certa uma vitória de qualquer das partes.

Há 40 anos, pisávamos na Lua

Já havíamos nos aventurado pelo espaço, antes da Apollo 11. Saíramos das vizinhanças de casa, orbitáramos a Lua e voltamos. Houve, afinal, outras 10 missões Apollo antes da Apollo 11. Em 20 de julho de 1969, a corrida chegava ao fim, quando dois representantes dos Estados Unidos fincaram a bandeira americana em solo lunar (e, por favor, não me digam que a vêem tremulando em alguma foto), como se tivessem alcançado o topo de alguma montanha. Foram 6 viagens bem sucedidas.

Poderia dizer “os americanos pisaram lá”, mas estamos olhando em retrospectiva; essa é, antes de tudo, uma conquista de toda a humanidade. Os americanos realizaram o feito com muito esforço próprio, mas sobre os ombros de gigantes: Kepler, Galileu, Newton e, exagero permitido, von Braun.

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Muitos acreditam que a história dos avanços e feitos científicos acontece numa linha reta, bem definida; engano natural: muito é descartado no caminho, os erros também contribuindo pro resultado final (o que inclui esforços de guerra, justificando o nome de von Braun). Não é incomum que eu ouça “mas por que não colocar esse dinheiro numa boa causa, como aliviar a fome na África, diminuir a mortalidade infantil, garantir algo que realmente valha alguma coisa”, quando o assunto é ciência pura. Nessas horas, lembro-me apenas do grande divulgador João Paulo, que costuma dizer “o que eles descobrirem, tudo em que esbarrarem, certamente melhorará a vida de todos nós”. Amém.

A Terra, vista do espaço pouco antes do pouso da Apollo 11 em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

Terra, vista do espaço pouco antes da Apollo 11 tocar em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

Já ficou evidenciado, lá no Amálgama – e Giuli reforçou, aqui no Caducando –, que existem muitas idéias diferentes pro que seja arte. Alguns falam em beleza, outros em estranheza, outros na beleza da estranheza. Independente de qual seja o conceito de arte a ser aplicado, Michael Jackson foi considerado pela maior parte dos habitantes desse planetinha como um dos maiores artistas que já viveu. Sua música transcendeu barreiras etnológicas e cronológicas, seus passos de dança foram aprendidos e copiados ad nauseum por quem queria dançar numa festinha e por todas as grandes boy bands; Madonna, depois de Michael, pôs a mão no sexo e assumiu novo status, tornando-se (com méritos) a mulher mais poderosa da indústria da música pop.

Ainda ontem conversava com a Foreman sobre o grande ídolo. Lhe falava do show da Dangerous World Tour, que tive a felicidade de assistir, num já distante outubro de 1993.

– Foi caro, valeu a pena o preço? – ela me perguntou.

– Olha, pagar o que pagam num show do U2, eu não pagaria. Se ele viesse hoje e cobrasse 500 reais, eu acharia caro pra caramba; mas ia me esforçar pra arrumar a grana e ir.

– Eu acho caro, quando vou aos shows do Iron, Judas Priest, sei lá… eu acho os shows deles caros, já.

– Verdade, mas esses caras tão aqui todo ano. – e ficou por isso mesmo, a discussão.

Por que eu pagaria? O cara marcou minha infância, oras. Seus clipes necessariamente passavam no Fantástico, numa época que o programa não era sinônimo de cabeleireiros das estrelas. Sua música era a mais tocada e seu disco, bom, ainda é o que mais vendeu na história. Entretenimento puro, ele tinha um senso de diversão único.

E o fim chegou. Sua música não vendia mais tanto, ele ficou aquém do que a indústria esperava; os fãs da dança e da música o conheciam por conta do que ele fizera num passado cada vez mais distante. E pelas estranhezas, muitas.

Há quem diga que Michael vinha vivendo seu maior momento artístico, nos últimos anos. Cada estranheza indicava uma nova faceta de uma humanidade que negamos ter: ninguém quer ficar mais bonito, mais inteligente, mais bacanudo, escrever melhor. Ah, mas quer, sim. A maluquice toda é que ele tinha os meios e a coragem pra fazer exatamente o que queria. E, por isso, era notícia o tempo todo: quando vestia roupas de mulher, quando mostrava o filho fora da janela, quando espirrava. Eu aceito essa definição de arte: ela provoca mudanças no ser humano, independente de critérios de beleza ou de moralidade. E me recordo de Oscar Wilde, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray: “Um livro não é moral ou imoral. Ele é bem ou mal escrito. Eis tudo.”

Independente da definição, a história está aí pra quem quiser verificar: o nascimento da MTV coincide com o nascimento do videoclipe como veio a existir por mais de uma década, com o lançamento de Thriller; Michael abriu portas para artistas negros, quebrando barreiras raciais em todos os meios possíveis. Estabeleceu ao redor do mundo a idéia norte-americana de entretenimento, com seus shows mitológicos.

