Ciência: uma definição não científica

Este texto vem pra atender a uma urgência (minha, egoísta). Tenho lido muito, ultimamente, sobre concepções completamente amalucadas de ciência. Nós, humanos, temos muitas dúvidas sobre a vida, o universo e tudo mais. Fato. Temos, cada um de nós, maneiras próprias de lidar com essa curiosidade: alguns buscam refúgio em mitos e na religião, outros aceitam o experimento como maneira de chegar à realidade e há ainda aqueles que, apesar da curiosidade, têm mais com que se preocupar – existem também os cientistas que também são religiosos, pra que não digam que tomei partido, como se ciência e religião fossem necessariamente excludentes –.

Eu seria desonesto comigo mesmo se, nesse texto, não desse uma definição de ciência; pra quem não percebeu, grito: não disse “a definição de ciência” e sim “uma definição de ciência”, ou seja, escolherei uma definição dentre as possíveis (e não conheço todas as definições existentes; só sei que o debate sobre o que é ciência continua muito, muito vivo).

A definição

Particularmente, sou adepto da definição de ciência desenvolvida por Karl Popper. É a que considero mais interessante, apesar de trazer problemas outros cujas respostas não tenho (apresentá-los-ei, muita calma). Ela pretende separar, completamente, os campos da ciência e da pseudociência; essa separação muitas vezes não é percebida na prática. Também pudera, quantos de nós podem dizer que foram treinados na fina arte de detectar engodos?

Em uma palavra, a definição: falseabilidade. Acho que muita gente esperava a palavra “experimento”, não é? Acontece que o experimento faz parte do método científico, sim, mas ele não é suficiente pra definir a ciência e, como proposto no parágrafo anterior, separar ciência de pseudociência. Isso porque um conjunto de dados, um fato, pode ser explicado dentro do âmbito de praticamente qualquer teoria. Mais ou menos – o exemplo é simplório, mas se encaixa bem – como naquela piada em que o cientista chega à conclusão que a aranha ficou surda e por isso parou de andar depois que todas as suas pernas foram arrancadas: quer dizer, ele conclui que aranhas sem pernas são surdas. Fez uma interpretação muito esquisita dos eventos; não fosse uma piada, poderíamos discutir se o dito cientista não partiu do pressuposto que aranhas sem patas são surdas e, daí pra frente, fez um experimento que poderia demonstrar sua hipótese. Ainda, ele poderia ter arrancado quatro patas da aranha e pedido a ela que fosse à padaria comprar pães; se ela não fosse, teria provado que aranhas que tenham 4 de suas pernas amputadas não falam determinada língua, já que não conseguiram obedecer a uma simples ordem (acho que é desnecessário dizer, mas vamos lá: não façam esses experimentos-piada, hein!).

Certo, o exemplo da aranha foi tolo, usarei outro mais científico – e causador de controvérsias para os físicos de plantão, tenho certeza –. Quando ainda na academia, conversando sobre as possíveis vias de estudo e pesquisa, discutimos o artigo A dialog on quantum gravity, escrito pelo professor Carlo Rovelli. Nesse artigo, escrito como o diálogo proposto por Galileu sobre os sistemas do mundo, Rovelli levanta a bola de que a teoria de cordas não é uma boa teoria científica: ela se complica mais e mais, pra tentar solucionar as inconsistências criadas pela própria teoria. Essa crescente complicação não seria um problema (volto a isso em outro momento), mas é; porque tem sido o jeito de blindar a teoria de cordas, tornando-a irrefutável, à prova de experimentos que demonstrem que há algo de errado com ela. Esse argumento é similar ao que Leonard tenta usar contra Sheldon – físico de cordas – no episódio piloto de The Big Bang Theory:

Leonard: Pelo menos eu não tive que inventar 26 dimensões só pra fazer a matemática aflorar.

Sheldon: Eu não as inventei, elas estão lá!

Leonard: Em que universo?

Sheldon: Em todos eles, eis o ponto.

