Batman: O Cavaleiro das Trevas – uma crítica a outra crítica

Sei que minha freqüência nunca foi das melhores. Falando assim parece que não leio, assisto, aprendo coisa alguma, qualquer. Pois que faço, sim; minha ausência é falta de disciplina. Entretanto, algumas comichões surgem de quando em vez e me vejo obrigado a escrever. Tenho há tempos um pequeno artigo na cabeça – ou ao menos a idéia dele – que precisa passar a existir, ser posto no papel, mas deixemos pra lá; este texto é por conta de crítica (para assinantes) sobre o filme Batman – O Cavaleiro das Trevas,  que li na manhã de 29 de julho, pelo UOL – também publicada no caderno Ilustrada -. A crítica, escrita pelo jornalista português João Pereira Coutinho, que publica regularmente em jornal brasileiro de grande circulação, causou-me risos logo pela manhã (ao contrário do incômodo que se possa considerar, por ter eu escrito uma réplica à crítica: aproveito, em verdade, a oportunidade de exercitar minha escrita, há tanto enferrujada).

Diz o autor da crítica: -“Dizem-me que Batman, ou Super-Homem, é uma metáfora profunda sobre a nossa condição solitária e urbana; heróis derradeiros da pós-modernidade. Não comento. Exceto para dizer que morro de rir quando vejo um ator, supostamente adulto e racional, enfiado num pijama colorido e disposto a salvar a humanidade das mãos maléficas de um vilão tão ridículo e tão colorido quanto ele.

Sem falar dos fãs: homens feitos, alguns casados, que continuam a acreditar que um super-herói em pleno vôo compensa todas as ereções falhadas.”

 

Seinfeld e Super-Homem em comercial da AmEx
Seinfeld e Super-Homem em comercial da AmEx

 

Vigilantes. No cinema. Recordei-me, de bate-pronto, de Seinfeld durante apresentação stand-up em episódio da primeira (ou segunda) temporada do sitcom homônimo: -“Quando os homens estão crescendo e lêem Batman, Homem-Aranha, Super-Homem… aquelas não são fantasias… elas são opções”. O comediante sabe do que fala; o jornalista Coutinho, por outro lado, vive no mundo da lua – ou aquém -. Ao menos no que diz respeito a vigilantes no cinema. Ou ao cinema.

Ao cinema: Renoir, Bresson e Bergman fizeram parte da adolescência cinéfila de Coutinho. Escapulidas, pequenos desvios de sua personalidade iluminada, levaram-no a assistir filmes das séries Dirty Harry e Desejo de Matar, com policiais ou vigilantes linha-dura que, armados de pistolas enormes (aliás, eles nunca falhavam, não com instrumentos daquela magnitude – quem precisa voar quando se leva no couro uma arma maior que seu braço? -), faziam valer sua lei.

 

De volta a Renoir, Bresson e Bergman: eles não são os criadores do Big Brother, o programa de TV; cito o programa errado, pensava em realismo, tempo real. O programa dos bisbilhoteiros de temporada é tudo menos real: os personagens, ou participantes, são escolhidos a dedo e o cenário é cuidadosamente montado para criar rivalidades, lazer e beleza, a edição realizada por profissionais gabaritados. Entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna de pato, eis onde quero chegar: não existe realismo nas telas da TV ou do cinema (parece conversa de amadores de outras telas, hemisféricas – porque não conheci um único profissional na área, no país -). Von Trier já falava deste tipo de chato quando comentando sobre críticas feitas pelos norte-americanos ao filme Dançando no Escuro, de sua autoria: -“E daí que nunca pisei nos Estados Unidos? Não posso criticar o país por não conhecê-lo em pessoa? Conheço A América muito melhor que os norte-americanos conheciam Casablanca, quando fizeram o clássico filme.”

Coutinho mimetiza Schopenhauer, ao lidar com um mundo imutável, considerando um ideal de público e obra; ou não, porque ele também roda na contramão ao escrever um texto polêmico que provoca e pretende vender.

