[uma versão anterior deste texto foi publicada pelo jornal O Escafandro, da faculdade de Oceanografia da USP, em 2008]

O primeiro boom pela busca sistematizada de formas de vida extraterrestre, ciência atualmente conhecida como astrobiologia, provavelmente teve início com as observações de Giovanni  Schiaparelli, no século XIX: um emaranhado de linhas acinzentadas ou esverdeadas que ele acreditava serem canais naturais de água, chamados por ele (em italiano) de canali, e que talvez fossem acompanhados em certos locais por algum tipo de vegetação. Antes das observações realizadas por Schiaparelli através de um telescópio, durante a oposição de Marte – situação em que o planeta encontra-se na mesma direção que o Sol e a Terra, a uma pequena distância de nosso planeta – em 1877, não havia muito interesse científico pela busca de vida em outros planetas.

Observações realizadas até 1887 permitiam a inferência de algumas características de Marte (em especial, pela proximidade da Terra) como a duração aproximada de seu dia ou a existência de calotas polares, o que implica na existência de gelo e não necessariamente gelo de água. As observações de Schiapareli ressoaram entre os astrônomos da época, que confirmavam a observação dos canali e admitiam a possibilidade de que as áreas esverdeadas poderiam ser territórios cobertos por vegetação. É possível, entretanto, que um erro de tradução tenha sido o maior causador do fervor: os canali de Schiaparelli foram erroneamente traduzidos para o inglês como canals ao invés de channels, implicando que os canais eram estruturas artificiais. Os canais marcianos foram importante tópico de estudos por cerca de oitenta anos, ainda. O homem acreditou nos canais porque não havia excluído todas as possibilidades que justificavam sua existência e porque ansiava por companhia.

Anotações originais de Schiaparelli

Anotações originais de Schiaparelli

Das grandes navegações no séculos XV e XVI, passando pelas aventuras que buscavam os pólos terrestres e chegando aos confins do sistema solar – em 2006, enviamos a sonda New Horizons a Plutão –, permanecemos em busca de novos limites. Depois da segunda metade do século XX, o ser humano conseguiu enviar sondas para todo o sistema solar; as primeiras conquistas começaram somente há cerca de meio século, com a corrida espacial rumo à Lua.

O conceito de vida fora de nosso planeta, entretanto, certamente foi menos desenvolvido neste último século que outras áreas da ciência: desde Schiaparelli, criamos modelos que explicam com grande precisão o movimento de todos os planetas do sistema solar e descrevem razoavelmente bem  o comportamento da matéria em seus níveis mais fundamentais. Mas continuamos com uma pergunta que diz respeito a todos, nós: o que é vida?

Quais os critérios que definem a vida?

Parece sempre ter havido consenso no fato de que para haver vida é necessária a existência de água líquida; acreditava-se que a água líquida era necessária à vida (e essa restrição é bastante forte) simplesmente porque não conhecíamos qualquer forma de vida que não precisasse deste elemento, neste estado, para se desenvolver. Nos últimos anos, entretanto, encontramos criaturas que vivem em condições extremas, com o interior de vulcões, em resíduos de reatores nucleares ou mesmo em minas contaminadas. Mesmo que estas recém-descobertas formas de vida, as criaturas extremófilas, não precisem de água em estado líquido para se manterem vivas, ainda não encontramos justificativas que expliquem seu desenvolvimento de algo menos organizado à forma extremófila sem que água no estado líquido existisse. O período anterior soou redundante e para isso forneço uma explicação: a água no estado sólido ou gasoso não representa um meio tão hospitaleiro quanto a água em estado líquido. Sua fluidez é qualidade necessária para que o transporte de moléculas aconteça com maior facilidade e para que determinadas reações químicas aconteçam, e também porque a água é um excelente solvente e muito resistente às mudanças de temperatura.

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte ou na lua Europa

Os canali nunca foram encontrados, mas a busca pela existência de água – elemento que também facilitaria a vida do ser humano em outros ambientes – foi levado adiante, como se sempre entendêssemos sua importância para a vida. A busca contínua resultou em anúncio recente de que foram encontradas amostras de gelo de água em Marte. Não sabemos ainda se existe ou existiu vida no planeta vermelho, mas estamos conseguindo montar um cenário em que, eventualmente, essa possibilidade será validada ou completamente esquecida: é o método científico em ação.

A busca pela vida no universo vem assumindo, assim, novos rumos. Há anos temos um experimento em andamento, conhecido popularmente  como SETI, que procura por sinais de vida inteligente através de ondas eletromagnéticas que possivelmente estejam sendo emitidas por alguma civilização inteligente, inadvertidamente. Mas a vida pode assumir as mais variadas formas e, portanto, precisamos ampliar nossas possibilidades de busca.

Além da água em estado sólido encontrada em Marte, desenvolvemos nos últimos anos tecnologia suficiente para detectar planetas fora de nosso sistema solar, conhecidos como planetas extra-solares. Essa busca trouxe resultados muito interessantes e inesperados, já que de partida desfez a idéia de que planetas muito massivos de um determinado sistema estelar deveriam estar a distâncias consideráveis da estrela que circundam – como em nosso sistema planetário: os planetas mais massivos estão aquém do cinturão de asteróides –. Puro preconceito, é bem verdade, mas nunca antes pudemos observar planetas fora do sistema solar: estamos dando nossa primeira espiada. Os métodos são variados e, atualmente, conseguimos encontrar corpos com dimensões parecidas com as da Terra e até mesmo vários ao redor de uma mesma estrela. Outra novidade na busca por planetas extra-solares é o conceito de zona habitável, onde seria possível que um planeta com dimensões similares às da Terra portasse água líquida.

Formas de vida alternativa, que não dependam das mesmas condições que a maioria dos seres conhecidos ou mesmo das criaturas extremófilas, permitem que pensemos a vida como novos paradigmas. Temos vaga idéia do que procurar se esperamos encontrar outras formas de vida no universo, mas as condições – que permitem delimitar parâmetros às pesquisas – não são suficientemente restritivas e novos rumos vêm sendo tomados. Somos levados a crer que é possível que formas alternativas de vida co-habitam a Terra; elas não teriam sido detectadas por apresentarem reações bioquímicas diferentes ou porque nunca tropeçamos nelas – lembremos que sempre encontramos espécies novas na natureza –. Os parâmetros para as pesquisas seriam, então, muito diferentes dos que vêm sendo aplicados. O que podemos dizer com segurança, por enquanto, é que ainda não sabemos muito bem por onde começar.

Ir à Lua não foi um empreendimento fácil. A primeira ficção científica, O Outro Mundo: a História Cômica dos Estados e Império da Lua, foi publicada em 1657 por Savinien de Cyrano, autor que ficou muito conhecido porque teve sua vida romantizada no teatro (em cartaz em São Paulo!) e em filmes (o mais antigo realizado em 1900!, e o mais famoso em 1990 – porque o filme Roxanne, com Steve Martin e Daryl Hannah, foi esquecido). Outra referência importante é Le Voyage Dans La Lune, de 1902, a obra mais conhecida dos irmãos Meliès. Apenas dois exemplos pra ilustrar o quanto esse sonho sempre esteve presente entre nós (e do quão distantes essas fantasias podiam nos parecer).

Realizamos saltos à la Superman – que começou saltitante e hoje voa livremente por aí –: há 490 anos, Magalhães capitaneou a primeira circunavegação de que se tem notícia. Essa primeira expedição contava com 5 embarcações e cerca de 265 tripulantes, dos quais apenas 18 conseguiram completar a jornada. Em 1492, a expedição de Colombo, composta por 3 embarcações, cruzou o Atlântico. O principal navio dessa expedição, Santa Maria, tinha cerca de 21 metros de comprimento e abrigava 40 pessoas. Por volta do ano 1000, Bjarni Herjólfsson e Leif Ericson podem ter realizado as primeiras viagens dos europeus à América continental.

Até que os primeiros passos – ou melhor, vôos! – fossem dados em direção à conquista espacial, muito tempo se passou. A ficção começou a se tornar realidade somente na década de 1950. U.R.S.S. (espero que alguém ainda saiba o que significa) e E.U.A. já viviam intensamente a Guerra Fria e haviam desenvolvido suas bombas atômicas. Em meio a tudo isso, o aclamado autor de ficção científica Arthur C. Clarke propunha e detalhava o uso de satélites de comunicação que viriam a beneficiar o planeta inteiro. Diferentes e independentes esforços que possibilitaram à U.R.S.S lançar o primeiro satélite ao espaço, um ano antes do Brasil papar sua primeira Copa do Mundo: em 4 de outubro de 1957 foi colocado em órbita o Sputnik I, uma pequena esfera cujo peso é o mesmo de um homem adulto médio, 83,6 quilos, nem gordo nem magro; parece pouca coisa, mas a capacidade de lançar um satélite ao espaço, que emitia sinais de rádio em que podiam ser captados por qualquer rádio amador incendiaram a imaginação de todo mundo – afinal era um feito técnico sem igual – e, em especial, do público norte-americano. E se pudessem lançar mísseis, assim? E se pudessem nos espionar usando estes dispositivos (em tempos de Google, que vive guardando nossas informações e vendendo a seu bel prazer, muitos ainda vivem essa paranóia)? Tinha início, definitivamente, a corrida espacial.

