Corto Maltese ; as letras e os sonhos.

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O primeiro grande episódio da vida de Corto ocorreu quando, ainda criança, uma conhecida amiga de sua mãe tentou ler sua mão e se espantou ao ver que ele não tinha a linha da sorte. O garoto respondeu sem pensar: “Minha sorte faço eu” e, pegando a navalha do pai, abriu um profundo entalhe no lugar da linha inexistente.
Uma praia, um céu que não pode ser outro que azul, uma laguna calma onde balança uma escuna de dois mastros, uma praia onde um homem de aparência estranha se espreguiça sob um guarda-sol. Foi assim que vi Corto Maltese pela primeira vez, folheando “Sob os Trópicos do Capricórnio” em uma livraria do Boulevard Saint-Michel. Qualquer um que tiver lido essa história poderá me corrigir (e com razão) dizendo que não é assim que ela começa. Confesso; havia aberto o volume já na metade, querendo apenas olhar esse tal maltês de que tanto me falavam e seguir adiante na exploração da imensa loja.

Hoje rio ao pensar nisso. Escapar ao apelo de Corto Maltese e suas histórias é uma tarefa árdua que requer uma grande distância (o suficiente para não ter a revista sob os olhos) e uma ferrenha incapacidade de sonhar. Para esses raros eleitos, Corto não passa de um rabisco com palavras demais e introduções que parecem intermináveis, freqüentemente repletas de símbolos e ilustrações sem interesse. Às vezes invejo quem consegue pensar assim, pois esses privilegiados se safam da nostalgia fascinante e contagiosa que aperta a garganta enquanto os olhos percorrem mares e estepes.

Mas estou me desviando do tema. Friamente, posso dizer que Corto Maltese é um personagem de histórias em quadrinhos criado por Hugo Pratt. Muitos o consideram como sua obra-prima, opinião que compartilho mesmo achando que todos os outros também fazem parte desse horizonte onírico que cativa sem volta. O livro de Gianni Brunoro o define como “o herói romântico definitivo”, e a crítica ja fez correr rios de tinta para saber se suas histórias relevam mais da literatura que da HQ. Olivier Delettre esclarece brevemente a questão em seu artigo “Nouveau modèle héroïque ou anti-héros : Corto Maltese”, dizendo que “ restam ao Corto alguns atributos do mito, já que ele é o fruto do encontro entre um marinheiro da Cornualha e uma das mais poderosas bruxas de Gibraltar (…) Além disso, como os super-heróis, o maltês é facilmente reconhecido pelo seu aspecto: sua roupa de marinheiro e os traços característicos – chapéu, argola na orelha e cigarro – fazem dele um herói particular ligando-o ao mito. No entanto, contrariamente ao herói mitológico, seu sabor vem de sua profundidade psicológica. Enquanto o mito é condenado a ser uma imagem distante no céu etéreo, Corto Maltese procura se aproximar da humanidade – para não dizer do homem-tal-qual-ele-devia-ser. Algumas das características mais marcantes postas em evidência na saga (sua ironia, seu cinismo, seu senso da fatalidade, um certo romantismo escondido sob aspectos violentos, sua cultura e seu gosto pelas mulheres) permitem entender melhor esse arquétipo cuja personalidade é quase humana. No entanto ele é pego em um duplo movimento simultâneamente de negação desse status de mito pela HQ e de mitificação, sobretudo graças às entrevistas concedidas por Hugo Pratt e os diferentes trabalhos produzidos sobre a saga. Além do mais, ele evita os becos sem saída provocados pela baixeza humana sem se mostrar melhor que os outros e, sobretudo, sem tentar se estampar como um modelo insuperável. Todas essas características fazem desse protagonista o herói da literatura dita clássica. Corto não é, portanto, muito inovador nesse aspecto. Todo o talento de Hugo Pratt consistiu em inserir esse personagem em um quadro ainda inédito, a H.Q.”

