Savage Season, de Joe R. Lansdale

Li Savage Season, de Joe R. Lansdale. Só ouvi uma pessoa falar deste autor, há cerca de seis anos: ela havia traduzido o livro por puro esporte – era recém-formada em tradução pela UNESP – e, que eu saiba, a tradução nunca deu em nada. Felizmente eu consigo entender um pouquinho de inglês e, por isso, tenho a sorte de ter meus horizontes um bocadinho mais abertos: pude experimentar o autor.

Encontrei o livro na Cultura, meio que sem querer, enquanto procurava (de novo) pelo livro novo do Stephen Hawking, George e o Segredo do Universo (em inglês porque a diferença de preço é pouca e… bom, frescura minha – mentira, o livro tem capa dura, papel melhor e eu sou físico, então definitivamente prefiro ler esse livro com os termos originais. Digressões, como sempre).

O fato é que eu não tinha nem o nome do autor, nem o do livro, claros em minha cabeça. Deparei-me com ele na estante de importados e fui perguntar à vendedora sobre. Ela me perguntou qualquer coisa e eu falei do que me recordava: -“Este livro pode (vejam bem, pode) ser parte de uma série. Eu sei  que esses personagens, o Hap e o Leonard, aparecem em diversos livros dele, mas pode ser mais um universo próprio do autor que uma série de livros.”

Série foi a palavra mágica, pra vendedora (uma graça, a moça): -“Esse autor é como o Marcos Rey?”

Ignorei-a: na verdade não a ouvi perguntar sobre Marcos Rey e, pro escândalo de quem estava ao redor, revelei que não me lembro de ter lido um único, qualquer, livro da coleção Vaga-lume. Não importa, ela só tinha o livro do Hawking em italiano e aí, colega… valeu, obrigado pelo peixe. Trouxe Savage Season, em inglês.

Resolvi procurar na internet antes de começar a leitura: era o primeiro livro em que os dois protagonistas aparecem. Ótimo, ponto pra mim que tive sorte e a aproveitei ao comprar o livro. Abrindo o livro, outra surpresa: era exatamente o mesmo livro que eu começara a ler em inglês e cuja tradução tive em mãos. Sorte pura, oportunismo idem.

A garota que sugeriu que eu lesse o livro estava estudando, naquela época, o cânone literário e vivia falando do quanto esse livro era diferente, fugia às normas (ironias da vida: ela guerrilhava contra o cânone e vivia canonicamente). O fato é que o livro foi lançado em 1990 e tem em um de seus protagonistas Leonard Pine, um homossexual assumido; e isso no glorioso estado do Texas, lugar mundialmente conhecido por seus habitantes de mente quadrada e comportamento obtuso. Muitas das aventuras de Lansdale acontecem naquelas paragens, terra natal do escritor, local onde ele ainda mora e mantém, acreditem, uma academia de artes marciais em que é instrutor.

Os personagens principais deste livro são Hap Collins e o já citado Leonard Pine. Ambos são mão de obra barata, trabalhando no que quer que lhes apareça pela frente. Hap é um ex-detento (com uma boa causa – eventualmente abandonada) e Leonard é um ex-soldado; a guerra do Vietnam deveria uni-los de maneira amarga – Hap foi preso por se negar a ir lutar no Vietnam, guerra de que Leonard participou e voltou vivo – mas não lhes causa qualquer estranhamento. Além do tipo de trabalho que costumam realizar, o apego às artes marciais e um humor cheio de sarcasmo, ironias e tiradas ácidas deixa os protagonistas no mesmo balaio.

O livro inteiro – curto, no tamanho certo – é rápido; os personagens já são apresentados num ritmo acelerado, com intenções, histórico e trejeitos. O que achei interessante logo de cara é que os personagens – apesar do que li por aí – não são bons nem maus; existe uma área cinzenta conhecida popularmente como vida, que eles habitam com serenidade: tem lá seus idealismos, suas vontades e fazem besteiras como qualquer pessoa (e fazem piada das piores situações possíveis, como eu adoro fazer). Até pensei em comparar a construção dos personagens a Mandrake, Camilo Fuentes ou Thales Lima Prado de A Grande Arte – outra dica de leitura da mesma garota -, de Rubem Fonseca, mas fiquei com a sensação de que os personagens de Fonseca acabaram ficando estereotipados, assumindo um naturalismo extremado.

Enquanto pensava sobre o livro, me veio à mente O Assassinato do Anão do Caralho Grande, do Plínio Marcos. O livro tem um tom popular, com um mundo perfeitamente factível e sem um sabor de denúncia das mazelas da sociedade, mesmo quando escancara temas racistas ou homofóbicos. Lansdale, ao que encontrei por aí, é conhecido por tocar em assuntos complicados – homofobia já foi muito mais natural, lembrem-se – como a pedofilia.

O autor ganhou nada mais que sete prêmios Bram Stoker – oferecido pela associação de escritores de Horror (HWA ou Horror Writers Association) -, sendo um deles graças a Savage Season, em 1991 (agora, em 2007 ele foi premiado por sua antologia, Retro Pulp Tales).

Prêmio Bram Stoker para John Everson, por Covenant

“Quer dizer que este livro tem fantasmas, monstrinhos, vampiros, sangue a dar com pau, etc. etc. etc.?”

Não. Eu também fiquei na dúvida quando vi que o livro havia rendido ao autor um prêmio de horror, não conseguia entender muito bem a razão. Usando a definição de um dicionário, a HWA define o gênero  como literatura que provoca medo, temor, pavor intensos. Partindo dessa definição, facilmente pode-se enquadrar Savage Season na categoria de horror policial. A situação dos personagens chega a tal ponto que nem eles nem o leitor têm muito tempo para pensar em saídas. Particularmente, não tive uma sensação de pânico; entretanto, acompanhei cada segundo dos personagens tentando achar uma saída para a encrenca – e o gângster hilário – em que se meteram.

Espero ler mais dele.

Pra finalizar, ainda falando de Lansdale – outra obra, entretanto -, queria deixar algo registrado sobre o filme Bubba Ho-Tep, que tem roteiro baseado em conto do Joe (que concorreu ao Bram Stoker, diga-se de passagem). O filme tornou-se um cult. Conta nada mais nada menos que o que aconteceu ao Rei – o verdadeiro -, Elvis Presley. O cara foi parar num asilo e, no filme, acaba enfrentando uma múmia. Chega, procurem, assistam.

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