O mito da inspiração

Pretendia começar este pousté dizendo que estou ficando incrivelmente chato no que se refere à ciência, divulgação científica, etc.. É, minha resenha do livro Anjos e Demônios não foi nada apaziguadora e há muito que se dizer sobre a chatice que pode ser a divulgação científica; como costumo dizer a cientistas e professores – não estou separando as categorias per se, mas meu conhecimento de mundo diz que há quem faça ciência, há quem eduque, há quem faça os dois e há, ainda, aqueles que não fazem um ou outro (uma minoria, creiam) -, “é possível ser infinitamente chato. Tão chato quanto se queira”.

(Falo disso com algum conhecimento de causa: de acordo com um amigo meu, eu sou o cara mais chato do mundo. Apesar de todas as nossas divergências políticas, nesse ponto específico não ouso discordar.)

Pois é, pretendia ir por ali; de caso pensado, deixo a idéia de lado. Minha inspiração tem outros tons. Aí sim, sobre a inspiração, tenho assunto pra escrever uma, duas ou mil palavrinhas.

Este texto foi nascendo no Roda de ciência, de onde parti para o Ciência e idéias – deixei uns comentários esquisitos lá, prometendo este texto aqui -. Em verdade, ele já existia na minha cabeça caduca há algum tempo; não queria escrever, entretanto, partindo de experiências pessoais que não pareciam merecer esse espaço (ou qualquer outro). Não soasse o assunto tão banal, poderia esquecê-lo nalguma gaveta lá, bem no fundo da cachola. Só que o banal também é óbvio e pouca gente quer ou se dá ao trabalho de falar no óbvio; nesse caso específico, faço questão de fazê-lo, é uma comichão, tava lá e precisava sair.

Vamos lá, já abrindo com digressões: noutro dia li no Twitter uma suposta citação de Einstein: “Se os fatos não se adequarem à teoria, mude os fatos”. Sei lá se ele disse isso; de qualquer jeito, supondo que tenha dito, quem costuma usar essa citação pouco deve se importar com a existência de um contexto. Aliás, vale a própria citação: adapte-a ao contexto desejado – qualquer que seja – e dê os créditos a alguém respeitado como intelectual. Boom!, no problems, frase de efeito instantâneo.

“E daí, pra que essa digressão?”

Pra falar em Einstein, fazer birra e voltar ao Ciência e idéias. Maria Guimarães comentava sobre uma entrevista da diretora (de ópera, filmes, teatro e o escambau!) Penny Woolcock, em que ela, que vem dirigindo uma ópera sobre os primeiros passos do desenvolvimento da bomba atômica (Doctor Atomic), dizia não ser a ciência muito diferente da arte. Aprendera com um ex-sogro seu, ela dizia, laureado com um Nobel (provavelmente de química), que as grandes descobertas são inspiração, dependentes principalmente de criatividade.

Nada demais, é verdade, o que é dito na entrevista é justo, bem dito, não precisa de correções. Só que é justo até demais: eu mesmo passei batido na hora e sai comentando destrambelhadamente (aqui) que essa coisa de inspiração é balela. Fiquei de escrever sobre e cá estou, tentando abrir mais distância entre inspiração e imaginação, criatividade, tal qual um Moisés que abre um caminho de fuga no mar Vermelho – não sou salvador nenhum, hein! -. Essa diferença começou a ficar clara pra mim em idos de 2004, quando fui à exposição de Picasso na Oca e deparei-me com uma citação dele, escrita em letras garrafais: “Se a inspiração vier, que me encontre trabalhando”. Já tivera meu tempo na academia, entre bacharelado e mestrado e ainda não tinha entendido porque raios os estudantes – a esmagadora maioria deles – sempre esperava pela inspiração pra fazer aquele trabalhinho ou estudar praquela prova; e, pasmem!, a dita da inspiração sempre vinha naquelas horas finais de desespero, anteriores à prova, entrega, apresentação, etc. (escolham livremente a catástrofe estudantil mais próxima da tua realidade). Duvido que algo tenha mudado desde que saí da universidade.

Densidade? Você realmente acha que tô pensando nisso, agora?

"Densidade? Você realmente acha que tô pensando nisso, agora?" - originalmente postado no Flickr por TeeRish

Muito depois, trabalhando com divulgação científica, vi a confusão que um roteirista e suposto artista tentava aplicar à equipe técnica naquele ambiente de trabalho: sempre atrasava a entrega de sua parte do trabalho (em mais de mês, até) afirmando que não se sentira inspirado. O detalhe é que a figura nunca abria um livro pra pesquisar e menos ainda apresentava trabalho, rascunho, nadica de nada – não no prazo -.