THE BIG BANG THEORY

Matemática é ciência?

Eu não conheço o suficiente de teoria de cordas pra dizer que ela não é uma boa teoria científica, confesso. Mas também nunca encontrei um estudioso de cordas que dissesse “bem, se isso for demonstrado, podemos descartar a teoria [de cordas]”.

Voltemos à falseabilidade. Trocando em miúdos, uma teoria falseável é uma teoria que pode ser refutada pelo experimento, pela natureza; a teoria falseável é restrita, não funciona pra tudo, todos os casos, não contém em si mesma todas as respostas.

Um exemplo

Newton disse em sua teoria da gravitação que corpos massivos atraem-se mutuamente. Essa teoria representa um grande avanço para a ciência e a humanidade, porque unificou sob um mesmo conjunto descritivo eventos que acontecem em nosso planeta e nos céus (a mecânica celeste). Até então, costumava-se defender que tudo que acontecia nos céus era perfeito; daí órbitas necessariamente circulares, ou que se relacionassem de alguma forma a sólidos perfeitos.

Deve haver – infelizmente, desconheço – outras hipóteses que expliquem os mesmos fenômenos que a teoria da gravitação de Newton; a teoria desenvolvida por Newton é, entretanto,  muito bem verificada e, além disso, muito simples (aqui vale o conceito da navalha de Ockham, já citado em outro pousté). Um porém importante é que a teoria da gravitação de Newton não versa sobre as cores que vemos; não apresenta informações sobre óptica geométrica, nem sobre a força elétrica. Ela não explica tudo e, o melhor: pode ser verificada e refutada. Como? A velocidade de escape, aquela mínima necessária pra que um corpo chegue ao espaço, poderia ser diferente da prevista; ou um planeta poderia ter sua órbita diferente do que é esperado.

Ah, mas espera: isso acontece com a órbita do planeta Mercúrio! Qual o problema, então? Nenhum! Aliás, o problema da órbita de Mercúrio deu dica importante pra que soubéssemos que poderia haver uma teoria mais completa, maior, por trás da proposta por Newton – ela não continha em si uma explicação pra essa falha –. E por que essa teoria continua a ser ensinada e usada se ela não funciona sempre? Porque ela é muito mais simples que a teoria da relatividade proposta por Einstein e serve perfeitamente bem pros domínios em que estamos acostumados a viver, pro nosso dia-a-dia. É um caso particular da teoria da relatividade, para corpos com velocidades pequenas quando comparadas à velocidade da luz. Então, pra que jogar fora algo que funciona realmente bem em casos particulares? Seria como jogar fora todo um ramo da medicina porque uma determinada condição – uma doença, por exemplo – não tem cura conhecida.

Claro, é possível complicar e complicar uma teoria qualquer até que ela consiga prever e descrever a maior quantidade possível de eventos da natureza (disse que voltaria a isso). No caso das teorias de cordas, torço o nariz porque esse contínuo ajuste acaba por criar mais problemas (que pedem por mais dificuldades) e dificuldades. A relatividade de Einstein é mais complicada que a teoria de gravitação de Newton, mas descreve muito mais, prevê muito mais – como exemplos, posso citar buracos negros, curvatura do espaço-tempo observada em eclipses solares ou em lentes gravitacionais –.

Em partículas elementares, temos o Modelo Padrão, que parece uma colcha de retalhos, tantas são as pequenas modificações e inserções propostas pra resolver problemas e dúvidas existentes. Não é o que eu chamaria “modelo elegante”; uma enorme brecha existente no Modelo Padrão consiste em não termos conseguido detectar, ainda, a partícula responsável pela massa de todas as partículas existentes (e, por conseqüência, a massa de todos nós, da Terra, Sol, etc. etc.). O Modelo Padrão, em sua formulação mínima, não explica a massa dos neutrinos (partículas sem estrutura interna que, desecobriu-se na última década, são portadoras de uma massa diminuta, mas não nula). As modificações que vêm sendo propostas a esse modelo mínimo são passíveis de testes e, por si só, refutáveis – acrescentam alguma dificuldade ao modelo, mas criando um mínimo de problemas críticos -. Para a ciência, uma ferramenta de auto-correção está em funcionamento o tempo todo: os dados experimentais sempre podem ser confrontados com as previsões das teorias. A quantidade de modelos propostos pra substituir o Modelo Padrão é enorme, e cada um deles será descartado ante uma ou outra evidência experimental.