O cara, o rei, o mito, se foi. Não poderemos mais vê-lo em ação, bem ou mal. Meu ingresso passou a valer ainda mais, porque experimentei aquela magia. Terminaria aqui, mas seria pouco. Prefiro brincar com as palavras de Suassuna, através de Xicó:

“Que é que eu faço no mundo sem Michael? Michael! Michael! Não tem mais jeito, Michael Jackson morreu. Acabou-se o entertainer mais artista do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo… morre.”

[Este meu texto foi publicado primeiro no portal Amalgama, aqui. Outros achados dele, no cacarecos.]

Um seriado que tem chamado atenção há algum tempo é aquele em que o protagonista é o médico ranzinza House. A série é protagonizada por um cara que não é o típico bonzinho, que acha que métodos educativos podem ser temperados com sarcasmo e ironia, um protagonista que tem parâmetros muito próprios sobre certo e errado, que mesmo manco – ou, como ele mesmo prefere dizer, aleijado – é tido como galã. Estes motivos já são suficientes pra colocar essa série no rol das que merecem alguma atenção crítica. House M.D. ecoa a regra que o bruxo Larry David impôs à unha em Seinfeld, “sem abraços, sem aprendizados”; porque House vez por outra aprende: é de sua natureza fazê-lo.

Seriados de investigação costumam prender minha atenção, por afinidade: eles promovem o uso de métodos que muito se aproximam do científico e, no mínimo, expõem a existência (e necessidade) do pensamento crítico e da evidência empírica. Exemplos de uso de observação e verificação na TV podem ser encontrados em Batman (a série camp dos anos 60), na franquia CSI: Crime Scene Investigation, Monk, Bones,  The Mentalist, pra citar algumas séries; todas elas, num ou noutro momento fazem alusão a Sherlock Holmes, o astuto consultor criado por Arthur Conan Doyle. Holmes é um dos mais populares detetives da literatura – em breve nos cinemas, novamente – e, certamente, o personagem que mais influenciou os outros investigadores das histórias de detetive. Os primeiros contos detetivescos são de autoria de Edgar Allan Poe, com seu detetive Dupin (tido como um detetive inferior por um seguro – outras pessoas diriam arrogante – Sherlock Holmes), mas foi Conan Doyle quem criou as bases do que viriam a ser as idéias do detetive literário e das séries modernas de TV.

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

House tem muito da personalidade de Holmes e alusões são feitas às histórias de detetive de Conan Doyle freqüentemente. Ambos, ótimos observadores, conseguem juntar conjuntos de dados invisíveis ao olho não treinado pra montar um cenário, uma história. Ou, como escrito por Sherlock num artigo: – “De uma gota de água um raciocinador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos que a compõem.“

Holmes realiza experimentos científicos em busca de novas evidências, invisíveis – procurando por pistas que não encontraria usando o simples olhar humano – e confronta as novas informações com hipóteses que já montara, as validando ou descartando, como necessário (e factível). House, por sua vez, soa mais agressivo porque além de criar um cenário a partir das observações que faz sobre o estilo de vida de cada paciente, seus experimentos usam o próprio paciente como parte de seu laboratório. O sofrimento, em House M. D., pode fazer parte da experiência e as respostas ao tratamento fornecem pistas sobre o problema existente.

Outra forma de colocar o parágrafo anterior é dizer que ambos, House e Holmes, fazem um conjunto de observações e, partindo delas, levantam hipóteses (conhecidas genericamente como possibilidades). O passo seguinte nessa cadeia que podemos chamar de método é verificar como cada hipótese se comporta quando comparada à realidade, quando novas informações são coletadas. Hipóteses caem por terra, outras se tornam mais fortes e, eventualmente, o quebra-cabeças é solucionado: chegam os investigadores a uma resposta satisfatória – Holmes descobre como se deu o crime e quem o cometeu; House consegue finalizar seu diagnóstico, embora nem sempre salve o paciente –. Simples assim.

"Todo mundo mente"

"Todo mundo mente"

Entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna de pato…

Esses escrutinadores, conhecedores da natureza humana, seguem um mesmo preceito que House vem imortalizando: todo mundo mente. Confrontados os fatos, as observações, com os discursos de todos, mentiras ficam transparentes. House desenvolve suas idéias sobre a mentira, dizendo que é ela que nos separa das bestas; ele indica três tipos de mentira, pelo menos:

(a)    Brancas: as mentiras pros outros se sentirem melhor;

(b)    Racionalizações: as mentiras pro próprio mentiroso se sentir melhor;

(c)   Omissão: as coisas que não dizemos.

