O post Batman: O Cavaleiro das Trevas – uma crítica a outra crítica, antecipa este com um comentário. O ponto de partida do comentário e deste post é um texto que li, há alguns dias, no site Amálgama: O que é arte, afinal?. Enquanto McFly escrevia sua crítica sobre cinema eu comentava sobre o que havia lido lá e, pensando que muita coisa podia ser dita, arquitetava a minha.  Por causa da referência feita por McFly (que aparentemente cria link automático), o editor do site convidou-o para escrever algo de contraponto ao texto, que gerara lá uma centena de comentários, indignação e polêmica. Nesse meio tempo, eu já rascunhava algo com a intenção de publicar aqui, me aventurando em um tema delicado e controverso.

Já começa a chamar-me atenção pelo título: aquele ‘afinal’ pareceu-me provocativo, como que pedindo uma resposta definitiva a uma questão aberta como é a do fazer artístico. Primeiras fases, subjetivismo, relativismo, ok, tudo bem, eu aceito. Logo em seguida, no entanto, já começo a franzir as sobrancelhas:

“Mas penso em arte quando ela é pura e verdadeira – não empulhação. Penso no artista quando ele é dotado de dom, de excelente técnica, de bom gosto e de espírito crítico.”

Desfilam no texto então exemplos de obras: pneus empilhados, palitos colados, vaso sanitário, tocos de madeira, mictório com espelho. Aí que eu pasmei de fato: a arte que está sendo ironizada justamente deixou para trás pureza, beleza, bom gosto, estilo. Deixou isso não por ser pior que outra, mas porque permitiu redefinições: de si própria, dos artistas e do público.

Não compartilho da crença do dom, do gênio. Nietzsche diz que essa aparência do miraculoso é um dos truques dos artistas: depois de muito trabalho, tudo parecer ter sido feito como que por conexão com o divino. O gênio, apenas um modo de vaidade: enquanto são sobre-humanos não nos comparamos a eles e não nos sentimos menores, não atacam nossa auto-estima. Não sei do que está sendo falado quando se fala do bom gosto. Talvez se pense que quando isso é dito, estamos a tratar de algo indiscutível, mas está longe de ser. Acredito que o espírito crítico pode ser manifestado sem que nenhuma técnica seja utilizada (usando a palavra técnica num sentido estrito de plasticidade, do ‘feito à mão’, dos modos tradicionais). Ou, de outra forma, a técnica, num sentido abrangente como uma estratégia, a criticidade pode vir somente por conceitos e idéias – e nisso não me restrinjo somente à arte conceitual, como pensariam alguns.

A arte é um convite a quem quiser explorá-la, uma provocação. Para isso, vontade, dedicação. A percepção é certamente uma porta que cada um deve abrir por si. Só acredito que alguma coerência deve existir, seja histórica, seja em argumentos. Apreciar a obra de Andy Warhol e dizer que arte é o contrário da repetição, do grotesco é uma incoerência. Com a imagem de Marilyn Monroe, exemplo do texto, Warhol criou uma produção massiva de repetições de imagens. Em certa exposição, Tunafish Disaster, o artista mostrava uma série de latas de atum que teriam matado várias pessoas, tendo sob elas as fotos das vítimas, sorridentes. Isso não é grotesco? E ele não apenas mistura os objetos, ele os usava propriamente, em serigrafias e fotografias: a lata de sopa de tomate Campbell’s escolhida por ele não está misturada com nada e não possuía nenhuma diferença de qualquer outra que se encontraria no mercado. A seleção do objeto pelo artista é que o torna em estado de arte. Não se trata de criar a imagem, mas de selecioná-la. O objeto está em favor de uma idéia, não em si mesmo: não há nenhum esforço no sentido de tornar isso uma obra irreproduzível. Kitsch. Reles, banais, assim eram os objetos de Warhol.  O raciocínio de que um macaco faria (melhor) não funciona: qualquer pessoa faria, mas não com o mesmo intuito.

Esta imagem não se repete.

Que droga de Arte é essa afinal, se não é o que eu imagino que seja?

Nem sempre o que arte tem a dizer deve ser agradável, enternecer. Nem mesmo a emoção, que tanto louva a articulista, é pressuposto: arte tornou-se uma atividade, ao lado das demais, um sistema de signos como qualquer outro, essencialmente ligado ao pensar, imaginar. Dizer isso não significa que houvesse, antes, apenas apelo sensitivo: depois e além disso, existiam em muitas obras um sentido racional, também. O caso é que agora devemos nos despir das nossas expectativas habituais relacionadas à pintura e à escultura.  A mediação que se faz necessária é incomum. E se o que a arte nos disser for grotesco, mal-educado, imoral? Não veio para ser ornamento da sala, substituir um Locatelli, como disse ela. Lia, ao comentar, expressou bem a sensação que tive ao ler sobre a tentativa de Luso de achar a palitada uma maravilha:

“Pois, o problema é você considerar que arte tem de ser uma maravilha. Não tem. Arte tem de comunicar, abalar e quase fazer cair as paredes da casa (da sua casa, sua cabeça, suas certezas), pôr a funcionar o homem que pergunta, que se incomoda e que não se acomoda.”