Um exemplo de pseudociência, seguindo a definição de Popper, é a astrologia. Afinal, afirma-se que ela pode prever e explicar a vida de qualquer cidadão, qualquer pessoa. Bem, interessante, mas a pergunta que pode ser feita é: que experimento permite a verificação dos dados? Existe um grupo de controle (quero dizer, o que é previsto pra mim somente pode ser previsto pra mim? Como se sabe que aquela estrela influencia minha vida assim e assado se nenhum astrólogo tem informações sobre como ela influenciou a vida de outras pessoas, estando naquela posição determinada, naquela data, naquele dia? Mais: como sabe que me influencia assim e assado, se sou a única pessoa no mundo que nasceu naquele horário, naquele dia e naquele local? Ou como um astrólogo tem acesso a todas as variáveis possíveis de tempo e posição?)? Não.

Outros exemplos de pseudociência, seguindo a definição de Popper, eram as teorias psicanalíticas de Freud e Adler, porque (agora o cito, porque sei realmente nada sobre psicanálise) “elas não são testáveis, irrefutáveis. Não há um comportamento humano concebível que possa contradizê-las”. Pode ser que desde a proposta de Popper, os psicanalistas tenham desenvolvido formas de refutar as diferentes teorias psicanalíticas, mas não me arrisco a falar sobre.

Assisti ao filme Contato, essa semana. Fala-se muito na dita verdade, ali. Então, afinal, existe uma verdade científica? Sim, e ela é diferente de outras verdades. Uma teoria científica não precisa ser eterna e versar verdades fundamentais. A natureza é a verdade fundamental do cientista e qualquer teoria que seja criada por nós, homens, deve se adequar a ela, não o contrário. Deixemos que Lisenko descanse em paz.

Comments
5 Responses to “Ciência: uma definição não científica”
  1. Maduc le Noir disse:

    “Hosana nas alturas, anjos no céu de Berlim”! Fazia tempo que não lia um post interessate assim. Lembra muitas boas conversas.

  2. Patrícia C. disse:

    Olá, McFly! Gostei bastante deste texto e, olha a coincidência, comprei recentemente o Contato para ler (o filme já assisti há muito tempo).
    Interessante sua colocação sobre a astrologia (o Sagan tb fala sobre isso em O mundo assombrado pelos demônios). Senti falta apenas de um link para o post que citava a Navalha de Occam… fiquei curiosa para lê-lo!

  3. McFly disse:

    Opa!

    É, eu estou relendo O Mundo Assombrado pelos Demônios, por isso me veio fácil à cabeça o caso da astrologia. Dá pra ir mais fundo ainda, se pensarmos que as mudanças no campo da astrologia não acompanharam a natureza. O buraco é ainda maior.

    Agora, Patrícia, o link pro texto da navalha de Ockham tá aqui:
    https://caducando.wordpress.com/2008/11/12/ainda-nao-terminei-anjos-e-demonios-mas/

    Não entrei pra verificar o link per se, será que valhe a pena escrever um texto somente sobre isso? Boa pergunta.

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  1. […] em uma palavra: misnamer. Vamos a outro ponto antes de chegar a isso. Noutro dia eu escrevi uma entrada em que indicava uma possível definição de ciência. Existem muitas. Definições brotam em […]

  2. […] for o caso, refutar as hipóteses. Discuti um pouco sobre o critério de falseabilidade no meu blog Caducando. A falseabilidade é ferramenta das mais […]



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