Estes detetives aceitam que o homem é falho e mente – não necessariamente com más intenções –. Há ainda outro tipo de mentira que existe por causa dos nossos sentidos; guardamos um testemunho dos fatos que nem sempre correspondem à realidade: excesso de confiança em nossas capacidades. Por exemplo, quando penso em House lembro-me dos testes, análise e filosofia da mentira que levam o grupo de médicos ao diagnóstico, enquanto Emilio Gonzalez lembra-se somente da aplicação do ceticismo dos doutores, em crítica onde dois personagens – sim, isso mesmo – têm seus ceticismos confrontados; Gonzalez deixou o lema e pessimismo de House de fora da análise que construiu. Qualquer um pode assistir a alguns episódios de House M. D., ler o texto de Gonzalez, acompanhar diferentes noticiários e tomar suas próprias conclusões. Eu me pergunto quais seriam as suas.

Um método deve ser usado por todos e sempre, sempre devemos buscar mais informações, apurando a forma como vemos o mundo.

Outro dia encontrei um casal de amigos que havia séculos não via para bater papo. Um casal que no começo era apenas um cara amigo meu, companheiro de copo e grande fã de Star Wars.

Um dia apareceu com uma namorada e no dia seguinte sumiu. Até aí tudo bem; todo mundo passou por isso e ninguém ficou surpreso ao ver a cadeira vazia no bar, muito pelo contrário: ficamos felizes por saber que nosso amigo sensível, tímido, meio geek e inocente estava feliz, aproveitando as deíicias da vida nos braços de sua escolhida (que era na verdade a escolhedora, mas isso tiraria o charme da rima).

Isso foi dois anos atrás. Desde então aconteceu de cruzar o cara nos corredores da faculdade por tempo suficiente para um duplo “tudo bom” salpicado de pontos (interrogação para o primeiro, reticências para o segundo) e promessas eleitorais de nos encontrarmos um dia para conversarmos decentemente.

Então finalmente nos encontramos, depois de não sei quantas noitadas desmarcadas (por ele e na última hora). Viemos eu, uma amiga da belle époque da faculdade, ele e a namorada…

Peço desculpas pela grosseria, mas outras palavras não traduziriam tão bem meu pensamento: a “noitada” foi uma merda. Levei meia hora a pé para chegar no boteco (que não era boteco, mas um Jazz Bar meio in do Quartier Latin onde a pint é vendida a 5 €) para ficarmos lá uma hora antes de cada um voltar para casa após UMA cerveja (UMA!!! UMA!!!), um pouco de conversa que começou tediosa e progressivamente se tornou angustiante. Não quero falar da parte tediosa, pois essa todo mundo conhece e vive: o que você tem feito? Ah, conseguiu um trampo? Em que? Ah, que legal! E o ambiente de trabalho? E os estudos, pretende continuar? E o apartamento? E o tapete? E o sofá? Papel higiênico de dupla ou tripla camada? Perfumado? (AAAAAHHHHHHH!!!!!)…

Uma vez engolido o noticiário da vida privada começamos a falar de outras coisas, e foi aí que a conversa descambou: depois de meia hora falando de contas de luz, tapetes e sofá-cama, alguém tocou no assunto dos cosméticos. Ato contínuo, as duas meninas engajaram uma conversa animada em torno da nova onda de maquilagem “100% bio”, natural e tudo de bom para o meio ambiente.

Até aí nenhuma novidade: a maquilagem está para certas mulheres como o futebol para certos caras: conversa agradável para passar o tempo, lugar comum reconfortante quando o assunto termina e não se encontra rumo mais interessante para a conversa. Quanto a mim, esperei que o previsível acontecesse: nós dois prestaríamos atenção na conversa das garotas, daríamos alguns pitacos com o pouco conhecimento que temos do assunto sem passar pela fase cretina das piadinhas machistas sobre as “coisas de mulher” (afinal somos pessoas suficientemente cultivadas para vermos as mulheres como nossos –maravilhosos- iguais) e finalmente encontraríamos um assunto nosso. Todavia eis que meu amigo, para meu grande espanto, se revela um profundo conhecedor dos diferentes tipos de rímel, batons, brilhos e outros pós-de­-arroz no mercado. Depois de quinze minutos, até minha amiga se espantou:

- Caramba Max! Você tá informado, hein?

- Pois é… eu cuidei da educação dele – respondeu a namorada, pontuando com um beijo na bochecha do Max e dando uma risadinha antes de se lançar em um pequeno parênteses zombeteiro sobre como “educar” o namorado, discurso esse obviamente muito bem recebido pela minha amiga, com quem ela trocou alguns conselhos. Todo mundo rindo e achando graça até um momento em que, após ouvir a teoria das pequenas obrigações cotidianas que o homem tem que respeitar, acrescentei brincando:

- E deixar os testículos na gaveta do criado mudo para usar de noite quando ela quiser, né Max?

