Sobre Anjos e Demônios, o livro

Jerry Seinfeld entra no confessionário, sentando-se no degrau dos joelhos. Padre Curtis abre a portinhola que os separa, confessor e penitente.

Padre: Isso é um degrau pra ajoelhar.

Jerry: Oh. (Ajusta-se de acordo)

Padre: Me diga teus pecados, meu filho.

Jerry: Bem, eu deveria dizer que sou judeu.

Padre: Isso não é um pecado.

Jerry: Ah, bom. Enfim, eu queria falar com você sobre o Dr. Whatley. Eu suspeito que ele tenha se convertido ao judaísmo só pra poder contar piadas de judeu.

Padre: E isso o ofende como judeu.

Jerry: Não, isso me ofende como um comediante.

Poizé.

Cedo ou tarde eu leria o Anjos e Demônios, de Dan Brown. Tinha que, desde muito antes do curto e, por que não?, desonesto pousté em que flertei com a idéia de esclarecer alguma física da primeira aventura de Robert Langdon, o herói do popularmente aclamado O Código da Vinci. Tudo bem, deixei esclarecimentos científicos de lado e fiquei a aguardar a leitura que me prometera; de lado também ficaram as críticas ao desconhecido.

Não desejava construir críticas sem ter feito uma leitura porque o desconhecido, aqui, era um livro do aclamado escritor Dan Brown. Não sabia o que esperar, apenas imaginava, nunca lera nada de Dan Brown. E, se você está, já, quase-meio-zonzo de ler o nome Dan Brown, do autor Dan Brown que escreveu o livro de Dan Brown, então entende perfeitamente como me senti depois de ler tantas vezes repetidas (ou marteladas) o nome de Robert Langdon nas páginas iniciais de Anjos e Demônios. Tal qual novela mexicana, Dr. Querido-Leitor-Volte-Semprez.

Precisava ao menos ler o livro daquele jeito, transversalmente, anotando pontos científicos que pudessem gerar alguma discussão por aqui ou onde quer que ande, porque já me perguntaram sobre o livro e pude apenas dar de ombros (em geral, quem leu e queria comentar ou tirar dúvidas sobre a física que aparece no livro tinha dificuldades em formular as perguntas): em breve, não mais. Não foi nada fácil passar as páginas iniciais; essa dificuldade foi grande ainda na primeira, primeiríssima página, quando o autor expôs fatos (completamente modificados) que viriam a ser torcidos e adaptados à obra, poucas páginas depois. Foi um excelente prelúdio, preparação mais que necessária pro catatau de páginas que – insisti, continuaria (continuarei: não terminei de ler enquanto escrevo este, impaciente que fiquei) – estavam por vir.

“Excelente? Então gostou do livro!”

Opa!, calma lá!, excelente porque bom indicador, primeiro passo, oras, prelúdio. Enquanto os personagens faziam um tour pelo CERN, o senhor Brown conseguiu deixar claro que a ciência e sua história seriam distorcidas de acordo com as prioridades do momento, aquelas necessárias aos personagens pra manter a atenção do leitor, fazendo do livro o que chamam por aí de page turner.

Antes, um histórico

Poderia seguir direto pro que pensava e o que vim a pensar, mas não funciono assim; as digressões me são destrambelhadamente naturais. Permitam-me uma volta extra em todo o raciocínio. Pelo pouco que conhecia do livro, de ouvir dos outros, pensava em falar muito (e mal). Questões pessoais à parte, fiz uma rápida busca pra ver o que diziam sobre Anjos e Demônios e, apesar de ter achado um bocado de material sobre o filme que tá pipocando, encontrei pouca gente disposta a falar da literatura do Brown; algumas pessoas falam bem, outras mal. E quem fala mal, fala mal mesmo, como neste caso aqui. Schadenfreude.

Ué, fui atrás de uma abordagem diferente. Não é vontade de ser diferente, não. Eu queria era poder acrescentar algo a quem perdesse seu tempo lendo um texto caduco, por isso busquei alternativas. A saída mais prática foi, ao meu entender, aproveitar um workshop de roteiro pra cinema que presenciei, ministrado pelo Syd Field. Foi discutido o porque do filme ser, na média, tão diferente do livro. Minha nova idéia de abordagem era: que mal haveria em torcer a ciência e sua história, em nome do texto? Eu mesmo tocara no assunto quando tornei público meu desgosto à crítica de Coutinho ao novo Batman; o que é a realidade em uma obra de ficção?

Os afinais – muitos!

