A curiosidade e o Thundercat

Quando criança sempre acabamos ouvindo ditados que devem, a princípio, traduzir alguma forma de sabedoria, seja ela popular ou não. Essas pérolas são geralmente distribuídas pelos avós que, zelosos pela construção do caráter de seus netinhos, pontuam seus discursos com infinitas citações para nos ajudar mais tarde na vida. Algumas funcionam sempre (O diabo tanto enfeitou o olho do filho que furou), outras viram clichês que dão a quem os usa um ar de pedantismo e cheiro de naftalina (O amor é fogo que arde sem doer), outras ainda são obscuras e as guardamos em um cantinho do nosso cérebro de criança, esperando finalmente entendê-las “quando crescer” (Viado gosta de homem, mulher gosta é de dinheiro). Tem os ditados machistas, racistas, obscurantistas e tantas outras variações que além de serem estranhos nos valem uns tabefes quando usados, mesmo sem sabermos ao certo por que: esses viram tabu, e com razão.

Mas de todos os pedaços de frases que me passaram quando moleque, um me parecia especialmente estranho: “A Curiosidade Matou o Gato”.

A frase por si só já tem um quê de misterioso, como um oráculo de tragédia grega. Mas não para por aí. Primeiro; por que a curiosidade matou justamente o gato? Comecei a observar com cuidado esses pequenos felinos domésticos apenas para chegar à conclusão que fora um instinto caçador muito desenvolvido e um sadismo quase tão aperfeiçoado quanto o instinto, o gato é um bicho interesseiro, preguiçoso e essencialmente dorminhoco. Nada a ver com o hamster ou o orangotando que em suas respectivas gaiolas e viveiros cutucam tudo e fuçam por todo canto. O gato é um leão miniatura, caçador vagabundo, que gosta de um carinho de vez em quando e, se vai com a tua cara, te traz de presente um bichinho morto às cinco da manhã. (Que os grandes defensores da classe felina não me joguem pedras! Gosto muito de gatos, acho lindinho, etc… mas convenhamos que até agora não falei besteira nenhuma).

Mas a curiosidade matou o gato. Se o gato não é curioso, então como enteder isso? Talvez seja a curiosidade do moleque. Esse sim, com todo o sadismo que apenas a complexidade da psiquê humana pode gerar, passa seu tempo a afogar gatinhos no bueiro ou a explodi-los com bombinhas de São João. Ainda assim, mesmo tendo sido moleque (e, portanto, ter provado o delicioso sadismo com animais), nunca suportei maltratar nada maior do que uma minhoca. Adorava os gatinhos que encontrava na casa de Tia Anita e meus pais sempre suspiravam quando ia encontrá-la pois sabiam que voltaria agarrado a um gatinho que ela tinha me “dado de presente”, para o qual já havia escolhido nome e passado tardes inteiras bricando. Todo o ano a volta para São Paulo era marcada pelo mesmo dramalhão de arrancar o bichano das mãos do moleque, devolvê-lo para Tia Anita e em seguida pegar a estrada com um chorão ranhento no banco de trás. Ora, para quem gostava assim de gatos, não acho que minha curiosidade seria uma ameaça real à vida da criaturinha.

Brincadeiras à parte, o sentido do ditado é claro: “quer você seja um gato ou não, fique de boa e não vá meter o nariz onde não é chamado, faça o que tem que fazer e pronto”. De repente, tudo parece claro: uma criança curiosa descobre o mundo experimentando, enfiando os dedos nas tomadas, comendo terra, fuçando no lixo, rolando na lama… enfim, a descoberta do mundo complexo em que vivemos implica uma série de experiências – boas, ruins, inofensivas ou perigosas – que pais, avós e outras figuras de autoridade tentam filtrar ou controlar como podem para que a gente possa sair da infância sem deixar pedaços demais pelo caminho e nem eles os cabelos. Mas à medida que crescemos as prioridades mudam e a curiosidade passa a ser requisitada como sinal de inteligência. Uma vez compreendido que um dedo na tomada dá aquele puta choque, que um vidro de remédio leva para o hospital e que comer terra é nojento, queremos que o jovem desperte a curiosidade racional e emocional para o mundo. É preciso ler, é preciso observar, assistir, interagir e aprender com tudo o que nos envolve. Entramos nessa nova fase onde, depois de aprender que o ideal é jogar bolinha de gude sem gritaria e ficar quietinho no quarto para não quebrar o vaso da sala, temos que abrir a porta e ir ver lá fora como tudo acontece…