Ouça: telemetria do Sputnik, que podia ser captada por rádios

Então, no fatídico 1957, sequer ganháramos nossa primeira Copa do Mundo, o primeiro planetário do Brasil acabara de abrir suas portas e Paul McCartney e John Lennon haviam acabado de se encontrar pela primeira vez.

A hegemonia espacial russa se manteve por alguns anos. Apesar de já existir, a corrida espacial só teve uma linha de chegada bem definida pouco mais de um mês depois que Yuri Gagarin orbitou a Terra pela primeira vez, em 12 de abril de 1961, por meros (e históricos) 108 minutos; pouco mais de um mês depois, Kennedy fez discurso em que delineava o plano dos E.U.A. de alcançar o feito histórico e tecnológico de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta são e salvo. Dava assim novo impulso ao programa Apollo, que fora lançado no ano anterior. O objetivo – levar um homem à Lua e trazê-lo de volta – era distante o suficiente pras duas superpotências. Ainda não havia como dar por certa uma vitória de qualquer das partes.

Há 40 anos, pisávamos na Lua

Já havíamos nos aventurado pelo espaço, antes da Apollo 11. Saíramos das vizinhanças de casa, orbitáramos a Lua e voltamos. Houve, afinal, outras 10 missões Apollo antes da Apollo 11. Em 20 de julho de 1969, a corrida chegava ao fim, quando dois representantes dos Estados Unidos fincaram a bandeira americana em solo lunar (e, por favor, não me digam que a vêem tremulando em alguma foto), como se tivessem alcançado o topo de alguma montanha. Foram 6 viagens bem sucedidas.

Poderia dizer “os americanos pisaram lá”, mas estamos olhando em retrospectiva; essa é, antes de tudo, uma conquista de toda a humanidade. Os americanos realizaram o feito com muito esforço próprio, mas sobre os ombros de gigantes: Kepler, Galileu, Newton e, exagero permitido, von Braun.

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Muitos acreditam que a história dos avanços e feitos científicos acontece numa linha reta, bem definida; engano natural: muito é descartado no caminho, os erros também contribuindo pro resultado final (o que inclui esforços de guerra, justificando o nome de von Braun). Não é incomum que eu ouça “mas por que não colocar esse dinheiro numa boa causa, como aliviar a fome na África, diminuir a mortalidade infantil, garantir algo que realmente valha alguma coisa”, quando o assunto é ciência pura. Nessas horas, lembro-me apenas do grande divulgador João Paulo, que costuma dizer “o que eles descobrirem, tudo em que esbarrarem, certamente melhorará a vida de todos nós”. Amém.

A Terra, vista do espaço pouco antes do pouso da Apollo 11 em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

Terra, vista do espaço pouco antes da Apollo 11 tocar em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

Já ficou evidenciado, lá no Amálgama – e Giuli reforçou, aqui no Caducando –, que existem muitas idéias diferentes pro que seja arte. Alguns falam em beleza, outros em estranheza, outros na beleza da estranheza. Independente de qual seja o conceito de arte a ser aplicado, Michael Jackson foi considerado pela maior parte dos habitantes desse planetinha como um dos maiores artistas que já viveu. Sua música transcendeu barreiras etnológicas e cronológicas, seus passos de dança foram aprendidos e copiados ad nauseum por quem queria dançar numa festinha e por todas as grandes boy bands; Madonna, depois de Michael, pôs a mão no sexo e assumiu novo status, tornando-se (com méritos) a mulher mais poderosa da indústria da música pop.

Ainda ontem conversava com a Foreman sobre o grande ídolo. Lhe falava do show da Dangerous World Tour, que tive a felicidade de assistir, num já distante outubro de 1993.

– Foi caro, valeu a pena o preço? – ela me perguntou.

– Olha, pagar o que pagam num show do U2, eu não pagaria. Se ele viesse hoje e cobrasse 500 reais, eu acharia caro pra caramba; mas ia me esforçar pra arrumar a grana e ir.

– Eu acho caro, quando vou aos shows do Iron, Judas Priest, sei lá… eu acho os shows deles caros, já.

– Verdade, mas esses caras tão aqui todo ano. – e ficou por isso mesmo, a discussão.

Por que eu pagaria? O cara marcou minha infância, oras. Seus clipes necessariamente passavam no Fantástico, numa época que o programa não era sinônimo de cabeleireiros das estrelas. Sua música era a mais tocada e seu disco, bom, ainda é o que mais vendeu na história. Entretenimento puro, ele tinha um senso de diversão único.

E o fim chegou. Sua música não vendia mais tanto, ele ficou aquém do que a indústria esperava; os fãs da dança e da música o conheciam por conta do que ele fizera num passado cada vez mais distante. E pelas estranhezas, muitas.

Há quem diga que Michael vinha vivendo seu maior momento artístico, nos últimos anos. Cada estranheza indicava uma nova faceta de uma humanidade que negamos ter: ninguém quer ficar mais bonito, mais inteligente, mais bacanudo, escrever melhor. Ah, mas quer, sim. A maluquice toda é que ele tinha os meios e a coragem pra fazer exatamente o que queria. E, por isso, era notícia o tempo todo: quando vestia roupas de mulher, quando mostrava o filho fora da janela, quando espirrava. Eu aceito essa definição de arte: ela provoca mudanças no ser humano, independente de critérios de beleza ou de moralidade. E me recordo de Oscar Wilde, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray: “Um livro não é moral ou imoral. Ele é bem ou mal escrito. Eis tudo.”

Independente da definição, a história está aí pra quem quiser verificar: o nascimento da MTV coincide com o nascimento do videoclipe como veio a existir por mais de uma década, com o lançamento de Thriller; Michael abriu portas para artistas negros, quebrando barreiras raciais em todos os meios possíveis. Estabeleceu ao redor do mundo a idéia norte-americana de entretenimento, com seus shows mitológicos.

O cara, o rei, o mito, se foi. Não poderemos mais vê-lo em ação, bem ou mal. Meu ingresso passou a valer ainda mais, porque experimentei aquela magia. Terminaria aqui, mas seria pouco. Prefiro brincar com as palavras de Suassuna, através de Xicó:

“Que é que eu faço no mundo sem Michael? Michael! Michael! Não tem mais jeito, Michael Jackson morreu. Acabou-se o entertainer mais artista do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo… morre.”

[Este meu texto foi publicado primeiro no portal Amalgama, aqui. Outros achados dele, no cacarecos.]

Um seriado que tem chamado atenção há algum tempo é aquele em que o protagonista é o médico ranzinza House. A série é protagonizada por um cara que não é o típico bonzinho, que acha que métodos educativos podem ser temperados com sarcasmo e ironia, um protagonista que tem parâmetros muito próprios sobre certo e errado, que mesmo manco – ou, como ele mesmo prefere dizer, aleijado – é tido como galã. Estes motivos já são suficientes pra colocar essa série no rol das que merecem alguma atenção crítica. House M.D. ecoa a regra que o bruxo Larry David impôs à unha em Seinfeld, “sem abraços, sem aprendizados”; porque House vez por outra aprende: é de sua natureza fazê-lo.

Seriados de investigação costumam prender minha atenção, por afinidade: eles promovem o uso de métodos que muito se aproximam do científico e, no mínimo, expõem a existência (e necessidade) do pensamento crítico e da evidência empírica. Exemplos de uso de observação e verificação na TV podem ser encontrados em Batman (a série camp dos anos 60), na franquia CSI: Crime Scene Investigation, Monk, Bones,  The Mentalist, pra citar algumas séries; todas elas, num ou noutro momento fazem alusão a Sherlock Holmes, o astuto consultor criado por Arthur Conan Doyle. Holmes é um dos mais populares detetives da literatura – em breve nos cinemas, novamente – e, certamente, o personagem que mais influenciou os outros investigadores das histórias de detetive. Os primeiros contos detetivescos são de autoria de Edgar Allan Poe, com seu detetive Dupin (tido como um detetive inferior por um seguro – outras pessoas diriam arrogante – Sherlock Holmes), mas foi Conan Doyle quem criou as bases do que viriam a ser as idéias do detetive literário e das séries modernas de TV.

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

House tem muito da personalidade de Holmes e alusões são feitas às histórias de detetive de Conan Doyle freqüentemente. Ambos, ótimos observadores, conseguem juntar conjuntos de dados invisíveis ao olho não treinado pra montar um cenário, uma história. Ou, como escrito por Sherlock num artigo: – “De uma gota de água um raciocinador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos que a compõem.“

Holmes realiza experimentos científicos em busca de novas evidências, invisíveis – procurando por pistas que não encontraria usando o simples olhar humano – e confronta as novas informações com hipóteses que já montara, as validando ou descartando, como necessário (e factível). House, por sua vez, soa mais agressivo porque além de criar um cenário a partir das observações que faz sobre o estilo de vida de cada paciente, seus experimentos usam o próprio paciente como parte de seu laboratório. O sofrimento, em House M. D., pode fazer parte da experiência e as respostas ao tratamento fornecem pistas sobre o problema existente.

Outra forma de colocar o parágrafo anterior é dizer que ambos, House e Holmes, fazem um conjunto de observações e, partindo delas, levantam hipóteses (conhecidas genericamente como possibilidades). O passo seguinte nessa cadeia que podemos chamar de método é verificar como cada hipótese se comporta quando comparada à realidade, quando novas informações são coletadas. Hipóteses caem por terra, outras se tornam mais fortes e, eventualmente, o quebra-cabeças é solucionado: chegam os investigadores a uma resposta satisfatória – Holmes descobre como se deu o crime e quem o cometeu; House consegue finalizar seu diagnóstico, embora nem sempre salve o paciente –. Simples assim.