Pausa, sorrisos cretinos congelados nos rostos e olhares surpresos. Pronto: caguei. Bemol na conversa, nota desafinada no concerto da noitada, minha frase causou alguns risinhos vazios e dissipou de vez o papo sobre a educação do homem, fazendo a conversa voltar novamente para os cosméticos.

Terminei devagar minha cerveja para não dar na cara, soltei alguns “hums”, “has” e “hahas” para não ficar em silêncio total e me mandei depois de desejar boa noite para todo mundo. Voltei para casa com vontade de jogar Counter Strike tomando cerveja, comendo carne crua e ouvindo Creedence.

Tudo bem: meu texto até aqui pode parecer extremamente machista; afinal não há mal nenhum em um homem que conhece e discute maquilagem, sofás e crochê com sua namorada, muito pelo contrario: ele é sensível ao universo da companheira e mostra interesse, quer descobrir para compartilhar a vida na condição de igualdade entre os sexos que se impõe aos poucos – e até que enfim! – nesse começo de século XXI.

Agora: sou eu ou alguma coisa se perdeu na escala que diferencia um “homem sensível” de “homem feminizado”? – perfeitamente, “feminizado”, barbarismo que no meu mundo significa condicionar um homem a viver com a omissão e passividade características do modelo comportamental que a sociedade machista forçava na mulher e contra o qual elas muito justamente se revoltaram).

Em que momento o ódio (justificado) do machismo cretino se transformou na condenação sistemática de qualquer forma de virilidade? Quando exatamente a perspectiva da igualdade entre homens e mulheres se transformou em uma infantilização do homem e na cretinização da mulher?

Não sei como começou, mas lembro-me nitidamente da primeira vez que ouvi o termo “metrossexual”, num bar onde apenas se adivinhava a mesa debaixo das garrafas de cerveja vazias. Alguns riram, mas muitos acharam interessante o modelo do novo homem “que cuida da aparência”. Na época não imaginávamos a exacerbação que o conceito iria sofrer: tratava-se apenas de sair do estigma muitas vezes merecido do tênis fedorento, da meia servindo de filtro para café, de todas as marcas de nojeira que se confundiam com provas de masculinidade. Finalmente, o que aconteceu foi além, muito além da imaginação e em um efeito amplificado vimos o homem metrossexual surgir para o mundo na forma de uma patricinha com falo. Da escrotidão à superprodução sem a etapa intermediária do bom gosto, o homem metrossexual é um corredor de lojas, comprador de sapatos e badulaques que não deixa nada a invejar a Paris Hilton. Pronto: merde alors, pensaram os sexólogos e publicitários que coçavam a cabeça, uns se perguntando como classificar os caras que não são David Beckham, outros tentando vender as toneladas de produtos que os caras que não são David Beckham não compravam por acreditarem que era coisa de David Beckham. Surgiu então a brilhante idéia do “übersexual”, que wikipedia define como « um homem de aparência macho ou viril, mas cuidadosamente mantida (…) barba de três dias, pêlos que saem da camisa, o homem se volta um pouco menos para si mesmo e um pouco mais para os outros. O novo ideal masculino caracterizado por uma confiança absoluta em si mesmo sem ser odioso, vaidoso ou fútil, uma virilidade a toda prova, classe e um interesse pela qualidade de vida  do qual George Clooney, Clive Owen ou Antonio Banderas são bons exemplos ».

George Clooney? Antonio Banderas? E quem é esse Clive Owen??? Bom, o fato é que não sou nenhum dos três, nem Beckham, nem Tião Macalé… O que aconteceu com o “homem” sem complementos, o marinheiro, o explorador, o astronauta? Foi pensando nisso que finalmente entendi a causa do comportamento de meu amigo no bar: perda de bolas.

Sim, “bolas”. Não testículos. O testículo é parte da anatomia de todos os mamíferos machos (pelo menos até onde sei). Qualquer homem nasce com testículos, mas as bolas têm de ser merecidas e não são um privilégio do gênero masculino. Uma mulher que encara o marido bêbado para que ele não espanque o filho tem bola; ao contrario do marido. O homossexual que tem a coragem de aparecer na televisão para se assumir com o risco da reprovação da família tem bola e os cretinos que se juntam para bater nele, não.

A época em que as bolas eram uma necessidade à sobrevivência da comunidade está longe da realidade atual nas áreas “desenvolvidas” do mundo onde a pobreza, a fome e a sede são aproximadamente controladas. O Homo sapiens sapiens que se encontra preso à rede de regras e protocolos culturais que marcam cada aspecto deste tipo de sociedade se desliga dos riscos que até recentemente na história tínhamos que correr para satisfazer as necessidades básicas. A pressão da boa educação, do bom comportamento, o mito da criança calma e boazinha, acabam varrendo para longe o personagem do naughty boy. Tom Sawyer não é mais um personagem profundo e interessante porque entre outros fatores evoca a ousadia e a rebelião, o free spirit de um moleque que sonha ser pirata ou cavaleiro e passa a ser visto como um menino grosseiro e primitivo que não tem seu lugar em um mundo “civilizado e culto”. As coisas que poderiam resgatar esse personagem (sua generosidade em aceitar levar a surra no lugar da menina que ama, a coragem de fazer uma jangada e se mandar para uma ilha no meio do Mississipi, etc.) não fazem mais o mesmo efeito em um sistema onde até mesmo o amor se dissolve aos poucos em brincadeiras de “fica-não-fica” que começam desde cedo.

O mundo de hoje é conformista e egoísta. A noção de “bolas” que usei aqui não tem mais seu lugar dentro do sistema que a criou, pois este se corrompe cada vez mais. Antes era preciso ter bolas para poder conseguir a liberdade. Agora renunciamos às nossas bolas e liberdade para nos sentirmos seguros pois o medo (justificado e injustificado) ganhou importância. Queremos viver o máximo possível, queremos corresponder ao cânone da beleza, do sucesso… não queremos mais ser exploradores, pesquisadores, astronautas, veterinários: queremos ser celebridades e vencer o Big Brother.

Mas não somos nós que vencemos o Big Brother, é ele que nos venceu. Disparado. Falamos de intrigas, não de sonhos. Fizemos a tecnologia evoluir exponencialmente nos últimos anos e continuamos sem ter pisado em Marte. Aos poucos penduramos nossas bolas no armário e as contemplamos com o sorriso de um adulto que observa os brinquedos de sua infância. Chamamos isso de maturidade, mas que maturidade é essa que não nos permite progredir, que faz meu amigo ouvir que foi “educado” sem dizer nada? Aceitamos que tudo deva ser programado e planejado para podermos dormir tranqüilos e com isso renunciamos à liberdade da diagonal imprevista por medo de nos machucarmos. A esperança equilibrista ficou na música e nos tornamos outras tantas Amarantas, marcados por um egoísmo que se originou no medo por nos mesmos.

Minha brincadeira certamente causou alguns comentários reprovadores. Passei por um machista, um retrógrado, um troglodita. Talvez isso explique por que ninguém me convida para as noitadas ‘in’ de Paris… e tanto melhor. Se for para fugir dessa babaquice crônica que é a veneração do mundo de Caras, então venham homens, mulheres, crianças, velhos: tornemo-nos todos machistas e retrógrados e vamos recuperar nossas bolas antes que alguém as esconda de vez!

Conversava com o Gabriel sobre e ele, pimposão, descolado, pergunta: – “Que é NOB?”

Expliquei. Disse algo muito parecido com o que se encontra no heresia loira e no Yahoo. As duas definições são próximas.

- “Deve ser chato pra danar, isso aí,” foi a resposta dele. Concordei. Pretendíamos mudar de assunto, mas tergiversamos: NOB não é NOB.

Explicaria em uma palavra: misnamer. Vamos a outro ponto antes de chegar a isso. Noutro dia eu escrevi uma entrada em que indicava uma possível definição de ciência. Existem muitas. Definições brotam em galhos.

Não é de espantar a quantidade de definições que mudaram com o tempo. Isso acontece muito, principalmente no meio científico. No dia-a-dia, porém, tudo se confunde, o nome com a coisa em si (se algum filósofo ler isso, provavelmente vai querer me chutar as nádegas).

Uma possível definição…

NOB não pode ser NOB, porque quem vai a NOB não é nerd; estão mais pra geeks. A distinção parece pouca, mas é importante. A esmagadora maioria dos nerds é geek, mas não se pode alterar os fatores, pra não escrever bobagem: a maioria dos geeks não é nerd. Os freqüentadores deste tipo de evento são bem descritos nos links já citados: o nerd deles é sinônimo de blogueiro, twitteiro, interneteiro e viciados em tecnologia.

Na minha época de escola,ainda nos anos 90, tecnologia era coisa de outro mundo, coisa que não se conseguia nem por contrabando. Então, nerd era qualquer um deslocado de um grupo pop (com boas notas, preferencialmente), que não se adaptasse ao estereótipo juvenil de quem sai todo sábado, fumava um cigarrinho pra passar pela fila da balada e implorava por bitoquinhas quaisquer só pra não voltar pra casa no zero a zero. Jogar RPG, ler e tirar boas notas, isso só reforçava o estereótipo; nunca foi condição sine qua non pra que alguém fosse denominado nerd. Na guerra adolescente, entretanto, qualquer dessas características é, por si só, suficiente, numa lógica que se aplicada ao mundo natural trará deduções como “tem rabo, então é cachorro”.

Certo.

