Clube da Luta: o que é sua vida?

Mesmo sabendo não ser a hora de escrever poustés, precisava começar. As últimas duas horas foram dedicadas inteiramente às ciências e à procura de uma maneira de romper a couraça de professores e acadêmicos com vinte anos de rodagem. Deixa o motor descansar um pouco, hora de comer um sanduíche na beira da estrada, quem sabe até tomar um suquinho de milho.

(nunca sou objetivo, e daí? Além do mais, comecei esse pousté há duas semanas, pelo menos)

Desculpas mais que suficientes para eu aproveitar e escrever sobre Clube da Luta. Velharia, já, o filme tem lá seus oito anos, estreou em 1999. Alguém que me conheça pouco (e quem não conhece pouco, pouquíssimo?) provavelmente estranhará; uma torção de nariz indesejada está acontecendo. Continue, continuo.

Gosto do filme, sempre gostei, apesar do que dizem por aí sobre o excesso de violência. No Brasil, principalmente em São Paulo, muita gente ainda vai lembrar do caso do tiroteio no cinema, numa sala de shopping.  Outros ainda se lembrarão do que aconteceu em Columbine e dirão: -“Olhai como a vida imita a arte!”

É, ta certo: a bíblia é que é livro de paz; ela e somente ela. Antes de acreditar nisso que tal revermos os fatos, senhoras e senhores?

(faço agora uma leitura própria do filme, sem qualquer preocupação em deixar vocês confortáveis – é assim que tenho escrito aqui e pretendo continuar assim: chato, chato mesmo. Aliás, vale a nota: spoilers adiante)

Bem e mal

Pra começo de conversa, deve-se pensar na falsa afirmação de que há bem e mal ou um lado com razão e outro sem, num conflito qualquer. É, sim, necessário ser injusto ou ilógico: me parece – e espero que me contrariem, por favor, adoro ser contrariado – o uso da lógica pressupõe condições ideais, e. g.,  que a situação seja conhecida de forma completa (o que, por si só, já me soa impossível) e que tenhamos, todos, uma medida correta, idêntica, única. Hora de cair naquilo que o colega pedagogo, Leandro, vivia dizendo: um homem não entra duas vezes no mesmo rio.  De um jeito ou d’outro, me usei como medida pra esse parágrafo; poderia ser outra escolha qualquer.

Violência

O filme é violento, cheio de pancadaria. Falo isso lembrando do que meu amigo Jhonny disse, há tempos, sobre A Vida é Bela: -“Ah, falam que filme X ou Y é violento, mas eu… eu discordo. Não, não, a forma como o pai mente o tempo todo pro menino, aquilo é de uma violência sem tamanho!”

Fiquei com sensação similar depois de assistir Tropa de Elite: com toda a violência assistida, o que me incomodou mais foi ver o estudante-sonhador transformar-se no prático policial. Sem querer desmerecer a dor física pelas quais passam os outros (e já desmerecendo); tais dores não tiveram desdobramentos e, portanto, são facilmente descartadas ao longo da película. Voltando ao Clube da Luta, esse tipo sutil de violência acaba rolando de forma engraçadinha, nas viagens alucinantes do narrador sem nome, e por pouco tempo: são encontradas formas alternativas de lidar com aquilo que está em falta; meu estômago não foi revirado.

Solidão e Tratamento

Uma das coisas que evidentemente falta na vida do narrador é uma amizade qualquer: Ele viaja o país, de costa a costa sem ter com quem conversar. Os amigos do narrador são tratados como pessoas descartáveis, single serving friends, com quem ele só tem a duração do vôo para criar e perder qualquer vínculo: -“Entre a decolagem e o pouso, temos nosso tempo juntos.”

O narrador

Reclama que suas amizades são descartáveis, compra pilhas e mais pilhas de móveis IKEA. Enquanto isso a vida se esvai, se-gun-do a se

                           gun

                                  do.

O narrador sem nome escolhe encarar o problema seguindo o conselho médico: -“Quer ver dor? Vá à reunião do grupo de pessoas com câncer nos testículos.” Desesperançoso, ele passa a ir a encontros de grupos de auto-ajuda diversos, encontrando pessoas em situações piores que aquela em que ele vive. É interessante notar que nestes grupos, o narrador não tem amigos, mas tem a atenção dos participantes: mesmo quando ele não diz nada, comove e move os outros. O narrador se sente livre e tranqüilo ao perder toda sua esperança; comparecer aos grupos era o equivalente a morrer e renascer, revigorado.  Fazendo a terapia, assume identidades quaisquer, com os nomes mais impopulares possíveis à exceção de um: Taylor – que tomo como uma referência ao excelente Taxi Driver.