Foram duas as conversas sobre temas que se aproximam a este, ainda esta semana. Com Santos, a discussão girou em torno das marcas que diferem o entretenimento da arte. A conclusão a que cheguei (e que lhe causou espanto, por ser perspectiva nova, para ele) é a de que os posicionamentos da arte e do entretenimento são causados majoritariamente por quem os consome. Digam que estou enganado, por favor. Warhol é pop e entretém. Picasso mexe com perspectivas – geométricas, psicológicas, todas – e entretém. Von Trier é denso, provocador, cria náuseas e entretém. Caso nenhuma deles fosse visto, comercializado, consumido, nenhum deles existiria. A arte não independe do público, como alguns artistas adoram falar por aí. O consumo a define, pro bem ou mal. Esta conversa se desdobra facilmente em outro texto, principalmente depois das tolices que li em postagem sobre arte. Fica pra depois.

A segunda conversa em torno do tema (perifericamente, diga-se de passagem) referia-se a conteúdo educacional, que atinge status de arte na boca dos aficionados de plantão. Dizia a purista que conteúdo educacional deve ter o máximo primor possível. Concordo em gênero número e grau, mas discordo que o primor educacional deva ser atingido em mais de 40 anos de repetições e minúsculas variações, atingindo meia dúzia de outros puristas. Numa cidade com 11 milhões de habitantes, nenhuma aula pública será minimamente decente ao atingir 1% da população. Se cópia é sinônimo de qualidade, Duchamp é o maioral.

 

Caixa de artes reproduzidas por Duchamp
Caixa de artes reproduzidas por Duchamp

Difícil, conhecendo uma perspectiva histórica, não imaginar um curso de alfabetização em que o aluno, após 20 anos estudando, já conhece as vogais e, feliz, ouve seu mestre lhe dizer: -“Bem, agora podemos passar às consoantes. Mais 60 anos e poderás pegar um livro, creio.” Mais fácil passarmos a viver mais a adequarmos o ensino às limitações cotidianas. Uma bobagem, o plano dos idealistas: querem (e acreditam, com furor) aprender em uma hora o que profissionais desenvolveram em suas cabeças em anos de estudo, enfurnados com livros e chafurdando informação.

Fugi dos filmes? Volto. O tempo, a duração de um filme, é dimensão extra para o artista ou construtor e como tal serve de limite e restrição à obra. Em geral, 120 minutos é todo o tempo que se tem para expor o todo – ou a parte que interessa: as propostas mudam e as restrições continuam a existir, sejam elas quais forem -, o limite para despejar toda a informação e transformação desejadas sobre o público. Se queres aprender algo, procurar por uma única obra (qualquer que seja) é o caminho mais infeliz a seguir. Se queres aprender a fundo, melhor que percorras todos os caminhos possíveis. Que fique o idiota da objetividade com uma única verdade.

Luciana pinçou pedaços do texto de Coutinho pra demonstrar o quanto ele queria desfazer-se do público que gostou do filme: burros, ridículos, impotentes. Cara Carolina não pinçou: preferiu dar lustre ao polemista, exibindo-o como alguém à procura de atenção. Tive a pretensão de fazer comentários, muitos, sobre pontos específicos do texto e me perdi falando em arte. Que seja. Não entendo nada de arte e Coutinho, nada de filmes.

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  1. […] pm | In arte | Tags: arte, arte contemporânea, Duchamp, Nietzsche, pop arte, Warhol  O post Batman: O cavaleiro das Trevas – uma crítica a outra crítica, antecipa este com um comentário. O ponto de partida é um texto que li, há alguns dias, no site […]

  2. […] O Cavaleiro das Trevas, não poderia (inspirado no texto de outra pessoa, escrevi também — aqui). Justifico meu preconceito sem mais rodeios, afirmando que o universo do homem-morcego me é mais […]

  3. […] sobre o filme e resolvi escrever esta nota, tangencial à do crítico Roger Ebert. Já fiz algo parecido quando escrevi sobre algo que João Pereira Coutinho criticara o realismo no último filme da […]



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