"Todo mundo mente"

"Todo mundo mente"

Entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna de pato…

Esses escrutinadores, conhecedores da natureza humana, seguem um mesmo preceito que House vem imortalizando: todo mundo mente. Confrontados os fatos, as observações, com os discursos de todos, mentiras ficam transparentes. House desenvolve suas idéias sobre a mentira, dizendo que é ela que nos separa das bestas; ele indica três tipos de mentira, pelo menos:

(a)    Brancas: as mentiras pros outros se sentirem melhor;

(b)    Racionalizações: as mentiras pro próprio mentiroso se sentir melhor;

(c)   Omissão: as coisas que não dizemos.

Estes detetives aceitam que o homem é falho e mente – não necessariamente com más intenções –. Há ainda outro tipo de mentira que existe por causa dos nossos sentidos; guardamos um testemunho dos fatos que nem sempre correspondem à realidade: excesso de confiança em nossas capacidades. Por exemplo, quando penso em House lembro-me dos testes, análise e filosofia da mentira que levam o grupo de médicos ao diagnóstico, enquanto Emilio Gonzalez lembra-se somente da aplicação do ceticismo dos doutores, em crítica onde dois personagens – sim, isso mesmo – têm seus ceticismos confrontados; Gonzalez deixou o lema e pessimismo de House de fora da análise que construiu. Qualquer um pode assistir a alguns episódios de House M. D., ler o texto de Gonzalez, acompanhar diferentes noticiários e tomar suas próprias conclusões. Eu me pergunto quais seriam as suas.

Um método deve ser usado por todos e sempre, sempre devemos buscar mais informações, apurando a forma como vemos o mundo.

Outro dia encontrei um casal de amigos que havia séculos não via para bater papo. Um casal que no começo era apenas um cara amigo meu, companheiro de copo e grande fã de Star Wars.

Um dia apareceu com uma namorada e no dia seguinte sumiu. Até aí tudo bem; todo mundo passou por isso e ninguém ficou surpreso ao ver a cadeira vazia no bar, muito pelo contrário: ficamos felizes por saber que nosso amigo sensível, tímido, meio geek e inocente estava feliz, aproveitando as deíicias da vida nos braços de sua escolhida (que era na verdade a escolhedora, mas isso tiraria o charme da rima).

Isso foi dois anos atrás. Desde então aconteceu de cruzar o cara nos corredores da faculdade por tempo suficiente para um duplo “tudo bom” salpicado de pontos (interrogação para o primeiro, reticências para o segundo) e promessas eleitorais de nos encontrarmos um dia para conversarmos decentemente.

Então finalmente nos encontramos, depois de não sei quantas noitadas desmarcadas (por ele e na última hora). Viemos eu, uma amiga da belle époque da faculdade, ele e a namorada…

Peço desculpas pela grosseria, mas outras palavras não traduziriam tão bem meu pensamento: a “noitada” foi uma merda. Levei meia hora a pé para chegar no boteco (que não era boteco, mas um Jazz Bar meio in do Quartier Latin onde a pint é vendida a 5 €) para ficarmos lá uma hora antes de cada um voltar para casa após UMA cerveja (UMA!!! UMA!!!), um pouco de conversa que começou tediosa e progressivamente se tornou angustiante. Não quero falar da parte tediosa, pois essa todo mundo conhece e vive: o que você tem feito? Ah, conseguiu um trampo? Em que? Ah, que legal! E o ambiente de trabalho? E os estudos, pretende continuar? E o apartamento? E o tapete? E o sofá? Papel higiênico de dupla ou tripla camada? Perfumado? (AAAAAHHHHHHH!!!!!)…

Uma vez engolido o noticiário da vida privada começamos a falar de outras coisas, e foi aí que a conversa descambou: depois de meia hora falando de contas de luz, tapetes e sofá-cama, alguém tocou no assunto dos cosméticos. Ato contínuo, as duas meninas engajaram uma conversa animada em torno da nova onda de maquilagem “100% bio”, natural e tudo de bom para o meio ambiente.

Até aí nenhuma novidade: a maquilagem está para certas mulheres como o futebol para certos caras: conversa agradável para passar o tempo, lugar comum reconfortante quando o assunto termina e não se encontra rumo mais interessante para a conversa. Quanto a mim, esperei que o previsível acontecesse: nós dois prestaríamos atenção na conversa das garotas, daríamos alguns pitacos com o pouco conhecimento que temos do assunto sem passar pela fase cretina das piadinhas machistas sobre as “coisas de mulher” (afinal somos pessoas suficientemente cultivadas para vermos as mulheres como nossos –maravilhosos- iguais) e finalmente encontraríamos um assunto nosso. Todavia eis que meu amigo, para meu grande espanto, se revela um profundo conhecedor dos diferentes tipos de rímel, batons, brilhos e outros pós-de­-arroz no mercado. Depois de quinze minutos, até minha amiga se espantou:

- Caramba Max! Você tá informado, hein?

- Pois é… eu cuidei da educação dele – respondeu a namorada, pontuando com um beijo na bochecha do Max e dando uma risadinha antes de se lançar em um pequeno parênteses zombeteiro sobre como “educar” o namorado, discurso esse obviamente muito bem recebido pela minha amiga, com quem ela trocou alguns conselhos. Todo mundo rindo e achando graça até um momento em que, após ouvir a teoria das pequenas obrigações cotidianas que o homem tem que respeitar, acrescentei brincando:

- E deixar os testículos na gaveta do criado mudo para usar de noite quando ela quiser, né Max?

Pausa, sorrisos cretinos congelados nos rostos e olhares surpresos. Pronto: caguei. Bemol na conversa, nota desafinada no concerto da noitada, minha frase causou alguns risinhos vazios e dissipou de vez o papo sobre a educação do homem, fazendo a conversa voltar novamente para os cosméticos.

Terminei devagar minha cerveja para não dar na cara, soltei alguns “hums”, “has” e “hahas” para não ficar em silêncio total e me mandei depois de desejar boa noite para todo mundo. Voltei para casa com vontade de jogar Counter Strike tomando cerveja, comendo carne crua e ouvindo Creedence.

Tudo bem: meu texto até aqui pode parecer extremamente machista; afinal não há mal nenhum em um homem que conhece e discute maquilagem, sofás e crochê com sua namorada, muito pelo contrario: ele é sensível ao universo da companheira e mostra interesse, quer descobrir para compartilhar a vida na condição de igualdade entre os sexos que se impõe aos poucos – e até que enfim! – nesse começo de século XXI.

Agora: sou eu ou alguma coisa se perdeu na escala que diferencia um “homem sensível” de “homem feminizado”? – perfeitamente, “feminizado”, barbarismo que no meu mundo significa condicionar um homem a viver com a omissão e passividade características do modelo comportamental que a sociedade machista forçava na mulher e contra o qual elas muito justamente se revoltaram).

Em que momento o ódio (justificado) do machismo cretino se transformou na condenação sistemática de qualquer forma de virilidade? Quando exatamente a perspectiva da igualdade entre homens e mulheres se transformou em uma infantilização do homem e na cretinização da mulher?

Não sei como começou, mas lembro-me nitidamente da primeira vez que ouvi o termo “metrossexual”, num bar onde apenas se adivinhava a mesa debaixo das garrafas de cerveja vazias. Alguns riram, mas muitos acharam interessante o modelo do novo homem “que cuida da aparência”. Na época não imaginávamos a exacerbação que o conceito iria sofrer: tratava-se apenas de sair do estigma muitas vezes merecido do tênis fedorento, da meia servindo de filtro para café, de todas as marcas de nojeira que se confundiam com provas de masculinidade. Finalmente, o que aconteceu foi além, muito além da imaginação e em um efeito amplificado vimos o homem metrossexual surgir para o mundo na forma de uma patricinha com falo. Da escrotidão à superprodução sem a etapa intermediária do bom gosto, o homem metrossexual é um corredor de lojas, comprador de sapatos e badulaques que não deixa nada a invejar a Paris Hilton. Pronto: merde alors, pensaram os sexólogos e publicitários que coçavam a cabeça, uns se perguntando como classificar os caras que não são David Beckham, outros tentando vender as toneladas de produtos que os caras que não são David Beckham não compravam por acreditarem que era coisa de David Beckham. Surgiu então a brilhante idéia do “übersexual”, que wikipedia define como « um homem de aparência macho ou viril, mas cuidadosamente mantida (…) barba de três dias, pêlos que saem da camisa, o homem se volta um pouco menos para si mesmo e um pouco mais para os outros. O novo ideal masculino caracterizado por uma confiança absoluta em si mesmo sem ser odioso, vaidoso ou fútil, uma virilidade a toda prova, classe e um interesse pela qualidade de vida  do qual George Clooney, Clive Owen ou Antonio Banderas são bons exemplos ».

George Clooney? Antonio Banderas? E quem é esse Clive Owen??? Bom, o fato é que não sou nenhum dos três, nem Beckham, nem Tião Macalé… O que aconteceu com o “homem” sem complementos, o marinheiro, o explorador, o astronauta? Foi pensando nisso que finalmente entendi a causa do comportamento de meu amigo no bar: perda de bolas.