A terapia degringola por causa de mulher – sem ofensas, queridas, mas vocês realmente sabem bagunçar o coreto do mundo de los machos. Já antes do primeiro encontro com Marla, pode-se dizer que o personagem de Edward Norton é um introvertido, um tipo psicológico popularizado por Jung (não sei se foi ele quem criou o conceito); Marla é saudável e, portanto, tão mentirosa quanto ele, obrigando-o a fazer algo que ele definitivamente não quer (e, como introvertido, faz sem muita opção): reavaliar suas ações. Para um introvertido, estar errado não é nada bom…

Rothe-Kushel escreveu um artigo sobre Clube da Luta para o The Film Journal (adorei o artigo e o The Film Journal, por sinal, recomendo fortemente) em que ele alega que a insônia e o vazio sentimental do narrador permitem que seu temperamento extrovertido aflore – resultado: Tyler Durden é liberado. As palavras do narrador confirmam esse pensamento: -“Se você acorda, em horas diferentes, em lugares diferentes, você poderia acordar como sendo outra pessoa?” – O próprio Tyler responde a essa pergunta: -“As pessoas fazem isso todos os dias. Elas falam sozinhas, elas se vêem como gostariam de ser. Elas só não têm a coragem que você teve pra deixar rolar.”

E Tyler é tudo aquilo que seu outro eu não é. Já na primeira interação entre os dois, introvertido e extrovertido, Tyler assume a masculinidade e a força de caráter do narrador, que não se sente à vontade para assumir a responsa de abrir a porta do avião, em caso de emergência: -“É um bocado de responsabilidade. Não sei se sou o cara certo pra essa tarefa específica.”

Culpa

Voltando às (queridas, adoradas) mulheres, Jack não se sente lá muito másculo: que tipo de homem tem como seu totem de poder um pingüim de fala mansa? Tyler é explícito quanto à recuperação da masculinidade do narrador: -“Somos uma geração de homens criados por mulheres. Eu me pergunto se outra mulher é a resposta de que precisamos.” – Há muito que se discutir no que diz respeito à maneira como os homens ainda enxergam a masculinidade, isso é fato. O narrador, como tantos outros filhos por aí, das gerações mais recentes, foi criado sem uma presença masculina forte (o pai dele saiu fazendo filhos pela América) e cheio de culpa por ser homem, por pensar como homem, por querer agir como homem; eventualmente, perdeu a própria identidade masculina: deixou de lado a pornografia, o catecismo religiosamente guardado sob o colchão, e tornou-se um consumidor, fugindo para o banheiro com seu catálogo de móveis IKEA.  Tyler é o homem que o narrador gostaria de ser, passando a assumir tarefas: -“Você procurava por uma forma de mudar sua vida. Você não conseguia fazer isso sozinho. Todas as coisas que você sonha em ser, eu sou. Meu visual é como você gostaria que o seu fosse, eu meto como você gostaria de meter, eu sou esperto, capaz, e, o mais importante, eu sou livre em todas as maneiras que você não é.”

 Tyler não se sente culpado por ser homem, ter impulsos, desejos e satisfazer suas vontades. Ele tira o narrador da solidão perpétua, Tyler é um espírito livre. A criação, Durden, é “uma compensação para os amigos que faltam”. Quando Tyler consegue algum tipo de controle, causa uma grande liberação – simbolizada pela destruição do apartamento -, empurrando o narrador rumo a um mundo indescoberto; ao se mudar para a casa de Tyler, rompe limites, encontra objetivos novos e se joga neles, despreocupado. O introvertido sem convicções muda de atitude, buscando feitos que perdurem, contrariando uma veia consumista que é vitrine das conquistas imediatas e não duradouras. Nas palavras de Tyler: -“Melhorar-se é masturbação; agora, auto-destruição…” – Deixar de importar-se com o prazer imediato, ter histórias pra contar, não fugir do sonho, da meta, por conta das dificuldades cotidianas: deliciar-se em novos horizontes, explorar, descobrir.

De acordo com Tyler, não temos objetivos, estamos perdidos no tempo: -“Nós somos os filhos do meio da história. Sem propósito ou lugar. Não temos uma grande guerra. Nenhuma grande depressão. Nossa grande guerra é uma guerra espiritual. Nossa grande depressão são nossas vidas.” Quem ainda tem um objetivo maior que si mesmo? Os objetivos gerais passaram a ser ter uma casa, carro do ano, internet rápida, TV a cabo. A sugestão de Tyler: -“Só depois que perdemos tudo é que temos liberdade pra fazer qualquer coisa.”

Tyler, o fazedor de sabonete

Questionamentos são lançados, inúmeros. Há a necessidade de revirar valores: -“Nossos pais eram modelos para Deus. Se nossos pais caíram fora, o que isso te diz sobre Deus?” – Mudar e perder dogmas, abrir mão de participar da sociedade: os personagens se afundam em solidão, perdem a chamada normalidade. Durden volta ao tema da morte e do renascimento: -“Você precisa saber, não temer, saber, que você morrerá. Até que isso aconteça, você é um inútil.”

Eu poderia ter me prendido, como outros críticos que acabei lendo enquanto montava este, à características de seita que o clube passa a ter, ou ao fato de que a saída para o problema dos personagens é se espancar até que as coisas façam sentido. Mas, na boa: é só um filme e, pra tanto, eles podem explorar quaisquer liberdades, sem medo da felicidade.

Mas, e você? O que você quer fazer da sua vida?

Comments
7 Responses to “Clube da Luta: o que é sua vida?”
  1. Lidiane disse:

    E você na minha vida, cadê?

  2. cristopher disse:

    você é um idiota

  3. marcel juppa disse:

    com quem você lutaria?

  4. fernanda iwakura disse:

    “Só depois que perdemos tudo é que temos liberdade pra fazermos qualquer coisa”

  5. oscar disse:

    muito bom

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