Nesse meio tempo, conheci Nietzsche. Ele foi esclarecedor e preciso em seus aforismos 155 e 156, de Humano, Demasiado Humano; reproduzo-os a partir da edição de bolso que tenho (Humano, Demasiado Humano, Companhia das Letras com tradução de Paulo Cesar de Souza):

155. A crença na inspiração. – Os artistas têm interesse em que se creia nas intuições repentinas, nas chamadas inspirações; como se a idéia da obra de arte, do poema, o pensamento fundamental de uma filosofia, caísse do céu como um raio de graça. Na verdade, a fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente, sejam coisas boas, medíocres ou ruins, mas o seu julgamento, altamente aguçado e exercitado, rejeita, seleciona, combina; como vemos hoje nas anotações de Beethoven, que aos poucos juntou as mais esplêndidas melodias e de certo modo as retirou de múltiplos esboços. Quem separa menos rigorosamente e confia de bom grado na memória imitativa pode se tornar, em certas condições, um grande improvisador; mas a improvisação artística se encontra muito abaixo do pensamento artístico selecionado com seriedade e empenho. Todos os grandes foram grandes trabalhadores, incansáveis não apenas no inventar, mas também ao rejeitar, eleger, remodelar e ordenar.

156. Ainda a inspiração. – Quando a energia produtiva foi represada durante um certo tempo e impedida de fluir por algum obstáculo, ocorre enfim uma súbita efusão, como se houvesse uma inspiração imediata sem trabalho interior precedente, ou seja, um milagre. Isso constitui a notória ilusão que todos os artistas, como disse, têm interesse um pouco excessivo em manter. O capital apenas se acumulou, não caiu do céu. Aliás, há uma inspiração aparente desse tipo também em outros domínios, como por exemplo, no da bondade, da virtude, do vício.

Eis tudo.

Outra citação de Einstein – e que aparece no post já citado do Ciência e idéias – é: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. De fato, conhecimento burocrático é lugar comum. Grandes revoluções no conhecimento – científico, artístico, nomeie sua preferência – aconteceram quando paradigmas foram quebrados. As marcas dessas revoluções, entretanto, só existem porque alguém insistiu em trabalhar idéias e criatividade. Foi assim com Shakespeare, Einstein, Picasso, Feynman, Newton, Spielberg, Houdini e tantos outros. Exemplos? Vejamos: quem aqui já tomou um banho de banheira e pensou por um instante sequer na densidade ou em como determinar o volume de um corpo irregular e, depois, em sair correndo nu pela cidade a gritar “Eureka!, Eureka!”? E que dizer da hipótese de Louis de Broglie? E a eletrodinâmica quântica? Ou, como citado pela Maria Guimarães, a teoria geral da relatividade?

Isaac Newton foi um gênio criativo: deu os primeiros passos do cálculo diferencial e integral, descreveu a gravitação universal e relacionou os movimentos dos objetos na Terra e dos objetos no espaço às mesmas leis naturais; desenvolveu uma teoria de cores que ainda é ensinada nas escolas, o primeiro telescópio refletor e… não preciso listar, citarei-o porque é isso mesmo que pretendia fazer: “Se enxerguei mais longe é somente porque me apoiei nos ombros de Gigantes”. Claro, falta a parte em que ele afirma “e sentei e trabalhei, viu, trabalhei mesmo”. O que me lembra o Paulão (acho que era esse o nome), produtor durão que conheci em gravações de cenas pra uma série da HBO; num raro momento de pausa perguntei-lhe o que fizera pra estar ali, naquela posição. Ele mudou completamente de tom, tornou-se quase afável, e respondeu: “Estudei teatro. Estudei letras. E ralei, ralei muito.”

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Tom Jobim fazia e refazia. Inspiração? Sei. -- Painel presente na exposição Bossa na Oca, Setembro de 2008

Einstein inovou ao propor sua teoria geral da relatividade? Certamente. Mas também se apoiou nos ombros de gigantes. Teve seu momento de inspiração? Fato. E fez bom uso dele, conseguindo pensar e montar sua proposta ao longo de quase uma década de suor e rabiscos. Conhecimento, criatividade, inspiração e trabalho. Trabalhadores não são intelectuais de passeata.

E chega, acabou minha inspiração.

Comments
2 Responses to “O mito da inspiração”
  1. Patrícia C. disse:

    Excelente post, McFly!

    Estou escrevendo também para agradecer a dica sobre o Raul da Ferrugem Azul – li e gostei muito!

    Um abração

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  1. […] blogueiro Mcfly, em post sobre o mito da inspiração, reproduziu um interessante trecho do livro Humano, demasiado humano, de autoria de Nietzsche: 155. […]



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