Mais estatística e mais livros, por favor

Pra começo de conversa, não sou matemático estatístico. Então, provavelmente falarei bobagens; espero, entretanto, que sejam bobagens educadas.

A Taizze retweetou – esquisitíssimo misturar os idiomas assim: retuitar é aceito? – o link de um texto sobre quanto nós, brasileiros, (supostamente) gostamos de ler.

Fui a alguns eventos em pontos diversos do país e não consegui verificar este entusiasmo todo festejado pelo autor. As vendas de livros podem até ir bem, obrigado, mas índice de vendas, por si só, é insuficiente pra determinar se pessoas gostam ou não de ler. Não faz sentido, não é?

Música. De quando em quando acontece um boom nas vendas. É lançado aquele disco, daquela banda. Sei lá, Michael Jackson? Lady Gaga? Ou um evento histórico: o show dos Beatles no Shea Stadium. A explosão de vendas de discos (ou ingressos) não significa necessariamente, nesses casos, que há mais pessoas gostando de música; pode significar simplesmente que há mais gente acompanhando estes artistas. A princípio pode parecer que quem gosta de Beatles tem que gostar de música, mas pode ser simplesmente o culto ao músico, não à música. Mas, nesse caso específico, estou exagerando, muito – mas, como já andaram dizendo por aí, “música é diferente”. Voltemos aos livros. Tem quem só leia as aventuras do seu bruxinho favorito. Tudo bem, é um exercício de leitura, acompanhar este ou aquele personagem, mas ainda não se pode dizer que o gosto é pela leitura per se; ao menos não nesses nossos tempos de seguir personalidades e personagens.

Aos números

De acordo com o artigo – seria muito legal apontar as fontes, web 2.0 tá aí pra isso – 95 milhões de brasileiros lêem enquanto 77 milhões não o fazem. Em primeiro lugar, lembro que não fazer alguma coisa não significa não gostar de fazer essa coisa; você pode simplesmente não conhecer um prazer (ou desprazer), como por exemplo, saber se gosta de jogar paintball. Apesar do que podem dizer os mais românticos, não dá pra sentir falta sem conhecer.

Mas voltemos aos números. Acredito que a soma da população que lê com a dos que não o fazem resulta no total da população; sendo este o caso, 95 milhões são 55% de toda a população. Independente da comparação com outros países, arrisco-me a dizer que estes são números modestíssimos. Afinal, imagine só a que universo de informação os outro 45% não estão privados.

De qualquer forma, estes números devem dizer respeito não a taxas de alfabetização, mas de pessoas que exercitam o ato de abrir uma publicação e ler – e é importante lembrar isso –.

Sobre ricos e pobres

“A primeira e precipitada conclusão é que, se a pessoa é mais rica, ela lê mais, certo? Mais ou menos. Segundo o mesmo estudo, embora a classe A consuma mais livros per capita, ela é responsável por somente 5% (!) do total das vendas no país.”

Isso pode ser verdade, mas não faz muito sentido quando não se verifica a correlação entre porcentagens de livros vendidos por classe e porcentagem de pessoas na classe. No caso, usando dados de 2010 (favor, indiquem atualização), vemos que a classe A compunha 2% da população; a classe C, de acordo com estes dados de 2011, compunha 55% da população (não usei os dados para a classe A deste último link porque ela sempre aparece acompanhada da classe B, mais numerosa). Agora, se 1% da classe C consumisse a mesma quantidade de livros que 1% da classe A, então a classe C sozinha consumiria mais que todos os livros vendidos no país durante o mesmo período (citado no YabloG!, sem link) – ou será que estou viajando? Provavelmente estou -. E de qualquer forma, se a idéia é falar em leitura, o que deve limitar a leitura de qualquer pessoa – além, claro, do acesso – é o tempo disponível para ler. Portanto, por mais que os números de consumo de livros cresçam, acredito que deva haver um limite comum de livros consumidos por pessoa (média). Os Kim Peek da vida, que lêem 1 livro por hora são muito menos que 1% da população mundial (pra quem não sabe, diz-se por aí – e li isso em Moonwalking With Einstein – que o cara escaneava simultaneamente duas páginas do livro, uma com cada olho).