Pra qualquer balada, o segredo do sucesso

Pra qualquer balada, o segredo do sucesso

Nerd é outra coisa, ainda, tem outra definição. O rótulo colocado na adolescência não é adequado só porque os outros o entoam e usam como desculpa pra não conhecerem tudo que é diferente. Minorias acabaram por se unir: quem escreve corretamente, quem gosta de brincar com gadgets e quem gosta de trabalhar com os mesmos, quem cria tendências, mesmo quando não liga a mínima se fez ou não; ser nerd é ser bacanudo, cool. O rótulo de Steve Jobs e Bill Gates é desejado. Não ter relação alguma com o que eles fazem não é importante; fazer parte do grupo é suficiente. Tenho rabo, logo sou um cachorro.

Daí o misnamer. Como já disse, em ciências, acontece o tempo todo. Plutão foi o nono planeta do sistema solar por décadas. Em 2006 a União Astronômica Internacional, ante novos objetos que foram encontrados orbitando o Sol, resolveu criar uma categoria diferente de planeta: os planetas anões ou plutóides. Ante essa redefinição, o sistema solar não terá dez ou doze planetas. Plutão continua a ser o mesmo objeto, classificado de outro jeito. Existem, hoje, diferentes maneiras de classificar o companheiro de Caronte (falei muito rapidamente sobre isso aqui). Pode não ser o melhor exemplo, então vou a outro: léptons. O termo tem origem grega e deveria designar partículas com massa muito pequena, dentre outras características bastante específicas. Não se contava, entretanto, que fossem descobertas novas partículas com as mesmas propriedades físicas mas com massas muitas vezes maiores que aquelas pra quem o nome lépton fora originalmente escolhido a dedo. Pois bem, nesse caso o nome ficou e a definição foi torcida pra acomodar as novidades experimentais.

Para o participante de NOB a pretensão, acidental ou não, é dilatar a definição de nerd pra encaixar tribos não muito bem classificadas. Existem tribos e todas querem ser idênticas, respeitadas suas respectivas zonas autônomas. Ninguém mais admite ser faixa púrpura em túnica completamente branca, dando graça e beleza a tudo mais, tal qual Epiteto, em seus Discursos. Prega-se mais do mesmo.

É. NOBs são GOBs. Ainda. Com muita condescendência.

A Spirit e Opportunity pousaram em Marte há mais de 5 anos, preparadíssimas pra três meses de missão; estavam a procura de indícios da existência de água e até mesmo vida no nosso vizinho vermelho. Os dois robozinhos ainda funcionam e continuam as pesquisas. Superaram as expectativas de vida e, apesar de não terem encontrado água ou vida, já são uma história de sucesso.

Os dois robôs desvendaram evidências de que Marte nem sempre foi tão frio e seco quanto hoje, mas já pode ter abrigado água e condições pra existência de vida (ao menos como a conhecemos, mas isso é outra discussão) em sua superfície. Evidências, evidências.

Há quem diga que missões desse tipo são um gasto desnecessário e tolo de dinheiro. Bobagem. Os dois robôs são dois lindos exemplares de um possível novo campo da engenharia: robótica de campo. Tá minha tradução do texto lido não é das melhores; mas é fato que desenvolveu-se muita tecnologia e conhecimento, na busca incessante por soluções, permitindo a continuidade da missão por tanto tempo. A equipe de engenheiros e cientistas teve que aprender a lidar com condições climáticas que variaram bastante ao longo dos 5 anos e quilômetros percorridos pelos dois robôs durante a missão.

5 longos e difíceis anos. Andar com os veículos em um (extra)terreno há milhões de quilômetros de distância não é moleza: pedras, dunas, crateras, tiveram que aprender como passar por tais obstáculos, quer seja os ultrapassando, quer seja os evitando. Importante escolha: não dá pra evitar todos os problemas e o fator tempo é fundamental para os trabalhos.

E a missão continua. Os dois robozinhos podem falhar, mas e daí, tudo que a Nasa vem enviando pro espaço tem sobrevivido muito mais que o esperado – lembram do Hubble e das Voyagers? –; exatamente por isso, tanto Opportunity quanto Spirit estão se locomovendo pra sites mais interessantes.

O Opportunity tá indo pra cratera Endeavor, que tem 20 quilômetros de diâmetro e 200 metros de profundidade. Ótimo, porque quanto mais profunda a cratera, mais história marciana pode ser desvendada; além disso, a Endeavor pode apresentar outros interesses, por causa da forma como as rochas estão dispostas ao redor da cratera. Não importa, pragmatismo puro: mais dois anos de caminhada até o alvo, 100 metros por dia.

