A Hora da Estrela, fora de hora.

Em tempos outros, participei de uma comunidade no Orkut para escritores. Nada de profissionalismo, tratava-se de escritores sem coragem ou oportunidade ou qualquer outra coisa, que preparavam cartas, e-mails, bilhetes, e nunca, jamais, os enviavam. A grande maioria dos participantes escrevia os mesmos sentimentos desse ou daquele jeito, sem variação alguma na exposição; 95% buscando uma resposta à pergunta: -“Envio ou não envio?”

A matéria, i. e., o sentimento ou situação, que tinham como inspiração era sempre a mesma; não havia, inclusive, qualquer concessão ao estudo de novas formas, era sempre mais do mesmo: leste uma das cartas, certamente já terias lido todas as outras. Pois que essa afirmação seria verdadeira não fosse por uma dezena de pessoas que por ali passavam e transformaram aquela comunidade numa feliz cantina, daquelas com cantoria, soluços, vinho e um jantar eterno. Pois que esta dezena tinha, quase como consenso, uma escritora predileta: Clarice Lispector. Mesmo que a autora não fosse a preferida da dezena citada, sua sensibilidade era assunto constante e sempre motivo de indicações a quem quer que pedisse indicações de leitura.

As indicações feitas ali foram insuficientes, não me levaram às páginas de Clarice, mas me trouxeram Rosa Montero, graças à Graça. Temas e qualidades completamente diferentes, passou-se bom tempo até Clarice ser citada novamente; dessa vez, era Maria quem falava e falava dela – sinceramente, nem sei exatamente como isso se deu porque não guardo qualquer recordação de discussões sobre livros com ela, quaisquer – e gosto de falar de livros, não, Giuli? -. Sei, entretanto, que esta pequena conversa aqui no blog deveria ter ocorrido há pelo menos cinco meses e sempre adiei, por motivos que também me fogem – forçando , todo esse parágrafo, à memória de como a vida é fugaz -.

O golpe final, entretanto, aconteceu em palestra do prof. Amâncio Friaça, do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP (IAG – USP), sobre Astrobiologia; a ordem dos slides de uma de suas aulas (serviu de base para a palestra) me parece invertida, com relação à apresentação que assisti, mas lá estão as primeiras palavras de A Hora da Estrela: “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.”

Liberdades poéticas à parte, chegara a hora, tinha de experimentar. Pois bem, comprei uma edição de A Hora da Estrela, no final do ano passado. Edição diferente, da editora Rocco: com o livro vieram dois CDs com locução para o prólogo de Maria Bethânia e, para o texto integral, de Pedro Paulo Rangel.  

Não importei-me com o áudio, para ser bem franco; pode até ser interessante ouvir a obra, depois, mas não queria lê-la com vozes outras na cabeça: talvez ficassem resquícios em minha memória de uma maneira de apreender a pontuação que simplesmente me impediria de remontar uma obra inexistente – afinal, ela somente passaria a existir para mim enquanto obra depois de lida – (Giuli não teve a mesma sorte: li o livro inteiro para ela, ou brinquei que o fazia). Importante relembrar (justifico-me a mim mesmo): Regina dissera há muito tempo que meus escritos tinham um quê do fluxo de consciência de Clarice Lispector; – mesmo depois da leitura do livro, minha curiosidade ainda não foi de todo saciada: não sei se citara e me relacionara ao dito fluxo por conta da pontuação, colocada como se estivesse pensando e conversando, ou das digressões (há pouco, Santos disse que escrevo tal qual um Tristam Shandy; mas esse é outro livro, merecedor de outro texto).

Apesar de falar em digressões, estas não aparecem, propriamente ditas, em A Hora da Estrela; ou não, posso estar falando bobagem; — o que eu queria dizer é que digressões ou reflexões à parte, Clarisse, ela – ou melhor: ele; o livro está escrito em primeira pessoa e Clarisse é, então, Rodrigo -, aproveita-se que está a contar a história de Macabéa (urgente!) para discursar sobre a escrita. Metalingüística (im)pura, um bom prato para os amantes do processo criativo ou de conversas paralelas, daquelas sem fim.

Não sou fã do que chamo coitadismo (não sou o único a usar o termo, a julgar pelos links encontrados – ou deveria escrever linque, em honra à nossa língua, contra os colonizadores, os imperialistas, etc. etc.? -), nem me animo a assistir filmes ou ler livros com esta temática. Felizmente comecei a ler A Hora da Estrela despido deste preconceito, já que a história de Macabéa é triste, miserável: total falta de perspectiva e, até, inexistência do momento agora. Ou, como diria Rodrigo, impregnado de escrita e pensando Macabéa: -“Mas não sabia enfeitar a realidade. Para ela, a realidade era demais para ser acreditada. Aliás, a palavra realidade não lhe dizia nada. Nem a mim, por Deus.”

Macabéa perdera o único namorado que tivera em toda vida para a colega de trabalho, Glória – que muito me lembra Grace, de Dogville, tanto pela raiz do nome quanto pelas pequenas ajudas que ambas prestam -, que representa ao de Jesus uma primeira oportunidade de ser alguém na vida (e pros diabos com o amor sem os temperos da vida real: o relato de Rodrigo é cru).

Macabéa, ignorantezinha que era, não se questionava: somente reproduzia pérolas de conhecimento distribuídas em rádio, crendices espancadas da tia, encantos da infância e café frio; um contraponto a Hamlet, talvez: sem indagações, cheia de perdões, e imune à desejos de vingança – e a quaisquer desejos, até: viver lhe doía.

Prefiro calar sobre a hora da estrela a que se refere um dos tantos títulos deste livro: seria abusar de spoilers, fazer análise acadêmica e resumir, o que nunca foi intenção minha. A idéia deste sempre foi relatar os prazeres de ler esta minha primeira obra de Clarice e saboreá-la: as doçuras, a pontuação e fluxo, a metalingüística. Tens a oportunidade? Lê.

Comments
2 Responses to “A Hora da Estrela, fora de hora.”
  1. Daniel disse:

    (olá, aqui é Daniel, editor do Amálgama.blog.br. você pode entrar em contato comigo pelo editor.amalgama@gmail.com? gostaria de te convidar pra escrever um texto pro site. te informo mais quando retornar teu e-mail.)

  2. McFly disse:

    Daniel,

    conversamos rapidamente por e-mail e, bem, a resposta foi publicada aqui mesmo, pela Giuli. O texto da Tais é mesmo provocador (e discordamos, eu e a Giuli, quase que inteiramente dele).

    De qualquer forma, espero que goste do post-resposta!

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