Quanto a mim, prefiro não analisar. Corto deve ser lido e saboreado antes de tudo sem a preocupação de uma olhar geométrico que o destituiria de toda leveza poética, tudo aquilo que faz sua magia… Voltejando entre Zarathustra e Long John Silver, o leitor se depara com a biografia detalhada e impecável que nos faz pensar em uma versão romanceada de algum personagem histórico que marcou pela sua vida original para depois ser recuperado por um autor, como fez Alexandre Dumas com D’Artagnan ou Edmond Rostand com Cyrano de Bergerac. Mas não; mesmo que muitos associem à personalidade de Corto uma projeção do próprio Hugo Pratt, ele é uma criação à part entière que, como todas as criações, surgiu de influências e confluências para depois desenvolver sua maneira única de ser e viver. Sua melhor definição foi dada pelo Barão Corvo em Fábulas de Veneza: “Você, Corto,(…) o eterno vagabundo, o ingênuo Dom Quixote de meia pataca, sedutor frustrante e frustrado, parasita romântico talvez até sentimental”… e a beleza da H.Q. não pára por aí. Acompanhar as aventuras de Corto é pular das ruas de Veneza à foz do Orenoco, passando pelas águas do Pacífico e as colinas Irlandesas.

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Ler Corto Maltese não é fácil para quem está acostumado com as H.Q. americanas. Hugo Pratt foi autodidata para tudo e seus traços são estranhos, às vezes até grotescos sem no entanto perder nada da capacidade de transmitir a emoção que varre as expressões. Da mesma maneira, os movimentos nas cenas de ação não seguem as normas tradicionais e exigem do leitor um verdadeiro trabalho de interpretação para completar o gap que separa um quadro do outro. Pior: quando chegamos aos últimos títulos (Fábula de Veneza, As Célticas, etc.) os textos ocupam cada vez mais espaço sem que os traços percam os detalhes. A complexidade aumenta de um grau ao abordarmos a aventuras mais elaboradas como “Mu” pois Pratt, um pesquisador incansável (reza a lenda que ele tinha mais de 30 000 livros de ocultismo e esoterismo em sua casa na Suíça, onde morreu!), usa e abusa de todos os mitos e símbolos a tal ponto que é fácil se perder. Junte a isso a profundidade dos dialogos e das introduções, as posturas e a precisão histórica e o universo se torna vasto o suficiente para uma vida de releituras pontuadas por novas descobertas.

Falando em descobertas, não poderia deixar de lado os companheiros de Corto que aparecem pelo caminho. Do seu grande (e louco) amigo Rasputin, que herdou o visual e o temperamento de seu inspirador histórico, passamos por mulheres encantadoras, fatais, enigmáticas, poderosas, traiçoeiras que se revelam com nomes como Hipazia, Boca Dourada, Pandora… a lista é longa como as frustrações e paixões que elas despertam no leitor.

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Apesar de saber que ele já foi traduzido para o português, não sei qual a expressão escolhida para traduzir o titulo de“gentilhomme de fortune” que ele têm nos textos franceses. Pessoalmente, escolheria “cavalheiro dos mares” ou algo parecido, mesmo que muitos sentidos se percam. Pirata? Sim. Sedutor? Quem sabe. Generoso? Claro. Sonhador? Impossivel não ser. As histórias de Corto Maltese sempre partem em dezenas de direções diferentes. Ele se move entre bem, mal, política, insurreição, guerras declaradas e personagens de poder misterioso a busca de ouro e, sobretudo, de aventuras e histórias para contar. Nós o seguimos por esse universo vaporoso onde só pode existir o limite extremo entre sonho e uma realidade que já foi.

De repente o livro chega ao fim, e todos se reúnem em uma reverência final antes da última página em branco cobrir seus rostos como uma cortina que desaba.

Você não termina uma história de Corto Maltese: você emerge de volta para o barulho e o maldito celular que toca. E guarda ele na estante com esse inexplicável gosto de maresia e saudade. E uma fábula que existe pelo simples prazer de existir, para quem quiser persegui-la.

Corto Maltese está sendo publicado no Brasil pela Pixel. Os volumes já publicados são:

  • “Corto Maltese – A Balada do Mar Salgado” (2006)
  • “Corto Maltese – Sob o Signo do Capricornio” (2006)
  • “Corto Maltese – Sempre um Pouco Mais Distante” (2006)
  • “Corto Maltese – As Célticas” (2007)
  • “Corto Maltese – As Etiópicas” (2008)
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Comments
One Response to “Corto Maltese ; as letras e os sonhos.”
  1. Ednice Stahl disse:

    Foi uma delícia ler o seu texto aqui..lindo! Abraços!

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