Opportunity olhando pra trás em sua longa caminhada rumo à Endeavour

Já o Spirit é um grande desafio pra equipe. Trabalha com energia reduzida, porque a região onde está tem pouco vento, necessário pra limpeza dos painéis solares que geram energia pro robozinho. O terreno também não ajuda, porque mais difícil pra manobras e, pra ajudar, ele tem que ser dirigido em marcha ré, porque uma das suas rodas travou. Coisas que acontecem numa missão tão longa e sem possibilidade de reparos in loco. Já que a especialidade do Spirit é pesquisar em rochas vulcânicas, irá viajar somente 250 metros (em terreno mais acidentado que o enfrentado pelo Opportunity, é verdade); felicidade que o sítio do pouso da Spirit tenha tantas variações dentro de sua especialidade.

E…

Mesmo que a missão acabe amanhã pros dois robozinhos, terão acumulado e enviado uma quantidade enorme de dados pra gente e o que não aprendemos sobre Marte, aprendemos sobre robótica. Pra quem pergunta sobre a finalidade desse tipo de pesquisa, fica aí uma possibilidade, pro futuro: remoção de minas terrestres, que ainda causam uma quantidade enorme de mortes e desmembramentos mundo afora.

Tive contato há algum tempo com o tema dos planetas extrasolares (ou exoplanetas, não considero a nomenclatura uma preocupação), aqueles existentes fora do sistema solar, quando ainda trabalhava sob uma cúpula. No país inteiro os divulgadores de astronomia, financiados pelo estado, tiveram o sistema solar como tema, por 50 anos – como se nunca houvesse muito mais sobre o que falar, no não-tão-minúsculo-universo -.  Desejávamos quebrar essa lógica e nos adiantarmos na curva: a ciência e os anseios do público, as pequenas curiosidades, se expandiram; então por que não fazer novas e diferentes abordagens, ampliando o espectro do conhecimento oferecido?

Pra realidade da divulgação que vi de perto, ter exoplanetas como tema foi uma inovação. Podia até parecer uma fuga, porque escapamos das revoluções do sistema solar; por decisão da União Astronômica Internacional (IAU, International Astronomical Union), enquanto escolhíamos o inovador tema, Plutão deixava de ser um planeta. Mas essa é outra conversa (mais detalhes podem ser encontrados aqui), Fazer algo diferente era, por si só, importante: os tempos eram outros.

Já estou falando de outras motivações…

Assisti ao filme Contato, semana passada. Já li o livro ao menos três vezes (estou ensaiando uma quarta). Conheço físicos que não gostam, outros tantos que não se preocupam com divulgação – grande maioria dos físicos, ao menos no Brasil – e, bem… eu simplesmente acho o livro ótimo (o filme também vale muito a pena, com pelo menos duas cenas pra lá de ótimas), excelente chamariz.

Contato trata da busca por inteligência extraterrestre. Inteligência extraterrestre… supomos vida, quando usamos esta expressão. Claro, existe a possibilidade de que encontremos uma civilização de robôs ou qualquer coisa parecida, algo que não classificamos como uma forma de vida. Normal. Sim, normal, porque nunca conseguimos definir univocamente o que é vida – na verdade, definimos, mas usamos como padrão o que conhecemos. E o que conhecemos é pouco, muito pouco -;  essa indefinição me leva ao filme Homem bicentenário (prefiro o filme ao livro homônimo). Esses filmes são conversa pra outra hora, vamos ao ponto.

bicentennialman

Não sabemos como definir vida, sabemos?

O programa privado sem fins lucrativos SETI (Search for ExtraTerrestrial Inteligence), citado em Contato, realmente existe. O SETI não é um grupo que vive a procura de ovnis, objetos voadores não identificados, nada tão óbvio; os pesquisadores do SETI buscam por sinais vindos do espaço que possam ter sido enviados – com ou sem intenção! A gente envia sinais pro espaço o tempo todo: transmissões de TV, rádio… – por uma outra civilização qualquer. Ainda não encontramos sinais muito bons, mas continuamos tentando. É difícil deixar isso pra lá, apesar da falta de evidências, porque o universo é grande demais pra que deixemos essa busca de lado, que começou há poucas décadas (muito menos de um século).

Nem toda vida é capaz de enviar sinais através do espaço…

Só que nem toda forma de vida é capaz de enviar sinais pra fora de seu próprio planeta. Aqui mesmo, nesse nosso planeta tão repleto de formas de vida, a única espécie (que saibamos, não podemos contar com jubartes como em Star Trek IV, ou os golfinhos do Guia do mochileiro das galáxias) que envia sinais pro espaço é a dos Homo sapiens sapiens.  E podem se assombrar: estima-se que o número de espécies na Terra pode estar entre 5 e 100 milhões. (E não, isso não é prova de que somos especiais)

