No princípio, era o papel…

Fugimos da tradição oral, não desde muito depois da invenção da imprensa; a explicação para demorarmos tanto a efetivar o êxodo da tradição oral tem explicação no anafalbetismo: de acordo com dados do INEP, no ano 2000 (sou preguiçoso, não esforçar-me-ei em cavucar dados), pouco mais de 13% da população brasileira – pouco mais de 16 milhões de pessoas – era composta por analfabetos. Fossem considerados os analfabetos funcionais, a fatia da população que faz parte do grupo deveria duplicar.

“Proselitismo, agora? Começou com religião, passou por política… vai acabar onde?”

Nah, que isso, a idéia é outra. Vivo a passear pelo acervo da Livraria Cultura, descobrindo novidades e outros tantos livros que sempre estiveram por aí e me passaram despercebidos (não é um labirinto e, ainda assim, me perco nos corredores). Também sou um visitante constante da megastore virtual Amazon; acho-a um ótimo lugar pra cruzar referências, procurar livros deste ou daquele autor, deste ou daquele assunto, ou ainda deste autor com aquele assunto (o site da Livraria Cultura e o atendimento nas lojas às vezes pecam nesse quesito, por causa da base de dados deles: em crescimento, mas menor que a da rede Amazon, pioneira e vanguardista). Compro livros com Ari, o livreiro, também, sob encomenda; e aproveito dicas interessantes do Alessandro Martins (ele costuma escrever sobre formas diferentes de comprar e vender livros).  

Escultura Der moderne Buchdruck, que faz parte do projeto Caminhada de Idéias, em Berlim

Escultura Der moderne Buchdruck, que faz parte do projeto Walk of Ideas, em Berlim

Voltando à Amazon – e à idéia original deste pousté -, tenho vontade há algum tempo de escrever sobre o Kindle, e-book reader lançado pela Amazon em novembro passado e que, devo dizer agora, não possuo ou testei. Certo, entrei no assunto de sopetão e nem falei sobre e-book readers (poderia ser considerado um péssimo jornalista se fosse um jornalista)! Vamos lá…

As motivações pra se criar um e-book reader podem ser as mais diversas. Acho que as principais a serem ditas são (a) a portabilidade, já que mesmo um notebook não pode (nem deve) ser aberto em qualquer lugar e (b) a facilidade de uso; para evitarmos tais dispositivos temos a desculpa padrão de que preferimos papel “porque é mais gostoso, faz falta.” Os argumentos que citei em favor dos e-books readers são suficientes, me satisfazem, e explico meus motivos (não quero generalizar, mas acho que refletem o que algumas pessoas sentem. Pulem pro próximo parágrafo se não tiverem paciência pras minhas digressões). Experiência própria: ler no computador pode ser um saco. Baixei vários livrinhos virtuais, quer seja do Project Gutenberg, do Cultvox, do VirtualBooks, e sempre tive a mesma aporrinhação: era um saco ficar à frente do computador pra ler, sentadinho, bonitinho. Os problemas? Freqüentemente leio em trânsito – morar em São Paulo é buscar alternativas ao stress de dirigir e esperar – o que de imediato joga fora a possibilidade de ler num computador; também, por conforto, quando leio em casa costumo me assentar em algum sofá reconfortante ou na cama. Essa indisciplina, apego ao conforto, diz respeito somente aos livros que leio quase descompromissadamente. A academia, entretanto, e a vontade de abrir um pouco mais meu mundo me levaram à disciplina e ao universo das constantes anotações. A quantidade de artigos acadêmicos lidos é grande e, sem muita consciência ecológica, não os imprimia: sem consciência mesmo, seria um desperdício tolo passar para o papel cada um dos artigos que foram disponibilizados numa rede estruturada (ou seria tecnicamente melhor dizer rede organizada?); além disso, para as análises necessárias em meus trabalhos, eu não poderia dispensar mesa, papel e lápis para rabiscos e anotações. Logo, que ficasse em frente ao computador para as leituras práticas, e com impressos pra diversão e leituras outras.

Vi o Amazon Kindle para vendas ainda em 2007. Dos blogs nacionais que encontrei, falou-se um pouco, ainda na época, no Ubimidia, no Meio Bit (no Alessandro Martins também, ele sempre tem algo a dizer quando o assunto é livros, sempre). Não me animei a comprar, entre outros motivos por ser um eletrônico e correr o risco de pagar o olho da cara em taxas de importação (mesmo sendo tecnologia pra substituir o livro, que não paga imposto pra entrar no país). Além disso, o valor nunca foi dos melhores: nos Estados Unidos, com cerca de 400 doletas pode-se comprar na própria Amazon um mini-laptop. Com pouco menos que isso, 360 doletas, compra-se o Kindle. Ainda prefiro uma plataforma que me permita realizar trabalho (quanto mais, melhor).  Além disso, existe outro grande porém, mas sobre ele falo logo mais.

O Kindle é um aparelho dedicado, o que significa dizer que ele é feito para leitura de livros eletrônicos, simples assim; mais uma traquitana pra carregarmos pra lá e pra cá, tão diferente da versatilidade de um iPhone ou de um iPod  Touch, por exemplo – com ressalvas ao iPhone: tive algumas poucas conversas sobre o aparelho (nunca testei, quem sou eu?) e aparentemente ele não é um bom telefone, ou seja, não serve para o que é; sobre o iPod Touch digo nada, porque nada sei -.