Tudo bem, tudo bem… não é exatamente assim e sei que passar a tarde correndo atrás de insetos para catalogá-los ou assistindo um documentário do capitão Cousteau nunca fez muito parte da nossa cultura brasileira, pelo menos não da maioria. Não se trata de uma crítica: somos um povo que gosta de esporte, amigos e ar livre. A curiosidade nesse caso se estende a outros campos em uma justa troca: dependendo do seu interesse, você sai da adolescência sabendo jogar xadrez ou driblar no futebol, citando Machado de Assis ou xavecando como ninguém. A variedade é grande e as fronteiras não são herméticas, com exceção do xaveco: esse, se você não aprendeu quando adolescente, vai ter um trabalhão para tirar o atraso depois. Felizmente existem outras maneiras de quebrar a parede que separa as pessoas e até mesmo um desconhecedor total da arte (sim, arte!) do xaveco consegue invocar a doçura no olhar desejado com um pouco de tato e interesse. O processo é mais longo e muitas vezes implica mais do que uma simples atração, mas acaba valendo a pena. Acreditem.

Mas a curiosidade matou o gato. Quando? Aí entra o grande problema: a curiosidade matou o gato quando pediram para ele não ser curioso. Pois uma vez que terminamos nossa fase de aprendizado e entramos de sola no mundo tal qual acabamos nos dando conta que na maior parte do tempo ser curioso dá problema:

O jornalista que investiga baile funk amanhece morto e queimado em um canto do morro… do lado do jornalista que investigava o esquema das propinas no governo!

O cara que passa a noite lendo é despedido porque enquanto isso seu colega ficou trabalhando e terminou a apresentação muito antes…

“Fez um curso de francês? Ah, tem que ser viado pra querer falar com biquinho!”.

“Vai fazer o que sexta à noite? Vai pro bar? E tá levando um livro pra quê, ô seu nerd??”.

Sim, pois é: a curiosidade matou o gato. Profissionalmente e socialmente. Se considerarmos corretos os dados geológicos sobre a idade do nosso planeta, ele tem cerca de 4,6 bilhões de anos. Os primeiros hominídeos apareceram entre 20 e 8 milhões de anos atrás e a civilização tal qual a conhecemos data de aproximadamente 5 ou 6 mil anos. Desde os sumérios temos registros de gatos como animais domésticos. Ora, podemos então imaginar que o ditado se refere a uma espécie de proto-gato que evoluía em uma sociedade coerente bem antes da nossa civilização e esta se embrenhou no mesmo caminho que estamos seguindo agora. Certo dia, enquanto ainda estavamos nas árvores e os engravatados tigres dente-de-sabre a caminho do escritório nos jogavam bananas após milhares de anos de evolução felina (de revoluções armadas e industriais com o objetivo de acabar com as desigualdades, garantir a cada um – gatos, tigres, leões, panteras, onças… – a boa carcaça de cada dia para que todos comam à própria fome e possam finalmente se respeitar, se entender e, em uma ação conjunta movida pela simples nobreza de espírito comum a todos, permitir que cada um evolua e espaireça à sua maneira em um mundo onde não será julgado pois toda atividade é sinônimo de melhoria pessoal e coletiva…) nosso tigre olhou ao redor. Viu os prédios com suas portas giratorias, os carros cheios de linces xingando os guepardos que quebravam os retrovisores, as panteras negras odiando os tigres brancos do Tibet porque esses as desprezavam, os leões vagabundando em seus enormes escritórios enquanto as leoas se descabelavam para garantir o lucro do ano.

Dente-de-Sabre suspirou, olhou sua maletinha e sua gravata, olhou os macacos-que-um-dia-seriam-homens e pensou consigo mesmo que eles é que tinham sorte de viverem segundo as leis básicas e cruéis da natureza sem sentir a tristeza de se saber parte de uma raça que teve a possibilidade de criar um mundo ideal e não conseguiu por pura estupidez. Em seguida voltou para casa e contou para a esposa seu plano, escolheu seus amigos – tão mal das pernas quanto eles por serem sonhadores ou idealistas -, construiram uma nave espacial e zarparam para longe, na noite de um universo desconhecido.

Depois, todo mundo sabe o que aconteceu: como felinos são vagabundos mas não são burros, eles logo perceberam que ao invés de se encher o saco cultivando uma sociedade que, no fim das contas, era a mesma barbárie dos primeiros tempos (com, ainda por cima, o inconveniente das gravatas), passaram um rolo compressor nas cidades, abriram os abatedouros e jogaram tudo o que não pôde ser destruído no fundo do mar. Voltaram a viver pela lei da selva verdadeira, que pelo menos tem o mérito da autenticidade. Logo seus instintos de predador e a força fisica voltaram, e todos viveram felizes para sempre.

Dente-de-sabre e seus companheiros encontraram um planeta ao qual deram o nome de Thundera e fundaram la uma sociedade justa e nobre que um dia s’escafedeu, mas isso é uma outra história.

“A curiosidade matou o gato”. No planeta Terra é verdade. Você pode tentar mudar isso, mas é melhor que seja um Thundercat. E ainda assim…

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