Giordano Bruno foi torturado e queimado, já em anos posteriores àqueles compreendidos pela idade média, porque afirmava, entre outras coisas,  que havia muitos, muitos planetas no universo. Menos de uma década depois, há 400 anos, Galileu começou a observar o céu com seu primeiro instrumento óptico – é essa a deixa pra que esse seja o ano internacional da astronomia -. Pouco depois observou com sua luneta Júpiter e suas luas, tendo novas idéias. De lá pra cá, conhecemos melhor o sistema solar, pisamos na Lua (há quem duvide . Acontece existe o bom e o mau ceticismo)  e conseguimos enviar sondas a grande parte dos outros planetas do sistema solar. Abrimos novas janelas pro conhecimento, com o lançamento de telescópios orbitais, mas somente há cerca de 13 anos conseguimos a primeira evidência da existência de um exoplaneta – de forma indireta, sem ter informação visual do danado -. Desde então, confirmou-se a existência de mais de 300 planetas fora de nosso sistema solar, usando diferentes métodos; e, este ano, pela primeira vez, foi obtida a primeira imagem de um exoplaneta!

formalhautb-hubble

Foto de Formalhaut b, obtida pelo Hubble – Primeira imagem em luz visível de um exoplaneta, tirada pelo telescópio Hubble. Grandes telescópios na Terra já conseguem imagens de exoplanetas na faixa infravermelha do espectro eletromagnético

 Estamos sós?

A esmagadora maioria dos exoplanetas detectados são gigantes gasosos; só poderia ser assim, até então, por questões técnicas, porque não tínhamos técnicas suficientemente desenvolvidas pra conseguir encontrar corpos celestes com massas menores que aquela dos planetas gigantes. Essa realidade vem mudando; em 2006 foi lançada pela agência espacial européia a sonda COROT, que tem entre seus objetivos encontrar planetas telúricos (bela palavra pra dizer que o dito cujo é rochoso).

E agora, tcha-na-nam!, semana passada, a Nasa lançou a sonda espacial Kepler. A Kepler é, até agora, a sonda mais bem equipada pra encontrar planetas telúricos, em especial aqueles que se encontram em condições de ter água nos estados sólido, líquido e gasoso. Importante, isso, porque todas as formas de vida que conhecemos até agora precisam, em algum momento, de água. A água é fundamental. Nem toda forma de vida pode precisar de água, é verdade que essa possibilidade existe; mas toda vida que conhecemos depende ou dependeu da água (ao menos aparentemente, não sei muito sobre), portanto é razoável procurarmos por planetas que tenham essas preciosas moléculas.

Procurando Nemo

As sondas espaciais têm a vantagem de poderem observar ininterruptamente uma parte específica do céu. Os observatórios terrestres não o fazem, porque estando presos a Terra, giram junto com ela (a rotação, lembram?) e, conseqüentemente, acabam por ver pedaços diferentes de céu em horas diferentes. A rotação de nosso planeta define isso; apesar dos rádio telescópios serem capazes de fazer observações até mesmo com o Sol a pino, eles são forçados pela rotação da Terra a encarar faixas diferentes de céu, no decorrer de um longo dia. A sonda Kepler, por sua vez, deverá ter seus instrumentos apontados ininterruptamente pra uma mesma faixa de céu, por pelo menos 3 anos e meio (que é o tempo mínimo esperado de funcionamento do satélite). Apesar de voltada pruma mesma faixa de céu por tanto tempo, a missão será capaz de pesquisar mais de 100 mil estrelas. Uau.

A técnica usada pela Kepler é simples de entender (implementar é sempre outra coisa): ela medirá a luminosidade de estrelas diversas, por um longo período de tempo. Variações nessa luminosidade podem ser indicadores de corpos passando entre a sonda e a estrela; é o mesmo tipo de variação de luminosidade que acontece quando alguém passa em frente à sua TV quando você está assistindo Chaves. Só que, no caso da relação estrela-planeta, as proporções são outras e aí parto pra outro exemplo, mais perto da proporcionalidade: seria como se você observasse uma mosca passando em frente a uma lâmpada num poste de observação que está localizado em outro continente (pra quem está em São Paulo, podemos supor o poste em Paris).

Podemos não encontrar, ainda e por muito tempo, formas de vida inteligente, é verdade. Acreditamos num bocado de fantasias que às vezes demonstram ser realidade – como o caso já citado de Giordano Bruno e os inumeráveis planetas do universo – ou pura imaginação – como o caso dos canais marcianos -. Estudemos e esperemos. Há quatrocentos anos não havia a ciência como a conhecemos; foram feitas as primeiras observações do céu usando tecnologia óptica desenvolvida pelo homem, descobertas luas em planetas já-não-tão-distantes-assim-e-ainda-assim-longe-pra-chuchu, pessoas eram mortas por questões de fé (epa, isso ainda acontece!). Quem sabe as possibilidades que se desdobrarão nos próximos 400 anos? O quebra-cabeças está sendo montado, uma peça por vez.

 

keplerFOV

Campo de visão da Kepler: região que envolve as constelações do Cisne e Lira; 100 mil estrelas pra observar

 

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