Dos continentes aos planetas – há terras à vista?

Tive contato há algum tempo com o tema dos planetas extrasolares (ou exoplanetas, não considero a nomenclatura uma preocupação), aqueles existentes fora do sistema solar, quando ainda trabalhava sob uma cúpula. No país inteiro os divulgadores de astronomia, financiados pelo estado, tiveram o sistema solar como tema, por 50 anos – como se nunca houvesse muito mais sobre o que falar, no não-tão-minúsculo-universo -.  Desejávamos quebrar essa lógica e nos adiantarmos na curva: a ciência e os anseios do público, as pequenas curiosidades, se expandiram; então por que não fazer novas e diferentes abordagens, ampliando o espectro do conhecimento oferecido?

Pra realidade da divulgação que vi de perto, ter exoplanetas como tema foi uma inovação. Podia até parecer uma fuga, porque escapamos das revoluções do sistema solar; por decisão da União Astronômica Internacional (IAU, International Astronomical Union), enquanto escolhíamos o inovador tema, Plutão deixava de ser um planeta. Mas essa é outra conversa (mais detalhes podem ser encontrados aqui), Fazer algo diferente era, por si só, importante: os tempos eram outros.

Já estou falando de outras motivações…

Assisti ao filme Contato, semana passada. Já li o livro ao menos três vezes (estou ensaiando uma quarta). Conheço físicos que não gostam, outros tantos que não se preocupam com divulgação – grande maioria dos físicos, ao menos no Brasil – e, bem… eu simplesmente acho o livro ótimo (o filme também vale muito a pena, com pelo menos duas cenas pra lá de ótimas), excelente chamariz.

Contato trata da busca por inteligência extraterrestre. Inteligência extraterrestre… supomos vida, quando usamos esta expressão. Claro, existe a possibilidade de que encontremos uma civilização de robôs ou qualquer coisa parecida, algo que não classificamos como uma forma de vida. Normal. Sim, normal, porque nunca conseguimos definir univocamente o que é vida – na verdade, definimos, mas usamos como padrão o que conhecemos. E o que conhecemos é pouco, muito pouco -;  essa indefinição me leva ao filme Homem bicentenário (prefiro o filme ao livro homônimo). Esses filmes são conversa pra outra hora, vamos ao ponto.

bicentennialman

Não sabemos como definir vida, sabemos?

O programa privado sem fins lucrativos SETI (Search for ExtraTerrestrial Inteligence), citado em Contato, realmente existe. O SETI não é um grupo que vive a procura de ovnis, objetos voadores não identificados, nada tão óbvio; os pesquisadores do SETI buscam por sinais vindos do espaço que possam ter sido enviados – com ou sem intenção! A gente envia sinais pro espaço o tempo todo: transmissões de TV, rádio… – por uma outra civilização qualquer. Ainda não encontramos sinais muito bons, mas continuamos tentando. É difícil deixar isso pra lá, apesar da falta de evidências, porque o universo é grande demais pra que deixemos essa busca de lado, que começou há poucas décadas (muito menos de um século).

Nem toda vida é capaz de enviar sinais através do espaço…

Só que nem toda forma de vida é capaz de enviar sinais pra fora de seu próprio planeta. Aqui mesmo, nesse nosso planeta tão repleto de formas de vida, a única espécie (que saibamos, não podemos contar com jubartes como em Star Trek IV, ou os golfinhos do Guia do mochileiro das galáxias) que envia sinais pro espaço é a dos Homo sapiens sapiens.  E podem se assombrar: estima-se que o número de espécies na Terra pode estar entre 5 e 100 milhões. (E não, isso não é prova de que somos especiais)

Giordano Bruno foi torturado e queimado, já em anos posteriores àqueles compreendidos pela idade média, porque afirmava, entre outras coisas,  que havia muitos, muitos planetas no universo. Menos de uma década depois, há 400 anos, Galileu começou a observar o céu com seu primeiro instrumento óptico – é essa a deixa pra que esse seja o ano internacional da astronomia -. Pouco depois observou com sua luneta Júpiter e suas luas, tendo novas idéias. De lá pra cá, conhecemos melhor o sistema solar, pisamos na Lua (há quem duvide . Acontece existe o bom e o mau ceticismo)  e conseguimos enviar sondas a grande parte dos outros planetas do sistema solar. Abrimos novas janelas pro conhecimento, com o lançamento de telescópios orbitais, mas somente há cerca de 13 anos conseguimos a primeira evidência da existência de um exoplaneta – de forma indireta, sem ter informação visual do danado -. Desde então, confirmou-se a existência de mais de 300 planetas fora de nosso sistema solar, usando diferentes métodos; e, este ano, pela primeira vez, foi obtida a primeira imagem de um exoplaneta!

formalhautb-hubble

Foto de Formalhaut b, obtida pelo Hubble – Primeira imagem em luz visível de um exoplaneta, tirada pelo telescópio Hubble. Grandes telescópios na Terra já conseguem imagens de exoplanetas na faixa infravermelha do espectro eletromagnético

 Estamos sós?