É fácil ser enganado pela estatística. No caso em questão, diria que é simples inflacionar a interpretação dos dados estatísticos, porque é desejável viver na realidade que a interpretação apresenta. Um exemplo disso, extraio de O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow (p. 37-38, Jorge Zahar Ed., 2009):

O que é maior, o número de palavras de seis letras na língua inglesa que têm n como sua quinta letra, ou o número de palavras de seis letras que terminam em ing [nota deste blogueiro: o gerúndio é designado por esta combinação de letras, na língua inglesa]? A maior parte das pessoas escolhe o grupo terminado em ing. Por quê? Porque é mais fácil para elas pensar em palavras que terminam em ing que em quaisquer palavras genéricas de seis letras que tenham n como sua quinta letra. Mas não precisamos examinar o Dicionário Oxford – nem mesmo saber contar – para provar que esse palpite está errado: o grupo de palavras de seis letras que têm n como sua quinta inclui todas as palavras de seis letras que terminam em ing. Os psicólogos chamam esse tipo de erro de viés de disponibilidade, porque ao reconstruirmos o passado damos uma importância injustificada às memórias mais vívidas, portanto mais disponíveis, mais fáceis de recordar. (…)

Uma ilustração clara do efeito que o viés de disponibilidade pode ter em nossos julgamentos e tomadas de decisão veio de uma simulação de tribunal do júri. Nesse estudo, o júri recebeu doses iguais de provas absolventes e incriminatórias com relação à acusação de que um motorista estava bêbado quando bateu um caminhão de lixo. A artimanha do estudo está no fato de que um grupo recebeu as provas absolventes numa versão “amena”: “O dono do caminhão de lixo afirmou no interrogatório que seu caminhão era difícil de ver à noite, por ser cinza.”O outro grupo recebeu uma forma mais “vívida” da mesma prova: “O dono do caminhão de lixo afirmou no interrogatório que seu caminhão era difícil de ver à noite, por ser cinza. Ele lembrou que seus caminhões são cinza ‘porque isso esconde a sujeira. O que você queria, que eu os pintasse de cor-de-rosa’”? As provas incriminatórias também foram apresentadas de duas maneiras, desta vez numa forma vívida para o primeiro grupo e amena para o segundo. Quando pediram aos jurados que dessem seus veredictos de culpa ou inocência, o lado que recebeu a apresentação mais vívida das provas sempre prevaleceu e o efeito foi ainda maior quando houve um retardo de 48 horas antes da apresentação do veredicto (possivelmente em virtude da maior dificuldade de recordar o acontecimento).

O trecho acima fala de um viés ativado pela memória do inusitado. Mas esse viés pode vir também de uma busca incessante, não necessariamente consciente. Por exemplo, você olha no relógio quarenta vezes ao dia e em uma delas a hora marcada é 11:11. Se você fizer isso todo dia, em alguns dias verá 11:11, em outros não verá. Mas você se lembrará somente e tão somente dos dias em que viu lá. 11:11. Outro exemplo apresentado no livro é ainda o da fila mais lenta. Enfim, toda uma discussão de como a matemática deveria ser ensinada e não é.

Livro barato

Entrei numa discussão sem pé nem cabeça com um filósofo, numa bienal em Goiânia. O cara reclamava do preço dos clássicos em versão pocket (nem sei como chamamos por aqui). “Olha a qualidade, olha a qualidade!” ele dizia. Reclamou e reclamou, até que apontei pra ele o pessoal da livraria francesa e disse, sem tato nenhum “engraçado, francês pode ler com essa qualidade, você não. Vai ver eles não estão preocupados em colocar o livro na parede depois.” Não foi a primeira nem a última vez que tive essa discussão, com alguns detalhes de diferença.

Qualquer livro pode, até onde eu saiba, ser feito com qualidade inferior de impressão; talvez existam cláusulas contratuais contra, não sei. Mas o que sei é que existe uma quantidade crescente de livros editados no Brasil que são vendidos em papel de qualidade inferior e, pasmem, nem por isso são realmente mais baratos. Paguei R$16,00 por O Conde Partido ao Meio, que até parece um preço justo – será? O livro tem 99 páginas – e vi O Andar do Bêbado em nova edição (de bolso e em boa qualidade de papel, capa, impressão) num preço que considero, de verdade, ainda estranho – como se o problema do bolso do cidadão fosse o tamanho, e não o preço do livro –. Pra compararmos, acabei de comprar The Age of Capital (R$40,70) e The Age of Extremes (R$45,70), que em edição brasileira custariam R$60,00 e R$54,94 (contando desconto!); as edições que comprei vieram de outro país, são populares e custam menos que aquelas produzidas do lado da minha casa. Não tem dinheiro de tradução que cubra isso.

Se as editoras têm demanda tão grande assim por produtos populares, está mais que na hora de se posicionarem de acordo.

Concluindo

A estatística engana. Podemos ler mais. Precisamos ler mais. Eu sei que não sei estatística e provavelmente fui ranzinza à toa.

 

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Comments
4 Responses to “Mais estatística e mais livros, por favor”
  1. Izze Odelli disse:

    Ranziiiinza =P
    Os dados que ele fala no texto são basicamente de um estudo anual da FIPE e do Instituto Pró-Livro (se não me engano, tem esses estudos completos em PDF nos respectivos sites – google yay).
    É difícil medir a leitura. Podemos até ter uma ideia de quanto as pessoas podem ler (baseados nas vendas ou, na forma mais difícil, pesquisando diretamente com essas pessoas). Mas o fato é que lemos sim, o problema é saber o que nós lemos. Em nenhum momento conseguimos medir que tipo de leitura fizemos, isso é muito mais complexo do que medir quantidade de livros. Mas pense nos usuários de internet: acessar sites, blogs e etc. não é já uma forma de leitura? Ok ok, estamos falando de livros, mas acho que deu pra pegar o espírito da coisa.
    As estatísticas apontam que lemos poucos – comparando o Brasil com os outros países – mas isso não quer dizer que nós não lemos. É uma questão de observação individual também. Antes achava que ninguém lia porque realmente não via ninguém lendo. Hoje tenho uma visão mais otimista da leitura porque todo dia vejo alguém carregando um livro dentro do ônibus, no trem, na rua… A não ser que livros tenham virado um acessório fashion, elas estão o carregando porque vão lê-lo.
    Muito bom fazer essa reflexão em cima dos dados – que sempre serão inconclusos. Estamos longe do que seria o “ideal” de leitura, mas também não estamos parados =)
    Ps.: livros são caros? ô se são. Mas o que não é caro no Brasil, né? Até edições de qualidade mais “podrinha” (vide mangás da JBC hahaha) custam muito mais do que deveriam. É o nosso mal.

    • @caducotavio disse:

      Izze,

      acho que dá pra medir sim o que é lido; dá pra medir uma porção de coisas de uma população sem precisar falar com essa população inteira.
      Saca só, da wikiversity:

      Imagine que você está lendo os primeiros capítulos de um livro e com base nas informações contidas neles, você torna-se capaz de fazer algumas suposições de como a história vai terminar. Esta é uma das grandes razões de se estudar estatística. Com as ferramentas adequadas e com um sólido embasamento estatístico, é possível usar uma amostra limitada para fazer previsões inteligentes e precisas sobre toda a amostra. Isto é o que o conhecimento em estatística pode fazer por você.

      A estatística serve, também, pra tirar o viés de disponibilidade da nossa frente.

      No próprio site do Instituto Pró-Livro é possível encontrar informações sobre autores e temas mais lidos.

      Não acho que a leitura em si seja fashion, não. Mas a leitura de determinados livros e autores, bom, fico na dúvida. Essas pessoas gostam de ler ou gostam de ler fulano? Não que seja um problema, longe disso: se está lendo, ótimo. Minha questão toda quanto ao pousté citado diz respeito à interpretação dada aos dados, só isso. Lulizando a coisa: “Nunca, na história da humanidade, se leu tanto quanto se lê hoje.”

      (quanto a dados, acho que o IBGE tem informações sobre leitura, mas achei tão chato navegar pelo site deles…)

  2. Izze Odelli disse:

    Ah, lembrei disso aqui agora: http://nomundoeditorial.blogspot.com/2012/01/afinal-quantos-livros-estao-sendo.html
    Confiar só nos dados de vendas no Brasil não é lá muito certo, mas agora podemos ter estatíscias “melhores”. Óbvio que venda não é igual a leitura, mas é só nisso que podemos nos basear por enquanto (seja pra dizer que lemos pouco ou para dizer que lemos muito, interpretação de dados). =D

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