Sim, “bolas”. Não testículos. O testículo é parte da anatomia de todos os mamíferos machos (pelo menos até onde sei). Qualquer homem nasce com testículos, mas as bolas têm de ser merecidas e não são um privilégio do gênero masculino. Uma mulher que encara o marido bêbado para que ele não espanque o filho tem bola; ao contrario do marido. O homossexual que tem a coragem de aparecer na televisão para se assumir com o risco da reprovação da família tem bola e os cretinos que se juntam para bater nele, não.

A época em que as bolas eram uma necessidade à sobrevivência da comunidade está longe da realidade atual nas áreas “desenvolvidas” do mundo onde a pobreza, a fome e a sede são aproximadamente controladas. O Homo sapiens sapiens que se encontra preso à rede de regras e protocolos culturais que marcam cada aspecto deste tipo de sociedade se desliga dos riscos que até recentemente na história tínhamos que correr para satisfazer as necessidades básicas. A pressão da boa educação, do bom comportamento, o mito da criança calma e boazinha, acabam varrendo para longe o personagem do naughty boy. Tom Sawyer não é mais um personagem profundo e interessante porque entre outros fatores evoca a ousadia e a rebelião, o free spirit de um moleque que sonha ser pirata ou cavaleiro e passa a ser visto como um menino grosseiro e primitivo que não tem seu lugar em um mundo “civilizado e culto”. As coisas que poderiam resgatar esse personagem (sua generosidade em aceitar levar a surra no lugar da menina que ama, a coragem de fazer uma jangada e se mandar para uma ilha no meio do Mississipi, etc.) não fazem mais o mesmo efeito em um sistema onde até mesmo o amor se dissolve aos poucos em brincadeiras de “fica-não-fica” que começam desde cedo.

O mundo de hoje é conformista e egoísta. A noção de “bolas” que usei aqui não tem mais seu lugar dentro do sistema que a criou, pois este se corrompe cada vez mais. Antes era preciso ter bolas para poder conseguir a liberdade. Agora renunciamos às nossas bolas e liberdade para nos sentirmos seguros pois o medo (justificado e injustificado) ganhou importância. Queremos viver o máximo possível, queremos corresponder ao cânone da beleza, do sucesso… não queremos mais ser exploradores, pesquisadores, astronautas, veterinários: queremos ser celebridades e vencer o Big Brother.

Mas não somos nós que vencemos o Big Brother, é ele que nos venceu. Disparado. Falamos de intrigas, não de sonhos. Fizemos a tecnologia evoluir exponencialmente nos últimos anos e continuamos sem ter pisado em Marte. Aos poucos penduramos nossas bolas no armário e as contemplamos com o sorriso de um adulto que observa os brinquedos de sua infância. Chamamos isso de maturidade, mas que maturidade é essa que não nos permite progredir, que faz meu amigo ouvir que foi “educado” sem dizer nada? Aceitamos que tudo deva ser programado e planejado para podermos dormir tranqüilos e com isso renunciamos à liberdade da diagonal imprevista por medo de nos machucarmos. A esperança equilibrista ficou na música e nos tornamos outras tantas Amarantas, marcados por um egoísmo que se originou no medo por nos mesmos.

Minha brincadeira certamente causou alguns comentários reprovadores. Passei por um machista, um retrógrado, um troglodita. Talvez isso explique por que ninguém me convida para as noitadas ‘in’ de Paris… e tanto melhor. Se for para fugir dessa babaquice crônica que é a veneração do mundo de Caras, então venham homens, mulheres, crianças, velhos: tornemo-nos todos machistas e retrógrados e vamos recuperar nossas bolas antes que alguém as esconda de vez!

Conversava com o Gabriel sobre e ele, pimposão, descolado, pergunta: – “Que é NOB?”

Expliquei. Disse algo muito parecido com o que se encontra no heresia loira e no Yahoo. As duas definições são próximas.

- “Deve ser chato pra danar, isso aí,” foi a resposta dele. Concordei. Pretendíamos mudar de assunto, mas tergiversamos: NOB não é NOB.

Explicaria em uma palavra: misnamer. Vamos a outro ponto antes de chegar a isso. Noutro dia eu escrevi uma entrada em que indicava uma possível definição de ciência. Existem muitas. Definições brotam em galhos.

Não é de espantar a quantidade de definições que mudaram com o tempo. Isso acontece muito, principalmente no meio científico. No dia-a-dia, porém, tudo se confunde, o nome com a coisa em si (se algum filósofo ler isso, provavelmente vai querer me chutar as nádegas).

Uma possível definição…

NOB não pode ser NOB, porque quem vai a NOB não é nerd; estão mais pra geeks. A distinção parece pouca, mas é importante. A esmagadora maioria dos nerds é geek, mas não se pode alterar os fatores, pra não escrever bobagem: a maioria dos geeks não é nerd. Os freqüentadores deste tipo de evento são bem descritos nos links já citados: o nerd deles é sinônimo de blogueiro, twitteiro, interneteiro e viciados em tecnologia.

Na minha época de escola,ainda nos anos 90, tecnologia era coisa de outro mundo, coisa que não se conseguia nem por contrabando. Então, nerd era qualquer um deslocado de um grupo pop (com boas notas, preferencialmente), que não se adaptasse ao estereótipo juvenil de quem sai todo sábado, fumava um cigarrinho pra passar pela fila da balada e implorava por bitoquinhas quaisquer só pra não voltar pra casa no zero a zero. Jogar RPG, ler e tirar boas notas, isso só reforçava o estereótipo; nunca foi condição sine qua non pra que alguém fosse denominado nerd. Na guerra adolescente, entretanto, qualquer dessas características é, por si só, suficiente, numa lógica que se aplicada ao mundo natural trará deduções como “tem rabo, então é cachorro”.

Certo.

Pra qualquer balada, o segredo do sucesso

Pra qualquer balada, o segredo do sucesso

Nerd é outra coisa, ainda, tem outra definição. O rótulo colocado na adolescência não é adequado só porque os outros o entoam e usam como desculpa pra não conhecerem tudo que é diferente. Minorias acabaram por se unir: quem escreve corretamente, quem gosta de brincar com gadgets e quem gosta de trabalhar com os mesmos, quem cria tendências, mesmo quando não liga a mínima se fez ou não; ser nerd é ser bacanudo, cool. O rótulo de Steve Jobs e Bill Gates é desejado. Não ter relação alguma com o que eles fazem não é importante; fazer parte do grupo é suficiente. Tenho rabo, logo sou um cachorro.

Daí o misnamer. Como já disse, em ciências, acontece o tempo todo. Plutão foi o nono planeta do sistema solar por décadas. Em 2006 a União Astronômica Internacional, ante novos objetos que foram encontrados orbitando o Sol, resolveu criar uma categoria diferente de planeta: os planetas anões ou plutóides. Ante essa redefinição, o sistema solar não terá dez ou doze planetas. Plutão continua a ser o mesmo objeto, classificado de outro jeito. Existem, hoje, diferentes maneiras de classificar o companheiro de Caronte (falei muito rapidamente sobre isso aqui). Pode não ser o melhor exemplo, então vou a outro: léptons. O termo tem origem grega e deveria designar partículas com massa muito pequena, dentre outras características bastante específicas. Não se contava, entretanto, que fossem descobertas novas partículas com as mesmas propriedades físicas mas com massas muitas vezes maiores que aquelas pra quem o nome lépton fora originalmente escolhido a dedo. Pois bem, nesse caso o nome ficou e a definição foi torcida pra acomodar as novidades experimentais.

Para o participante de NOB a pretensão, acidental ou não, é dilatar a definição de nerd pra encaixar tribos não muito bem classificadas. Existem tribos e todas querem ser idênticas, respeitadas suas respectivas zonas autônomas. Ninguém mais admite ser faixa púrpura em túnica completamente branca, dando graça e beleza a tudo mais, tal qual Epiteto, em seus Discursos. Prega-se mais do mesmo.

É. NOBs são GOBs. Ainda. Com muita condescendência.

A Spirit e Opportunity pousaram em Marte há mais de 5 anos, preparadíssimas pra três meses de missão; estavam a procura de indícios da existência de água e até mesmo vida no nosso vizinho vermelho. Os dois robozinhos ainda funcionam e continuam as pesquisas. Superaram as expectativas de vida e, apesar de não terem encontrado água ou vida, já são uma história de sucesso.

Os dois robôs desvendaram evidências de que Marte nem sempre foi tão frio e seco quanto hoje, mas já pode ter abrigado água e condições pra existência de vida (ao menos como a conhecemos, mas isso é outra discussão) em sua superfície. Evidências, evidências.

Há quem diga que missões desse tipo são um gasto desnecessário e tolo de dinheiro. Bobagem. Os dois robôs são dois lindos exemplares de um possível novo campo da engenharia: robótica de campo. Tá minha tradução do texto lido não é das melhores; mas é fato que desenvolveu-se muita tecnologia e conhecimento, na busca incessante por soluções, permitindo a continuidade da missão por tanto tempo. A equipe de engenheiros e cientistas teve que aprender a lidar com condições climáticas que variaram bastante ao longo dos 5 anos e quilômetros percorridos pelos dois robôs durante a missão.