A esmagadora maioria dos exoplanetas detectados são gigantes gasosos; só poderia ser assim, até então, por questões técnicas, porque não tínhamos técnicas suficientemente desenvolvidas pra conseguir encontrar corpos celestes com massas menores que aquela dos planetas gigantes. Essa realidade vem mudando; em 2006 foi lançada pela agência espacial européia a sonda COROT, que tem entre seus objetivos encontrar planetas telúricos (bela palavra pra dizer que o dito cujo é rochoso).

E agora, tcha-na-nam!, semana passada, a Nasa lançou a sonda espacial Kepler. A Kepler é, até agora, a sonda mais bem equipada pra encontrar planetas telúricos, em especial aqueles que se encontram em condições de ter água nos estados sólido, líquido e gasoso. Importante, isso, porque todas as formas de vida que conhecemos até agora precisam, em algum momento, de água. A água é fundamental. Nem toda forma de vida pode precisar de água, é verdade que essa possibilidade existe; mas toda vida que conhecemos depende ou dependeu da água (ao menos aparentemente, não sei muito sobre), portanto é razoável procurarmos por planetas que tenham essas preciosas moléculas.

Procurando Nemo

As sondas espaciais têm a vantagem de poderem observar ininterruptamente uma parte específica do céu. Os observatórios terrestres não o fazem, porque estando presos a Terra, giram junto com ela (a rotação, lembram?) e, conseqüentemente, acabam por ver pedaços diferentes de céu em horas diferentes. A rotação de nosso planeta define isso; apesar dos rádio telescópios serem capazes de fazer observações até mesmo com o Sol a pino, eles são forçados pela rotação da Terra a encarar faixas diferentes de céu, no decorrer de um longo dia. A sonda Kepler, por sua vez, deverá ter seus instrumentos apontados ininterruptamente pra uma mesma faixa de céu, por pelo menos 3 anos e meio (que é o tempo mínimo esperado de funcionamento do satélite). Apesar de voltada pruma mesma faixa de céu por tanto tempo, a missão será capaz de pesquisar mais de 100 mil estrelas. Uau.

A técnica usada pela Kepler é simples de entender (implementar é sempre outra coisa): ela medirá a luminosidade de estrelas diversas, por um longo período de tempo. Variações nessa luminosidade podem ser indicadores de corpos passando entre a sonda e a estrela; é o mesmo tipo de variação de luminosidade que acontece quando alguém passa em frente à sua TV quando você está assistindo Chaves. Só que, no caso da relação estrela-planeta, as proporções são outras e aí parto pra outro exemplo, mais perto da proporcionalidade: seria como se você observasse uma mosca passando em frente a uma lâmpada num poste de observação que está localizado em outro continente (pra quem está em São Paulo, podemos supor o poste em Paris).

Podemos não encontrar, ainda e por muito tempo, formas de vida inteligente, é verdade. Acreditamos num bocado de fantasias que às vezes demonstram ser realidade – como o caso já citado de Giordano Bruno e os inumeráveis planetas do universo – ou pura imaginação – como o caso dos canais marcianos -. Estudemos e esperemos. Há quatrocentos anos não havia a ciência como a conhecemos; foram feitas as primeiras observações do céu usando tecnologia óptica desenvolvida pelo homem, descobertas luas em planetas já-não-tão-distantes-assim-e-ainda-assim-longe-pra-chuchu, pessoas eram mortas por questões de fé (epa, isso ainda acontece!). Quem sabe as possibilidades que se desdobrarão nos próximos 400 anos? O quebra-cabeças está sendo montado, uma peça por vez.

 

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Campo de visão da Kepler: região que envolve as constelações do Cisne e Lira; 100 mil estrelas pra observar

 

Comments
2 Responses to “Dos continentes aos planetas – há terras à vista?”
  1. Elizandreia disse:

    Tenho interesse no caso, pois acredito que realmente há vida além da nossa já que o universo é tão imenso…

  2. Rodrigo Soares Gomes disse:

    Issac Newtow ja disse que O que os Homens Sabem é 1 gota e o que não sabem é 1 Oceano.

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