Voltando ao Kindle, o fato dele ser dedicado não deve pesar contra, justamente porque sua tecnologia é voltada para o que ele é. Este novo tipo de bugiganga desenvolveu-se em torno de uma tecnologia chamada papel eletrônico; o nome é até bem escolhido, porque o display deste tipo de aparelho reflete a luz do ambiente, como o papel. Não se trata de um mecanismo como os monitores que usamos em nossos computadores usuais, videogames portáteis e na maioria dos aparelhos celulares (o  simples Motorola F3, comercializado no Brasil, é exemplo de celular que usa essa tecnologia): os displays apresentam um campo de visão mais amplo (dá pra ler de posições bem diferentes), contraste parecido com o de qualquer jornal – preto e branco, preto e branco! – e, mais bacana, podem ser lidos mesmo sob a luz do Sol. Ou seja, o papel eletrônico tem ótimas qualidades!, especialmente quando comparado aos monitores de notebook ou mesmo pdas e celulares, por causa do amplo campo de visão e, principalmente, porque a luminosidade do ambiente pode ser suficiente pra que seja impossível fazer alguma leitura no display. Aliás, o fato do papel eletrônico refletir luz ao invés de emiti-la (como TVs, notebooks, monitores, pdas, etc.) significa que o consumo de energia deste tipo de aparelho é baixo e, portanto, não precisa ser recarregado com freqüência, como aconteceu em pouco tempo a um motorola que tive ou como acontece com meu HTC (mas, confesso: eu costumo deixar a conexão com a internet ou a rede LAN ligadas).

Agora, o grande contra do Kindle é também um grande atrativo pra quem mora nos Estados Unidos: ele não precisa ser conectado ao computador nem precisa estar num hot spot pros livros serem colocados em sua memória porque ele se conecta, gratuitamente, a rede da Amazon batizada de whispernet – que funciona como uma conexão de dados de celular -; já são quase 200 mil livros disponíveis e cada um deles pode ser baixado em questão de alguns minutos: dá pra levar o Kindle pra um acampamento e continuar adquirindo livros novos!, sem precisar acessar a internet, ligar-se a um PC, nada! Mais ainda, dá pra assinar vários jornais e revistas, a custos muito baixos! Chega de acordar e ir pra rua de ceroulas pegar aquele papel amassado, molhado, mordido e, às vezes, que ficou pendurado no seu telhado! Claro, como o display do Kindle funciona com escalas de cinza, esqueça fotos; além disso, principalmente no caso dos jornais, parte do conteúdo, como as tirinhas, ainda não é disponibilizada para o aparelho (questões legais).

Pegar o jornal pela manhã? Apesar de ainda não ser hábito, é atividade que deverá ter sua morte decretada muito em breve...

Pegar o jornal pela manhã? Apesar de ainda não ser hábito, é atividade que deverá ter sua morte decretada muito em breve...

Existem outras opções de e-book readers, mais compatíveis com nosso cantinho no mundo. A Sony tem uma série, PRS, sem a, hmmm, limitação da rede Whispernet; por outro lado, pra colocar um livro novo no aparelho, este tem que ser conectado a um computador, necessariamente. Tanto o Kindle quanto os PRS têm slots pra cartões de memória, mas não consegui averiguar – e o texto já tá grande, se virem nos 30 – se eles trocam livros entre si (quer seja entre aparelhos da mesma espécie, quer seja entre aparelhos de espécie diferente – não tenho certeza, mas acho que o Kindle trabalha com arquivos próprios, enquanto os PRS funcionam com arquivos do tipo ePub). E ambos os aparelhos, Kindle e PRS, podem ser conectados a um computador para receber conteúdo novo, via entrada USB. A vantagem do Kindle sobre os PRS, no frigir dos ovos, é a das assinaturas, disponibilizadas diretamente no aparelho. De qualquer forma, falando de novo nos formatos de arquivos, parece ser possível converter arquivos doc, pdf, txt e sabe-se-lá-quais-mais pro Kindle e, possivelmente, pro PRS. Nem tentarei falar sobre, encontrei um bocado de controvérsia no assunto. Prefiro, por enquanto, dizer que encontrei um software chamado Mobipocket, que instalei no meu notebook e no meu HTC. Adorei a descoberta, já li um conto curto e baixei diversos livros lá do Feedbooks, daqueles que têm copyright expirado (pois que acabei, enquanto escrevo este, de baixar Ulysses, de Joyce!). Sem falar no livro baixado do Project Gutenberg, de Hesíodo, convertido para o HTC.

Tudo bem, não falei de um bocado de características e qualidades dos aparelhos (tem uma porção de lugares pra se ler sobre). E ainda quero ter uma biblioteca, não tenho dúvidas. Mas pelamor, que facilidades esses aparelhinhos não me trariam!

Dá pra carregar tudo isso e muito mais num único leitor de e-livro! - e olha o Kindle em pé ai, veja o tamanho do danado

Dá pra carregar tudo isso e muito mais num único leitor de e-livro! - e olha o Kindle em pé aí, veja o tamanho do danado

Update, quase fora de hora: encontrei um abrangente e esclarecedor artigo sobre o Kindle no blog de um proprietário e usuário do danado, o Miguel Cavalcanti.

Comments
3 Responses to “No princípio, era o papel…”
  1. Obrigado pelo link.

    O Kindle é bom mesmo. A tela é o grande diferencial.

    Abs, Miguel

  2. siusi disse:

    queria pegar um nas mãos

    • @caducotavio disse:

      Se não me engano, slusi, na biblioteca que fica no parque onde era o Carandiru tem, disponível pro público!!! Se tiver tempo no final de semana, passo por lá e desvendo esse mistério!

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