5 longos e difíceis anos. Andar com os veículos em um (extra)terreno há milhões de quilômetros de distância não é moleza: pedras, dunas, crateras, tiveram que aprender como passar por tais obstáculos, quer seja os ultrapassando, quer seja os evitando. Importante escolha: não dá pra evitar todos os problemas e o fator tempo é fundamental para os trabalhos.

E a missão continua. Os dois robozinhos podem falhar, mas e daí, tudo que a Nasa vem enviando pro espaço tem sobrevivido muito mais que o esperado – lembram do Hubble e das Voyagers? –; exatamente por isso, tanto Opportunity quanto Spirit estão se locomovendo pra sites mais interessantes.

O Opportunity tá indo pra cratera Endeavor, que tem 20 quilômetros de diâmetro e 200 metros de profundidade. Ótimo, porque quanto mais profunda a cratera, mais história marciana pode ser desvendada; além disso, a Endeavor pode apresentar outros interesses, por causa da forma como as rochas estão dispostas ao redor da cratera. Não importa, pragmatismo puro: mais dois anos de caminhada até o alvo, 100 metros por dia.

Opportunity olhando pra trás em sua longa caminhada rumo à Endeavour

Já o Spirit é um grande desafio pra equipe. Trabalha com energia reduzida, porque a região onde está tem pouco vento, necessário pra limpeza dos painéis solares que geram energia pro robozinho. O terreno também não ajuda, porque mais difícil pra manobras e, pra ajudar, ele tem que ser dirigido em marcha ré, porque uma das suas rodas travou. Coisas que acontecem numa missão tão longa e sem possibilidade de reparos in loco. Já que a especialidade do Spirit é pesquisar em rochas vulcânicas, irá viajar somente 250 metros (em terreno mais acidentado que o enfrentado pelo Opportunity, é verdade); felicidade que o sítio do pouso da Spirit tenha tantas variações dentro de sua especialidade.

E…

Mesmo que a missão acabe amanhã pros dois robozinhos, terão acumulado e enviado uma quantidade enorme de dados pra gente e o que não aprendemos sobre Marte, aprendemos sobre robótica. Pra quem pergunta sobre a finalidade desse tipo de pesquisa, fica aí uma possibilidade, pro futuro: remoção de minas terrestres, que ainda causam uma quantidade enorme de mortes e desmembramentos mundo afora.

Tive contato há algum tempo com o tema dos planetas extrasolares (ou exoplanetas, não considero a nomenclatura uma preocupação), aqueles existentes fora do sistema solar, quando ainda trabalhava sob uma cúpula. No país inteiro os divulgadores de astronomia, financiados pelo estado, tiveram o sistema solar como tema, por 50 anos – como se nunca houvesse muito mais sobre o que falar, no não-tão-minúsculo-universo -.  Desejávamos quebrar essa lógica e nos adiantarmos na curva: a ciência e os anseios do público, as pequenas curiosidades, se expandiram; então por que não fazer novas e diferentes abordagens, ampliando o espectro do conhecimento oferecido?

Pra realidade da divulgação que vi de perto, ter exoplanetas como tema foi uma inovação. Podia até parecer uma fuga, porque escapamos das revoluções do sistema solar; por decisão da União Astronômica Internacional (IAU, International Astronomical Union), enquanto escolhíamos o inovador tema, Plutão deixava de ser um planeta. Mas essa é outra conversa (mais detalhes podem ser encontrados aqui), Fazer algo diferente era, por si só, importante: os tempos eram outros.

Já estou falando de outras motivações…

Assisti ao filme Contato, semana passada. Já li o livro ao menos três vezes (estou ensaiando uma quarta). Conheço físicos que não gostam, outros tantos que não se preocupam com divulgação – grande maioria dos físicos, ao menos no Brasil – e, bem… eu simplesmente acho o livro ótimo (o filme também vale muito a pena, com pelo menos duas cenas pra lá de ótimas), excelente chamariz.

Contato trata da busca por inteligência extraterrestre. Inteligência extraterrestre… supomos vida, quando usamos esta expressão. Claro, existe a possibilidade de que encontremos uma civilização de robôs ou qualquer coisa parecida, algo que não classificamos como uma forma de vida. Normal. Sim, normal, porque nunca conseguimos definir univocamente o que é vida – na verdade, definimos, mas usamos como padrão o que conhecemos. E o que conhecemos é pouco, muito pouco -;  essa indefinição me leva ao filme Homem bicentenário (prefiro o filme ao livro homônimo). Esses filmes são conversa pra outra hora, vamos ao ponto.

bicentennialman

Não sabemos como definir vida, sabemos?

O programa privado sem fins lucrativos SETI (Search for ExtraTerrestrial Inteligence), citado em Contato, realmente existe. O SETI não é um grupo que vive a procura de ovnis, objetos voadores não identificados, nada tão óbvio; os pesquisadores do SETI buscam por sinais vindos do espaço que possam ter sido enviados – com ou sem intenção! A gente envia sinais pro espaço o tempo todo: transmissões de TV, rádio… – por uma outra civilização qualquer. Ainda não encontramos sinais muito bons, mas continuamos tentando. É difícil deixar isso pra lá, apesar da falta de evidências, porque o universo é grande demais pra que deixemos essa busca de lado, que começou há poucas décadas (muito menos de um século).

Nem toda vida é capaz de enviar sinais através do espaço…

Só que nem toda forma de vida é capaz de enviar sinais pra fora de seu próprio planeta. Aqui mesmo, nesse nosso planeta tão repleto de formas de vida, a única espécie (que saibamos, não podemos contar com jubartes como em Star Trek IV, ou os golfinhos do Guia do mochileiro das galáxias) que envia sinais pro espaço é a dos Homo sapiens sapiens.  E podem se assombrar: estima-se que o número de espécies na Terra pode estar entre 5 e 100 milhões. (E não, isso não é prova de que somos especiais)

Giordano Bruno foi torturado e queimado, já em anos posteriores àqueles compreendidos pela idade média, porque afirmava, entre outras coisas,  que havia muitos, muitos planetas no universo. Menos de uma década depois, há 400 anos, Galileu começou a observar o céu com seu primeiro instrumento óptico – é essa a deixa pra que esse seja o ano internacional da astronomia -. Pouco depois observou com sua luneta Júpiter e suas luas, tendo novas idéias. De lá pra cá, conhecemos melhor o sistema solar, pisamos na Lua (há quem duvide . Acontece existe o bom e o mau ceticismo)  e conseguimos enviar sondas a grande parte dos outros planetas do sistema solar. Abrimos novas janelas pro conhecimento, com o lançamento de telescópios orbitais, mas somente há cerca de 13 anos conseguimos a primeira evidência da existência de um exoplaneta – de forma indireta, sem ter informação visual do danado -. Desde então, confirmou-se a existência de mais de 300 planetas fora de nosso sistema solar, usando diferentes métodos; e, este ano, pela primeira vez, foi obtida a primeira imagem de um exoplaneta!

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Foto de Formalhaut b, obtida pelo Hubble – Primeira imagem em luz visível de um exoplaneta, tirada pelo telescópio Hubble. Grandes telescópios na Terra já conseguem imagens de exoplanetas na faixa infravermelha do espectro eletromagnético

 Estamos sós?

A esmagadora maioria dos exoplanetas detectados são gigantes gasosos; só poderia ser assim, até então, por questões técnicas, porque não tínhamos técnicas suficientemente desenvolvidas pra conseguir encontrar corpos celestes com massas menores que aquela dos planetas gigantes. Essa realidade vem mudando; em 2006 foi lançada pela agência espacial européia a sonda COROT, que tem entre seus objetivos encontrar planetas telúricos (bela palavra pra dizer que o dito cujo é rochoso).

E agora, tcha-na-nam!, semana passada, a Nasa lançou a sonda espacial Kepler. A Kepler é, até agora, a sonda mais bem equipada pra encontrar planetas telúricos, em especial aqueles que se encontram em condições de ter água nos estados sólido, líquido e gasoso. Importante, isso, porque todas as formas de vida que conhecemos até agora precisam, em algum momento, de água. A água é fundamental. Nem toda forma de vida pode precisar de água, é verdade que essa possibilidade existe; mas toda vida que conhecemos depende ou dependeu da água (ao menos aparentemente, não sei muito sobre), portanto é razoável procurarmos por planetas que tenham essas preciosas moléculas.

Procurando Nemo

As sondas espaciais têm a vantagem de poderem observar ininterruptamente uma parte específica do céu. Os observatórios terrestres não o fazem, porque estando presos a Terra, giram junto com ela (a rotação, lembram?) e, conseqüentemente, acabam por ver pedaços diferentes de céu em horas diferentes. A rotação de nosso planeta define isso; apesar dos rádio telescópios serem capazes de fazer observações até mesmo com o Sol a pino, eles são forçados pela rotação da Terra a encarar faixas diferentes de céu, no decorrer de um longo dia. A sonda Kepler, por sua vez, deverá ter seus instrumentos apontados ininterruptamente pra uma mesma faixa de céu, por pelo menos 3 anos e meio (que é o tempo mínimo esperado de funcionamento do satélite). Apesar de voltada pruma mesma faixa de céu por tanto tempo, a missão será capaz de pesquisar mais de 100 mil estrelas. Uau.