Eu tinha pensado quase nada sobre o assunto antes desse workshop, mas a questão acabou ficando clara: a esmagadora maioria dos filmes têm aproximadamente 120 minutos, dadas as dificuldades em manter a bunda do espectador na cadeira por tempos maiores e os custos de produção. Além do tempo, a forma como o todo é apresentado, a estética, o conteúdo, o ritmo, todos são fatores a serem levados em conta na captação de público. E sem público não tem filme, produção, investimento. O mesmo acontece no mercado editorial: o que for publicado tem que ser lido, ponto.

Por isso as liberdades na adaptação de livros em filmes. Talvez, também, assim justifica-se a liberdade em adaptar a realidade brasileira no filme Turistas, como comentado no substantivolátil – mas já deixo anotado que não concordo com a opinião da baixinha autora (ela é pequena e notável) e de tantos outros brasileños (praga, assim parece que eu só quero contestar!, contestar!, contestar!) , falo sobre isso ainda neste pousté -, ou no episódio em que os Simpsons vêm ao Brasil ou ainda num filme que assisti certa vez chamado Holocausto Canibal.

De volta ao livro: como já disse algumas vezes, sem citar casos específicos, Dan Brown torceu muita física e muita história da ciência no seu livro; esse seria o custo do seu roteiro, atribuindo feitos, importância e laços a uma das personagens centrais, além de criar o motivo da correria que se segue nas outras páginas. O físico e divulgador de ciência Marcelo Gleiser – que praticamente todos os físicos que eu conheço odeiam e desprezam -, citado na capa do livro escreveu uma crítica sobre Anjos e Demônios, classificou-o como ótimo, mas afirmou que a ciência (e sua história!) de Dan Brown está, e eu o cito, “completamente furada”. Em que não concordo com o Gleiser? Achei uma sopa sem sal a mistura feita com religião e ciência do mano Brown: sopa sem tempero, rala.

Pra não dizerem que não apontei o dedo ao menos uma vez, vamos lá:

a) A hipótese da existência e a verificação experimental da antimatéria aconteceram por volta de 1930. O CERN passou a existir como Conselho somente em 1954, ou seja, jamais poderia ter sido o local da descoberta da antimatéria;

b) Uma coisa que pouco se fala por aí é que os experimentos que são rodados (o termo é até bom, já que os feixes de partículas circulam por diferentes anéis circulares) no CERN acontecem naturalmente. Quer dizer, não exatamente, mas o fato é que não é necessário um acelerador de partículas pra produzir antimatéria, ela pode ser produzida em eventos que envolvam raios cósmicos e estes, caros, são fenômenos naturais. Aproveitando o assunto LHC, de que venho falando aqui há algum tempo, insistirei em algo que, se não disse, direi muito: os experimentos de altas energias que acontecerão no novo acelerador já ocorrem naturalmente;

c) Dizer que a energia gerada pela colisão entre matéria e antimatéria é 100% eficiente é um abuso. Ocorre a aniquilação e tra-la-lá, mas a quantidade de energia gasta pra produzir antimatéria é tal que essa eficiência proveniente da aniquilação entre matéria e antimatéria é inútil. Em outras palavras, gasta-se mais pra produzir anti-partículas (só outro nome pra antimatéria) que a energia produzida quando estas encontram-se com a matéria;

d) Chocar partículas não é criar um universo;

e) Produzir antimatéria é um processo extremamente caro. Produzir uma grande quantidade dela, que pode parecer pouco pros nossos padrões de pesos, além de caro seria um processo extremamente demorado: passa da ordem de bilhões de anos o tempo necessário;

f) Não existe um recipiente tão eficiente pra conter antimatéria quanto aqueles usados no livro.

E isso foi só pra não dizerem que não falei nada. Dá pra continuar, dizendo que o CERN não compraria um avião como o X33; que o estudioso professor de Harvard e os físicos do CERN apresentados parecem desconhecer o princípio da lâmina de Ockham; que os pesquisadores que trabalham no CERN não têm laboratórios pra conduzirem experimentos secretos; e que nem-a-pau-Juvenal que um físico consegue, hoje e sozinho, produzir toda a tecnologia que é creditada ao primeiro morto. Puxa, passei longe das experiências de entrelaçamento animal. Pano pra manga.

27 km de extensão sob a terra, é aqui representado como o anel em azul. Parte do cenário de Dan Brown.

LHC: 27 km de extensão sob a terra, é aqui representado como o anel em azul. Parte do cenário de Dan Brown.

Aí pensei: será que esse livro é tão ruim assim? Quase caí na dialética (aquela coisa que os caras de humanas adoram), mas me esquivei sem saber muito bem como fazê-lo. Aí lembrei de algo que li em O País dos Petralhas, do Reinaldo Azevedo: crescer é ter direito a preconceitos. Mais ainda, o cara vive a xingar o relativismo e a dialética. Não vou me preocupar muito com isso, mas toda essa seqüencia de pensamentos me cruzou a cuca quando pensei em procurar por um outro lado. Não consegui, diferente do Marcelo Gleiser – e só discordo dele, incapaz de aceitar a corrente de físicos que adora odiá-lo – encontrar virtudes no texto do Dan Brown. Pode ser que apareçam até o final do livro. Pretendo, entretanto, ficar longe de quaisquer outros livros de Dan Brown.