O uso de objetos, a idéia do ready-made, no entanto, já estava inaugurada antes de Warhol, com Marcel Duchamp. Dois expoentes da crise da arte que abandonaram a pintura e o desenho para fazer, como disse Tais, horrores. Arte que não vai agradar a praticidade de quem, como pude observar, está em busca de belas pinceladas, formas bonitas; aquilo que, sob um olhar, é obviamente uma obra de arte, única. Aliás, o objeto que foi um dos primeiros ready-maderoda de bicicleta, foi perdido. Ao que parece, foi posto fora pela irmã de Duchamp: talvez ele não se parecesse com uma obra de arte. Mas não se trata de lamentar, ou imaginar a perda do objeto em si: muito do esforço de Duchamp foi produzir réplicas de suas próprias obras, para expô-las mundo afora, fazendo com que o público se desfizesse da idéia de objeto de arte insubstituível. Ninguém deveria se chocar ao ver mictórios com espelhos; mictório como ready-made já foi apresentado há bastante tempo, ainda assinado como R. Mutt e chamado, carinhosamente, A Fonte. Quando apresentado, sob pseudônimo, criou-se burburinho entre os artistas de então: começara nova discussão sobre os limites da arte. (Ainda dá tempo de ver a exposição de Duchamp em São Paulo, no MAM, até 21 de Setembro. Corram!)

A Fonte, por R. Mutt
A Fonte, por R. Mutt

Houve, é claro, quem não gostou disso. Críticos na época das primeiras exposições, desde a gênese da ruptura. Percebo o apreço que deva ter quem escreveu tal texto, como tiveram aqueles que lamentaram pela perda da aura de sagrado e único da arte. Mas isso é assunto velho, há bastante tempo discutido. Pode ser que o direito de cada um de pensar como bem queira permita que toda essa forma de expressão seja negada, mas ela já está aí, há décadas, cheia de bons argumentos. Não me surpreende ou desagrada que alguém pense contrariamente a isso, rejeite essa construção que, aliás, não é condição absoluta: na atualidade, métodos de uns e de outros se mesclam, o contemporâneo conversa com a tradição.

Enganação ou empulhação, certamente existe. A nova realidade talvez seja um campo onde se torne mais difícil separar o que é bom do que não é. Mas esse é um risco constante em qualquer manifestação: há instalações que não dizem nada assim como há pinturas que também não o fazem. O pensamento fixado na arte plástica não vai alcançar a dimensão do que já se expandiu para ser definido como  visual; quiçá do que é auditivo, sensorial, encontrado em muitas bienais. Nesse ponto e em muitos concordo com João Grando, que também participou da discussão. O grande incômodo que me causou, e acredito que em muitas pessoas que leram e comentaram o texto, é o posicionamento de que, se não compreendo, logo não deve prestar; se não é conforme meus conceitos, é empulhação. Toda a falsa relativização e abertura posta nas primeiras frases do texto logo se desfazem. Há tempos a obra precisa do público, precisa dessa imaginação e desse pensamento, tornou-se uma interação indispensável: a arte já não se basta.

Quando falamos de coisas que desconhecemos, sejam elas novas, muito novas, como questionar se robôs podem produzir arte ou se a trajetória de vida de Michael Jackson é uma obra descontrutivista, cai bem que se tenha uma atmosfera de hesitação, dúvida: não sabemos o passo seguinte, não sabemos pra onde caminham as coisas, especialmente as de comportamento fluído, feito a arte. Mesmo em uma discussão como essa, envolvendo questões há tanto discutidas é necessária uma visão mais receptiva, nos levando a pensar se é aceitável partir do pressuposto de que tantas pessoas que trabalham com essa linguagem queiram apenas jogar objetos sem projeto algum.

Pasmados garanto que muitos ficaram ao ver tais obras. O importante é o que fazer com esse pasmo: procuro algo que explique, que me informe? Converso com alguém, busco uma elucidação? Ou digo que é uma porcaria e encho a boca ao fazê-lo? Há certas coisas que precisam de explicação; é necessário o interesse. Por essas e outras, muito está sendo pensado para promover a informação; a última Bienal do Mercosul, por exemplo, foi voltada para o aspecto pedagógico. Entre as obras e o público, mediadores. Eu, por exemplo, creio que estaria mais predisposta a buscar compreender o que é land-art do que entender de arte sacra. Mas meu bom-senso me diz que não posso sair por aí dizendo que arte sacra não é arte, completando com um petulante “e olha que eu tentei, viu?”. Responder a argumentos com frases soltas, ou cair naquela velha construção de que ‘se você não fala o português correto seu argumento não vale’ é que é uma grande empulhação.

A questão da enganação tem uma outra via: talvez a maneira de focar é que esteja enganando. Ao invés de observar atitudes, continua a olhar objetos. O clic não vai acontecer. Mas a palavra de ordem já foi dada: “Não quero imaginar,” e muitos se afinaram com ela. A ignorância está, portanto, decretada.