A técnica usada pela Kepler é simples de entender (implementar é sempre outra coisa): ela medirá a luminosidade de estrelas diversas, por um longo período de tempo. Variações nessa luminosidade podem ser indicadores de corpos passando entre a sonda e a estrela; é o mesmo tipo de variação de luminosidade que acontece quando alguém passa em frente à sua TV quando você está assistindo Chaves. Só que, no caso da relação estrela-planeta, as proporções são outras e aí parto pra outro exemplo, mais perto da proporcionalidade: seria como se você observasse uma mosca passando em frente a uma lâmpada num poste de observação que está localizado em outro continente (pra quem está em São Paulo, podemos supor o poste em Paris).

Podemos não encontrar, ainda e por muito tempo, formas de vida inteligente, é verdade. Acreditamos num bocado de fantasias que às vezes demonstram ser realidade – como o caso já citado de Giordano Bruno e os inumeráveis planetas do universo – ou pura imaginação – como o caso dos canais marcianos -. Estudemos e esperemos. Há quatrocentos anos não havia a ciência como a conhecemos; foram feitas as primeiras observações do céu usando tecnologia óptica desenvolvida pelo homem, descobertas luas em planetas já-não-tão-distantes-assim-e-ainda-assim-longe-pra-chuchu, pessoas eram mortas por questões de fé (epa, isso ainda acontece!). Quem sabe as possibilidades que se desdobrarão nos próximos 400 anos? O quebra-cabeças está sendo montado, uma peça por vez.

 

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Campo de visão da Kepler: região que envolve as constelações do Cisne e Lira; 100 mil estrelas pra observar

 

Quando criança sempre acabamos ouvindo ditados que devem, a princípio, traduzir alguma forma de sabedoria, seja ela popular ou não. Essas pérolas são geralmente distribuídas pelos avós que, zelosos pela construção do caráter de seus netinhos, pontuam seus discursos com infinitas citações para nos ajudar mais tarde na vida. Algumas funcionam sempre (O diabo tanto enfeitou o olho do filho que furou), outras viram clichês que dão a quem os usa um ar de pedantismo e cheiro de naftalina (O amor é fogo que arde sem doer), outras ainda são obscuras e as guardamos em um cantinho do nosso cérebro de criança, esperando finalmente entendê-las “quando crescer” (Viado gosta de homem, mulher gosta é de dinheiro). Tem os ditados machistas, racistas, obscurantistas e tantas outras variações que além de serem estranhos nos valem uns tabefes quando usados, mesmo sem sabermos ao certo por que: esses viram tabu, e com razão.

Mas de todos os pedaços de frases que me passaram quando moleque, um me parecia especialmente estranho: “A Curiosidade Matou o Gato”.

A frase por si só já tem um quê de misterioso, como um oráculo de tragédia grega. Mas não para por aí. Primeiro; por que a curiosidade matou justamente o gato? Comecei a observar com cuidado esses pequenos felinos domésticos apenas para chegar à conclusão que fora um instinto caçador muito desenvolvido e um sadismo quase tão aperfeiçoado quanto o instinto, o gato é um bicho interesseiro, preguiçoso e essencialmente dorminhoco. Nada a ver com o hamster ou o orangotando que em suas respectivas gaiolas e viveiros cutucam tudo e fuçam por todo canto. O gato é um leão miniatura, caçador vagabundo, que gosta de um carinho de vez em quando e, se vai com a tua cara, te traz de presente um bichinho morto às cinco da manhã. (Que os grandes defensores da classe felina não me joguem pedras! Gosto muito de gatos, acho lindinho, etc… mas convenhamos que até agora não falei besteira nenhuma).

Mas a curiosidade matou o gato. Se o gato não é curioso, então como enteder isso? Talvez seja a curiosidade do moleque. Esse sim, com todo o sadismo que apenas a complexidade da psiquê humana pode gerar, passa seu tempo a afogar gatinhos no bueiro ou a explodi-los com bombinhas de São João. Ainda assim, mesmo tendo sido moleque (e, portanto, ter provado o delicioso sadismo com animais), nunca suportei maltratar nada maior do que uma minhoca. Adorava os gatinhos que encontrava na casa de Tia Anita e meus pais sempre suspiravam quando ia encontrá-la pois sabiam que voltaria agarrado a um gatinho que ela tinha me “dado de presente”, para o qual já havia escolhido nome e passado tardes inteiras bricando. Todo o ano a volta para São Paulo era marcada pelo mesmo dramalhão de arrancar o bichano das mãos do moleque, devolvê-lo para Tia Anita e em seguida pegar a estrada com um chorão ranhento no banco de trás. Ora, para quem gostava assim de gatos, não acho que minha curiosidade seria uma ameaça real à vida da criaturinha.

Brincadeiras à parte, o sentido do ditado é claro: “quer você seja um gato ou não, fique de boa e não vá meter o nariz onde não é chamado, faça o que tem que fazer e pronto”. De repente, tudo parece claro: uma criança curiosa descobre o mundo experimentando, enfiando os dedos nas tomadas, comendo terra, fuçando no lixo, rolando na lama… enfim, a descoberta do mundo complexo em que vivemos implica uma série de experiências – boas, ruins, inofensivas ou perigosas – que pais, avós e outras figuras de autoridade tentam filtrar ou controlar como podem para que a gente possa sair da infância sem deixar pedaços demais pelo caminho e nem eles os cabelos. Mas à medida que crescemos as prioridades mudam e a curiosidade passa a ser requisitada como sinal de inteligência. Uma vez compreendido que um dedo na tomada dá aquele puta choque, que um vidro de remédio leva para o hospital e que comer terra é nojento, queremos que o jovem desperte a curiosidade racional e emocional para o mundo. É preciso ler, é preciso observar, assistir, interagir e aprender com tudo o que nos envolve. Entramos nessa nova fase onde, depois de aprender que o ideal é jogar bolinha de gude sem gritaria e ficar quietinho no quarto para não quebrar o vaso da sala, temos que abrir a porta e ir ver lá fora como tudo acontece…

Tudo bem, tudo bem… não é exatamente assim e sei que passar a tarde correndo atrás de insetos para catalogá-los ou assistindo um documentário do capitão Cousteau nunca fez muito parte da nossa cultura brasileira, pelo menos não da maioria. Não se trata de uma crítica: somos um povo que gosta de esporte, amigos e ar livre. A curiosidade nesse caso se estende a outros campos em uma justa troca: dependendo do seu interesse, você sai da adolescência sabendo jogar xadrez ou driblar no futebol, citando Machado de Assis ou xavecando como ninguém. A variedade é grande e as fronteiras não são herméticas, com exceção do xaveco: esse, se você não aprendeu quando adolescente, vai ter um trabalhão para tirar o atraso depois. Felizmente existem outras maneiras de quebrar a parede que separa as pessoas e até mesmo um desconhecedor total da arte (sim, arte!) do xaveco consegue invocar a doçura no olhar desejado com um pouco de tato e interesse. O processo é mais longo e muitas vezes implica mais do que uma simples atração, mas acaba valendo a pena. Acreditem.

Mas a curiosidade matou o gato. Quando? Aí entra o grande problema: a curiosidade matou o gato quando pediram para ele não ser curioso. Pois uma vez que terminamos nossa fase de aprendizado e entramos de sola no mundo tal qual acabamos nos dando conta que na maior parte do tempo ser curioso dá problema:

O jornalista que investiga baile funk amanhece morto e queimado em um canto do morro… do lado do jornalista que investigava o esquema das propinas no governo!

O cara que passa a noite lendo é despedido porque enquanto isso seu colega ficou trabalhando e terminou a apresentação muito antes…

“Fez um curso de francês? Ah, tem que ser viado pra querer falar com biquinho!”.

“Vai fazer o que sexta à noite? Vai pro bar? E tá levando um livro pra quê, ô seu nerd??”.

Sim, pois é: a curiosidade matou o gato. Profissionalmente e socialmente. Se considerarmos corretos os dados geológicos sobre a idade do nosso planeta, ele tem cerca de 4,6 bilhões de anos. Os primeiros hominídeos apareceram entre 20 e 8 milhões de anos atrás e a civilização tal qual a conhecemos data de aproximadamente 5 ou 6 mil anos. Desde os sumérios temos registros de gatos como animais domésticos. Ora, podemos então imaginar que o ditado se refere a uma espécie de proto-gato que evoluía em uma sociedade coerente bem antes da nossa civilização e esta se embrenhou no mesmo caminho que estamos seguindo agora. Certo dia, enquanto ainda estavamos nas árvores e os engravatados tigres dente-de-sabre a caminho do escritório nos jogavam bananas após milhares de anos de evolução felina (de revoluções armadas e industriais com o objetivo de acabar com as desigualdades, garantir a cada um – gatos, tigres, leões, panteras, onças… – a boa carcaça de cada dia para que todos comam à própria fome e possam finalmente se respeitar, se entender e, em uma ação conjunta movida pela simples nobreza de espírito comum a todos, permitir que cada um evolua e espaireça à sua maneira em um mundo onde não será julgado pois toda atividade é sinônimo de melhoria pessoal e coletiva…) nosso tigre olhou ao redor. Viu os prédios com suas portas giratorias, os carros cheios de linces xingando os guepardos que quebravam os retrovisores, as panteras negras odiando os tigres brancos do Tibet porque esses as desprezavam, os leões vagabundando em seus enormes escritórios enquanto as leoas se descabelavam para garantir o lucro do ano.

Dente-de-Sabre suspirou, olhou sua maletinha e sua gravata, olhou os macacos-que-um-dia-seriam-homens e pensou consigo mesmo que eles é que tinham sorte de viverem segundo as leis básicas e cruéis da natureza sem sentir a tristeza de se saber parte de uma raça que teve a possibilidade de criar um mundo ideal e não conseguiu por pura estupidez. Em seguida voltou para casa e contou para a esposa seu plano, escolheu seus amigos – tão mal das pernas quanto eles por serem sonhadores ou idealistas -, construiram uma nave espacial e zarparam para longe, na noite de um universo desconhecido.

Depois, todo mundo sabe o que aconteceu: como felinos são vagabundos mas não são burros, eles logo perceberam que ao invés de se encher o saco cultivando uma sociedade que, no fim das contas, era a mesma barbárie dos primeiros tempos (com, ainda por cima, o inconveniente das gravatas), passaram um rolo compressor nas cidades, abriram os abatedouros e jogaram tudo o que não pôde ser destruído no fundo do mar. Voltaram a viver pela lei da selva verdadeira, que pelo menos tem o mérito da autenticidade. Logo seus instintos de predador e a força fisica voltaram, e todos viveram felizes para sempre.

Dente-de-sabre e seus companheiros encontraram um planeta ao qual deram o nome de Thundera e fundaram la uma sociedade justa e nobre que um dia s’escafedeu, mas isso é uma outra história.

“A curiosidade matou o gato”. No planeta Terra é verdade. Você pode tentar mudar isso, mas é melhor que seja um Thundercat. E ainda assim…

Este texto vem pra atender a uma urgência (minha, egoísta). Tenho lido muito, ultimamente, sobre concepções completamente amalucadas de ciência. Nós, humanos, temos muitas dúvidas sobre a vida, o universo e tudo mais. Fato. Temos, cada um de nós, maneiras próprias de lidar com essa curiosidade: alguns buscam refúgio em mitos e na religião, outros aceitam o experimento como maneira de chegar à realidade e há ainda aqueles que, apesar da curiosidade, têm mais com que se preocupar – existem também os cientistas que também são religiosos, pra que não digam que tomei partido, como se ciência e religião fossem necessariamente excludentes –.

Eu seria desonesto comigo mesmo se, nesse texto, não desse uma definição de ciência; pra quem não percebeu, grito: não disse “a definição de ciência” e sim “uma definição de ciência”, ou seja, escolherei uma definição dentre as possíveis (e não conheço todas as definições existentes; só sei que o debate sobre o que é ciência continua muito, muito vivo).

A definição

Particularmente, sou adepto da definição de ciência desenvolvida por Karl Popper. É a que considero mais interessante, apesar de trazer problemas outros cujas respostas não tenho (apresentá-los-ei, muita calma). Ela pretende separar, completamente, os campos da ciência e da pseudociência; essa separação muitas vezes não é percebida na prática. Também pudera, quantos de nós podem dizer que foram treinados na fina arte de detectar engodos?

Em uma palavra, a definição: falseabilidade. Acho que muita gente esperava a palavra “experimento”, não é? Acontece que o experimento faz parte do método científico, sim, mas ele não é suficiente pra definir a ciência e, como proposto no parágrafo anterior, separar ciência de pseudociência. Isso porque um conjunto de dados, um fato, pode ser explicado dentro do âmbito de praticamente qualquer teoria. Mais ou menos – o exemplo é simplório, mas se encaixa bem – como naquela piada em que o cientista chega à conclusão que a aranha ficou surda e por isso parou de andar depois que todas as suas pernas foram arrancadas: quer dizer, ele conclui que aranhas sem pernas são surdas. Fez uma interpretação muito esquisita dos eventos; não fosse uma piada, poderíamos discutir se o dito cientista não partiu do pressuposto que aranhas sem patas são surdas e, daí pra frente, fez um experimento que poderia demonstrar sua hipótese. Ainda, ele poderia ter arrancado quatro patas da aranha e pedido a ela que fosse à padaria comprar pães; se ela não fosse, teria provado que aranhas que tenham 4 de suas pernas amputadas não falam determinada língua, já que não conseguiram obedecer a uma simples ordem (acho que é desnecessário dizer, mas vamos lá: não façam esses experimentos-piada, hein!).

Certo, o exemplo da aranha foi tolo, usarei outro mais científico – e causador de controvérsias para os físicos de plantão, tenho certeza –. Quando ainda na academia, conversando sobre as possíveis vias de estudo e pesquisa, discutimos o artigo A dialog on quantum gravity, escrito pelo professor Carlo Rovelli. Nesse artigo, escrito como o diálogo proposto por Galileu sobre os sistemas do mundo, Rovelli levanta a bola de que a teoria de cordas não é uma boa teoria científica: ela se complica mais e mais, pra tentar solucionar as inconsistências criadas pela própria teoria. Essa crescente complicação não seria um problema (volto a isso em outro momento), mas é; porque tem sido o jeito de blindar a teoria de cordas, tornando-a irrefutável, à prova de experimentos que demonstrem que há algo de errado com ela. Esse argumento é similar ao que Leonard tenta usar contra Sheldon – físico de cordas – no episódio piloto de The Big Bang Theory:

Leonard: Pelo menos eu não tive que inventar 26 dimensões só pra fazer a matemática aflorar.

Sheldon: Eu não as inventei, elas estão lá!

Leonard: Em que universo?

Sheldon: Em todos eles, eis o ponto.

THE BIG BANG THEORY

Matemática é ciência?

Eu não conheço o suficiente de teoria de cordas pra dizer que ela não é uma boa teoria científica, confesso. Mas também nunca encontrei um estudioso de cordas que dissesse “bem, se isso for demonstrado, podemos descartar a teoria [de cordas]”.

Voltemos à falseabilidade. Trocando em miúdos, uma teoria falseável é uma teoria que pode ser refutada pelo experimento, pela natureza; a teoria falseável é restrita, não funciona pra tudo, todos os casos, não contém em si mesma todas as respostas.

Um exemplo

Newton disse em sua teoria da gravitação que corpos massivos atraem-se mutuamente. Essa teoria representa um grande avanço para a ciência e a humanidade, porque unificou sob um mesmo conjunto descritivo eventos que acontecem em nosso planeta e nos céus (a mecânica celeste). Até então, costumava-se defender que tudo que acontecia nos céus era perfeito; daí órbitas necessariamente circulares, ou que se relacionassem de alguma forma a sólidos perfeitos.

Deve haver – infelizmente, desconheço – outras hipóteses que expliquem os mesmos fenômenos que a teoria da gravitação de Newton; a teoria desenvolvida por Newton é, entretanto,  muito bem verificada e, além disso, muito simples (aqui vale o conceito da navalha de Ockham, já citado em outro pousté). Um porém importante é que a teoria da gravitação de Newton não versa sobre as cores que vemos; não apresenta informações sobre óptica geométrica, nem sobre a força elétrica. Ela não explica tudo e, o melhor: pode ser verificada e refutada. Como? A velocidade de escape, aquela mínima necessária pra que um corpo chegue ao espaço, poderia ser diferente da prevista; ou um planeta poderia ter sua órbita diferente do que é esperado.

Ah, mas espera: isso acontece com a órbita do planeta Mercúrio! Qual o problema, então? Nenhum! Aliás, o problema da órbita de Mercúrio deu dica importante pra que soubéssemos que poderia haver uma teoria mais completa, maior por trás da proposta por Newton – ela não continha em si uma explicação pra essa falha –. E por que essa teoria continua a ser ensinada e usada se ela não funciona sempre? Porque ela é muito mais simples que a teoria da relatividade proposta por Einstein e serve perfeitamente bem pros domínios em que estamos acostumados a viver, pro nosso dia-a-dia. É um caso particular da teoria da relatividade, para corpos com velocidades pequenas quando comparadas à velocidade da luz. Então, pra que jogar fora algo que funciona realmente bem em casos particulares? Seria como jogar fora todo um ramo da medicina porque uma determinada condição – uma doença, por exemplo – não tem cura conhecida.

Claro, é possível complicar e complicar uma teoria qualquer até que ela consiga prever e descrever a maior quantidade possível de eventos da natureza (disse que voltaria a isso). No caso das teorias de cordas, torço o nariz porque esse contínuo ajuste acaba por criar mais problemas (que pedem por mais dificuldades) e dificuldades. A relatividade de Einstein é mais complicada que a teoria de gravitação de Newton, mas descreve muito mais, prevê muito mais – como exemplos, posso citar buracos negros, curvatura do espaço-tempo observada em eclipses solares ou em lentes gravitacionais –.

Em partículas elementares, temos o Modelo Padrão, que parece uma colcha de retalhos, tantas são as pequenas modificações e inserções propostas pra resolver problemas e dúvidas existentes. Não é o que eu chamaria “modelo elegante”; uma enorme brecha existente no Modelo Padrão consiste em não termos conseguido detectar, ainda, a partícula responsável pela massa de todas as partículas existentes (e, por conseqüência, a massa de todos nós, da Terra, Sol, etc. etc.). O Modelo Padrão, em sua formulação mínima, não explica a massa dos neutrinos (partículas sem estrutura interna que, desecobriu-se na última década, são portadoras de uma massa diminuta, mas não nula). As modificações que vêm sendo propostas a esse modelo mínimo são passíveis de testes e, por si só, refutáveis – acrescentam alguma dificuldade ao modelo, mas criando um mínimo de problemas críticos -. Para a ciência, uma ferramenta de auto-correção está em funcionamento o tempo todo: os dados experimentais sempre podem ser confrontados com as previsões das teorias. A quantidade de modelos propostos pra substituir o Modelo Padrão é enorme, e cada um deles será descartado ante uma ou outra evidência experimental.

Um exemplo de pseudociência, seguindo a definição de Popper, é a astrologia. Afinal, afirma-se que ela pode prever e explicar a vida de qualquer cidadão, qualquer pessoa. Bem, interessante, mas a pergunta que pode ser feita é: que experimento permite a verificação dos dados? Existe um grupo de controle (quero dizer, o que é previsto pra mim somente pode ser previsto pra mim? Como se sabe que aquela estrela influencia minha vida assim e assado se nenhum astrólogo tem informações sobre como ela influenciou a vida de outras pessoas, estando naquela posição determinada, naquela data, naquele dia? Mais: como sabe que me influencia assim e assado, se sou a única pessoa no mundo que nasceu naquele horário, naquele dia e naquele local? Ou como um astrólogo tem acesso a todas as variáveis possíveis de tempo e posição?)? Não.

Outros exemplos de pseudociência, seguindo a definição de Popper, eram as teorias psicanalíticas de Freud e Adler, porque (agora o cito, porque sei realmente nada sobre psicanálise) “elas não são testáveis, irrefutáveis. Não há um comportamento humano concebível que possa contradizê-las”. Pode ser que desde a proposta de Popper, os psicanalistas tenham desenvolvido formas de refutar as diferentes teorias psicanalíticas, mas não me arrisco a falar sobre.

Assisti ao filme Contato, essa semana. Fala-se muito na dita verdade, ali. Então, afinal, existe uma verdade científica? Sim, e ela é diferente de outras verdades. Uma teoria científica não precisa ser eterna e versar verdades fundamentais. A natureza é a verdade fundamental do cientista e qualquer teoria que seja criada por nós, homens, deve se adequar a ela, não o contrário. Deixemos que Lisenko descanse em paz.

Já vi muita mágica nos meus anos de estrada: mágica com cartas, bengalas e moedas (aquelas que se espera que um mágico faça naquela festinha de aniversário); mágica com pedras, garrafas, clipes, telefones, cartões de visita (ou seja, que são feitas com objetos que estão na carteira de um amigo, no balcão do bar ou caídos no meio da rua); mega-ilusões, que podem ser classificadas em qualquer lugar entre levitar um pedaço de papel a fazer um prédio inteiro desaparecer.

Por pura mania de organização, costuma-se separar as mágicas em diferentes categorias, como por exemplo:

  • (a) Magia de palco, aquela que se costuma assistir num teatro;
  • (b) Grandes ilusões e mega-ilusões, quando o mágico pode fazer aparecer ou desaparecer uma pessoa, carro, ônibus, trem, prédio;
  • (c) Close up, mágicas feitas mano-a-mano, em que o mágico pode dar atenção especial a um pequeno grupo de pessoas ou a uma pessoa somente (isso significa que ele não precisa carregar um baralho enorme, como possivelmente faria num palco);
  • (d) Escapismo, categoria em que o mágico tem que se soltar ou safar de algum tipo de prisão ou restrição. O escapismo foi popularizado por Houdini e, hoje, é parte integrante das apresentações que envolvem grandes ilusões;
  • (e) Mentalismo, mágicas que acontecem principalmente na cabeça dos envolvidos;
  • (f) Beach magic, uma categoria mágica que pode envolver elementos das que já foram citadas (e de outras, mas esse pousté não é pra ficar falando de categorias mágicas…). 
mágico Ismael de Araujo aprontando!

Ismael em gravação de Beach Magic em Copacabana, executando uma variante do escapismo em loira

O fato é que as categorias mágicas não são excludentes, sendo perfeitamente possível conhecer bem (e executar!, claro) duas ou mais categorias sem prejuízos artísticos ou profissionais (o que não significa dizer que é uma baba dominar diferentes tipos de magia; como disse tantas vezes um professor que tive:  – “Tudo é difícil. Se você deseja se aprofundar, rapaz, será difícil.”)

(Tomei a liberdade de mudar um tanto as categorias que o Ismael separou em seu Manual da Mágica)

Band Verão - Salvador

Bruno! Dorme!

Estou fugindo ao tema, como sempre. Vinha escrevendo tudo isso pra falar, de novo, da gravação do quadro de mágica pro Band Verão 2009 e, especialmente nessa entrada, pra falar de algo que foi pro ar semana passada: hipnose!

-”Por favor!, qual a relação entre hipnose e mágica?” alguém poderia perguntar. A resposta que surge mais rapidamente está em The Myth of the Magus, de Elizabeth Butler: “[A] mágica, devemos lembrar, é uma arte que requer colaboração entre o artista e o público”.

Claro, pode-se argumentar que essa citação pode ser válida também para outros tipos de performance, mas não creio que seja tão verdadeira quanto no caso da mágica e da hipnose. Abusando das citações, lembro do que o engenheiro Cutter, em O Grande Truque (que filme!, que filme!), ensina à filha de Borden: -”O mágico pega o objeto comum e o transforma em algo extraordinário. Vocês estão procurando o segredo, mas não encontrarão… porque não estão realmente olhando… vocês não querem saber… vocês querem ser enganados.” 

Michael Caine como John Cutter, em O Grande Truque

Michael Caine como John Cutter, em O Grande Truque

 E querem mesmo, não há problema algum nisso. A graça do ilusionismo está exatamente em ver algo maravilhoso acontecendo, experimentar a fantasia. Claro, há quem fique procurando pêlo em ovo, sem perceber toda a diversão que está perdendo. Por mais que sejamos convidados a participar dos delírios apresentados em uma peça de teatro, um espetáculo circense, um show de rock, nenhuma outra arte performática carrega o espectador – independente do quão atento à realidade ele queira estar – quanto a mágica e a hipnose; em todos os casos é necessária boa vontade do espectador, pra topar o que lhe é proposto mas, no caso da hipnose e do ilusionismo, essa vontade é levada a limites: nestas artes a fantasia do espectador é parte mais que ativa da apresentação, ela é também matéria prima.

Essa relação entre mágica e hipnose, a matéria prima que ambas fornecem ao performer, foram determinantes pra inclusão de hipnose no quadro de beach magic do Ismael, no Band Verão 2009. “…e, sem mais, a tampa entra na garrafa! O meu coelhinho de estimação adivinha sua carta! O nome da sua namorada, a Maria Clara, agora é João!”

Band Verão - Salvador

(esq. pra dir.) Bruno - o namorado -, outro Bruno, Maria Clara (conhecida, ao menos por alguns minutos, como João), Raoni e Ismael

Mágico é assim: consegue juntar tudo numa coisa só.  

Voltei há pouco da Bahia. Não foi minha primeira vez ali; estive na Ilha de Comandatuba, no Hotel Transamérica, em 2005, participando da equipe que fez a aparição do Fiat Idea em seu lançamento latino americano. (Isso mesmo, vocês leram certo: aparição.) 

Olha pra cima antes de atravessar a rua!

Ou seja, minha experiência anterior na Bahia foi permeada por trabalho. Confesso: até então a Bahia nunca fora meu sonho de consumo e, talvez por isso mesmo, só voltei à região pra trabalhar. 

Novamente, Bahia! Salvador, desta vez, a capital, assessorando o Ismael de Araujo, que me iniciou no mundo da magia e do ilusionismo. Comandatuba, onde estive antes – fui convidado por ele, aliás -, é um pedacinho pequeno de mundo comparado ao universo em que se desdobrou a outrora Cidade do São Salvador da Baía de Todos os Santos (o antigo nome de Salvador: comprido, não?); muito mais gente – da terra e do exterior – misturada àquela miríade de marcos históricos, um banho de culturas (no plural, exato).

Ficamos hospedados no Pestana Convento do Carmo, primeiro ponto histórico (falarei sobre em pousté futuro) que visitamos. Esse hotel da rede Pestana- tem ao menos outro lá em Salvador – fica no Pelourinho e é perfeito pra relaxar. De lá, saíamos todas as manhãs pra encontrar belas paisagens e um público tão acolhedor e bonito quanto a cidade. Todo o litoral de Salvador, o Mercado Modelo, as ladeiras do Pelourinho, Motumbá, Farol da Barra… onde e com quem não estivemos?

Band Verão - Salvador

Paisagens, gente bonita, muito trabalho e muita, muita mágica!

Sem qualquer licença poética, vivemos dias mágicos em Salvador, agora transmitidos em rede nacional pela Band. Espero que a experiência que lhes será proporcionada pelo mágico Ismael, o público que participou das gravações, toda a equipe da Band – aqueles que conheci e os outros tantos, desconhecidos – e por mim lhes seja tão cheia do potencial do impossível quanto foi pra nós.

(durante todo o verão escreverei mais sobre a experiência desse Band Verão 2009!)

Ah, e pra quem quer saber quando as mágicas vão ao ar, elas serão exibidas nos blocos noturnos do Band Verão. A programação da rede pode ser encontrada aqui.

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