Dan Brown pode errar sua ciência à vontade, que se há de fazer? Que os físicos, biólogos, químicos, estes sim se preocupem em divulgar sua ciência. E, por mais que mano Brown tenha distorcido a história em nome de seu roteiro, o interesse dos leitores aumentou quantitativamente, eles ficaram curiosos – mesmo que não tenham procurado por mais livros de ciências ou de história, geografia -. Por outro lado, houve um boom de turistas visitando os locais pelos quais passaram os personagens do livro. E aí volto ao momento em que dizia discordar da Bottan e de todo mundo que acha que o Brasil seria menos visitado por causa dos episódios que citei mais pra riba: não tem menos gente visitando a Suíça ou a França porque entre os dois países existe uma possível máquina do fim do mundo, como foi tão noticiado em setembro último e aparece desde 2000 no livro. Tá, essa minha afirmação não tem embasamento algum, é só achismo; a afirmação dos que defendem a tese de que a imagem do Brasil fica comprometida, também. Claro, pode-se sempre dizer: “mas as pessoas têm, sim, medo do CERN.” Fato, mas normalmente se tem medo daquilo que não se conhece. That simple.

Chapa fotográfica mostrando, entre outras coisas, trilha de matéria e antimatéria produzidas naturalmente por raios cósmicos

Chapa fotográfica mostrando, entre outras coisas, trilha de matéria e antimatéria produzidas naturalmente por raios cósmicos

E, então, volto ao episódio de Seinfeld citado lá no começo deste. Anjos e Demônios não me ofende como físico. Ele me ofende como leitor. A idéia inicial é boa, mas Dan Brown poderia ter feito como os autores de ficção científica, fugindo o máximo possível à realidade em seus argumentos científicos, conseguindo ficar aquém de preocupações com escrutínios científicos. Ou existe quem possa explicar cientificamente os princípios por trás do funcionamento de um sabre de luz de Star Wars ou como explicar o funcionamento dos compensadores Heisenberg de Star Trek? Dêem um passo à frente, por favor, comentem. É, nesse quesito, apesar dos pesares, acho que o mano Brown poderia ter sido mais honesto.

Além disso, que esquisitice!, eu deixaria passar um “a voz disse,” como citado pelo Sr. Mayer se Dan Brown não soltasse um “a própria ciência causava a metade dos problemas que tentava resolver.” Então peraí: não é o homem que erra, mas a ciência? Deve ser e é por isso que ficou difícil deixar passar um “é a voz que diz.” Bobagem, eu sei. Aposto que ninguém me criticará por ter deixado meu computador escrever isso. Hmm. Além disso, muitos momentos de tensão são forçados goela abaixo do leitor, e alguns deles têm a resolução mais simplória possível. Como o livro todo é acelerado, não sobra muito tempo pra pensar, como num bom filme de ação. Mas são duas lingugagens muito diferentes e foi aí que encontrei irritações. É, Zé, nem que eu quisesse – e não quero – eu conseguiria defender o livro Anjos e Demônios. Entendo as necessidades de adaptação científica perfeitamente, já admiti isso, mas o resultado final teria que valer a pena. E, com pouco menos de um terço do jogo pro final, não acho que o relato textual da mega-gincana de Robert Langdon irá me deixar alguma boa impressão. Meus preconceitos, ah, meus preconceitos…

Comments
2 Responses to “Sobre Anjos e Demônios, o livro”
  1. denilson disse:

    ei…se quiser desistir de ler..pode faze-lo..~
    não encontrará nada de melhor….kkk, mas eu li duas vezes..esse livro é extremamente eficiente quando se quer fazer o tempo passar, sala de espera, onibus, etc são locais ideais para a leitura do mesmo….
    se tem um coisa só que é bom no livro é sua narrativa acelerada, se serve de ajuda, codigo da vinci é um pouco melhor….

    ps: vc vai se decepcionar com a cena do desfecho a anti-matéria…é a coisa mais inverossimel que já vi…ainda bem que cortaram ela do filme….

Trackbacks
Check out what others are saying...
  1. […] de gases, produzida por raios cósmicos que por ela passaram – falei sobre no pousté em que discuti Anjos e Demônios -. Mais ao menos na mesma época, diferentes experiências demonstravam que os raios cósmicos […]



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • RSS Ouvindo?

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • RSS Curiosidades

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
%d blogueiros gostam disto: