Uma questão testicular…

Outro dia encontrei um casal de amigos que havia séculos não via para bater papo. Um casal que no começo era apenas um cara amigo meu, companheiro de copo e grande fã de Star Wars.

Um dia apareceu com uma namorada e no dia seguinte sumiu. Até aí tudo bem; todo mundo passou por isso e ninguém ficou surpreso ao ver a cadeira vazia no bar, muito pelo contrário: ficamos felizes por saber que nosso amigo sensível, tímido, meio geek e inocente estava feliz, aproveitando as deíicias da vida nos braços de sua escolhida (que era na verdade a escolhedora, mas isso tiraria o charme da rima).

Isso foi dois anos atrás. Desde então aconteceu de cruzar o cara nos corredores da faculdade por tempo suficiente para um duplo “tudo bom” salpicado de pontos (interrogação para o primeiro, reticências para o segundo) e promessas eleitorais de nos encontrarmos um dia para conversarmos decentemente.

Então finalmente nos encontramos, depois de não sei quantas noitadas desmarcadas (por ele e na última hora). Viemos eu, uma amiga da belle époque da faculdade, ele e a namorada…

Peço desculpas pela grosseria, mas outras palavras não traduziriam tão bem meu pensamento: a “noitada” foi uma merda. Levei meia hora a pé para chegar no boteco (que não era boteco, mas um Jazz Bar meio in do Quartier Latin onde a pint é vendida a 5 €) para ficarmos lá uma hora antes de cada um voltar para casa após UMA cerveja (UMA!!! UMA!!!), um pouco de conversa que começou tediosa e progressivamente se tornou angustiante. Não quero falar da parte tediosa, pois essa todo mundo conhece e vive: o que você tem feito? Ah, conseguiu um trampo? Em que? Ah, que legal! E o ambiente de trabalho? E os estudos, pretende continuar? E o apartamento? E o tapete? E o sofá? Papel higiênico de dupla ou tripla camada? Perfumado? (AAAAAHHHHHHH!!!!!)…

Uma vez engolido o noticiário da vida privada começamos a falar de outras coisas, e foi aí que a conversa descambou: depois de meia hora falando de contas de luz, tapetes e sofá-cama, alguém tocou no assunto dos cosméticos. Ato contínuo, as duas meninas engajaram uma conversa animada em torno da nova onda de maquilagem “100% bio”, natural e tudo de bom para o meio ambiente.

Até aí nenhuma novidade: a maquilagem está para certas mulheres como o futebol para certos caras: conversa agradável para passar o tempo, lugar comum reconfortante quando o assunto termina e não se encontra rumo mais interessante para a conversa. Quanto a mim, esperei que o previsível acontecesse: nós dois prestaríamos atenção na conversa das garotas, daríamos alguns pitacos com o pouco conhecimento que temos do assunto sem passar pela fase cretina das piadinhas machistas sobre as “coisas de mulher” (afinal somos pessoas suficientemente cultivadas para vermos as mulheres como nossos –maravilhosos- iguais) e finalmente encontraríamos um assunto nosso. Todavia eis que meu amigo, para meu grande espanto, se revela um profundo conhecedor dos diferentes tipos de rímel, batons, brilhos e outros pós-de­-arroz no mercado. Depois de quinze minutos, até minha amiga se espantou:

– Caramba Max! Você tá informado, hein?

– Pois é… eu cuidei da educação dele – respondeu a namorada, pontuando com um beijo na bochecha do Max e dando uma risadinha antes de se lançar em um pequeno parênteses zombeteiro sobre como “educar” o namorado, discurso esse obviamente muito bem recebido pela minha amiga, com quem ela trocou alguns conselhos. Todo mundo rindo e achando graça até um momento em que, após ouvir a teoria das pequenas obrigações cotidianas que o homem tem que respeitar, acrescentei brincando:

– E deixar os testículos na gaveta do criado mudo para usar de noite quando ela quiser, né Max?

Pausa, sorrisos cretinos congelados nos rostos e olhares surpresos. Pronto: caguei. Bemol na conversa, nota desafinada no concerto da noitada, minha frase causou alguns risinhos vazios e dissipou de vez o papo sobre a educação do homem, fazendo a conversa voltar novamente para os cosméticos.

Terminei devagar minha cerveja para não dar na cara, soltei alguns “hums”, “has” e “hahas” para não ficar em silêncio total e me mandei depois de desejar boa noite para todo mundo. Voltei para casa com vontade de jogar Counter Strike tomando cerveja, comendo carne crua e ouvindo Creedence.

Tudo bem: meu texto até aqui pode parecer extremamente machista; afinal não há mal nenhum em um homem que conhece e discute maquilagem, sofás e crochê com sua namorada, muito pelo contrario: ele é sensível ao universo da companheira e mostra interesse, quer descobrir para compartilhar a vida na condição de igualdade entre os sexos que se impõe aos poucos – e até que enfim! – nesse começo de século XXI.

Agora: sou eu ou alguma coisa se perdeu na escala que diferencia um “homem sensível” de “homem feminizado”? – perfeitamente, “feminizado”, barbarismo que no meu mundo significa condicionar um homem a viver com a omissão e passividade características do modelo comportamental que a sociedade machista forçava na mulher e contra o qual elas muito justamente se revoltaram).

Em que momento o ódio (justificado) do machismo cretino se transformou na condenação sistemática de qualquer forma de virilidade? Quando exatamente a perspectiva da igualdade entre homens e mulheres se transformou em uma infantilização do homem e na cretinização da mulher?

Não sei como começou, mas lembro-me nitidamente da primeira vez que ouvi o termo “metrossexual”, num bar onde apenas se adivinhava a mesa debaixo das garrafas de cerveja vazias. Alguns riram, mas muitos acharam interessante o modelo do novo homem “que cuida da aparência”. Na época não imaginávamos a exacerbação que o conceito iria sofrer: tratava-se apenas de sair do estigma muitas vezes merecido do tênis fedorento, da meia servindo de filtro para café, de todas as marcas de nojeira que se confundiam com provas de masculinidade. Finalmente, o que aconteceu foi além, muito além da imaginação e em um efeito amplificado vimos o homem metrossexual surgir para o mundo na forma de uma patricinha com falo. Da escrotidão à superprodução sem a etapa intermediária do bom gosto, o homem metrossexual é um corredor de lojas, comprador de sapatos e badulaques que não deixa nada a invejar a Paris Hilton. Pronto: merde alors, pensaram os sexólogos e publicitários que coçavam a cabeça, uns se perguntando como classificar os caras que não são David Beckham, outros tentando vender as toneladas de produtos que os caras que não são David Beckham não compravam por acreditarem que era coisa de David Beckham. Surgiu então a brilhante idéia do “übersexual”, que wikipedia define como « um homem de aparência macho ou viril, mas cuidadosamente mantida (…) barba de três dias, pêlos que saem da camisa, o homem se volta um pouco menos para si mesmo e um pouco mais para os outros. O novo ideal masculino caracterizado por uma confiança absoluta em si mesmo sem ser odioso, vaidoso ou fútil, uma virilidade a toda prova, classe e um interesse pela qualidade de vida  do qual George Clooney, Clive Owen ou Antonio Banderas são bons exemplos ».

George Clooney? Antonio Banderas? E quem é esse Clive Owen??? Bom, o fato é que não sou nenhum dos três, nem Beckham, nem Tião Macalé… O que aconteceu com o “homem” sem complementos, o marinheiro, o explorador, o astronauta? Foi pensando nisso que finalmente entendi a causa do comportamento de meu amigo no bar: perda de bolas.

Sim, “bolas”. Não testículos. O testículo é parte da anatomia de todos os mamíferos machos (pelo menos até onde sei). Qualquer homem nasce com testículos, mas as bolas têm de ser merecidas e não são um privilégio do gênero masculino. Uma mulher que encara o marido bêbado para que ele não espanque o filho tem bola; ao contrario do marido. O homossexual que tem a coragem de aparecer na televisão para se assumir com o risco da reprovação da família tem bola e os cretinos que se juntam para bater nele, não.

A época em que as bolas eram uma necessidade à sobrevivência da comunidade está longe da realidade atual nas áreas “desenvolvidas” do mundo onde a pobreza, a fome e a sede são aproximadamente controladas. O Homo sapiens sapiens que se encontra preso à rede de regras e protocolos culturais que marcam cada aspecto deste tipo de sociedade se desliga dos riscos que até recentemente na história tínhamos que correr para satisfazer as necessidades básicas. A pressão da boa educação, do bom comportamento, o mito da criança calma e boazinha, acabam varrendo para longe o personagem do naughty boy. Tom Sawyer não é mais um personagem profundo e interessante porque entre outros fatores evoca a ousadia e a rebelião, o free spirit de um moleque que sonha ser pirata ou cavaleiro e passa a ser visto como um menino grosseiro e primitivo que não tem seu lugar em um mundo “civilizado e culto”. As coisas que poderiam resgatar esse personagem (sua generosidade em aceitar levar a surra no lugar da menina que ama, a coragem de fazer uma jangada e se mandar para uma ilha no meio do Mississipi, etc.) não fazem mais o mesmo efeito em um sistema onde até mesmo o amor se dissolve aos poucos em brincadeiras de “fica-não-fica” que começam desde cedo.

O mundo de hoje é conformista e egoísta. A noção de “bolas” que usei aqui não tem mais seu lugar dentro do sistema que a criou, pois este se corrompe cada vez mais. Antes era preciso ter bolas para poder conseguir a liberdade. Agora renunciamos às nossas bolas e liberdade para nos sentirmos seguros pois o medo (justificado e injustificado) ganhou importância. Queremos viver o máximo possível, queremos corresponder ao cânone da beleza, do sucesso… não queremos mais ser exploradores, pesquisadores, astronautas, veterinários: queremos ser celebridades e vencer o Big Brother.

Mas não somos nós que vencemos o Big Brother, é ele que nos venceu. Disparado. Falamos de intrigas, não de sonhos. Fizemos a tecnologia evoluir exponencialmente nos últimos anos e continuamos sem ter pisado em Marte. Aos poucos penduramos nossas bolas no armário e as contemplamos com o sorriso de um adulto que observa os brinquedos de sua infância. Chamamos isso de maturidade, mas que maturidade é essa que não nos permite progredir, que faz meu amigo ouvir que foi “educado” sem dizer nada? Aceitamos que tudo deva ser programado e planejado para podermos dormir tranqüilos e com isso renunciamos à liberdade da diagonal imprevista por medo de nos machucarmos. A esperança equilibrista ficou na música e nos tornamos outras tantas Amarantas, marcados por um egoísmo que se originou no medo por nos mesmos.

Minha brincadeira certamente causou alguns comentários reprovadores. Passei por um machista, um retrógrado, um troglodita. Talvez isso explique por que ninguém me convida para as noitadas ‘in’ de Paris… e tanto melhor. Se for para fugir dessa babaquice crônica que é a veneração do mundo de Caras, então venham homens, mulheres, crianças, velhos: tornemo-nos todos machistas e retrógrados e vamos recuperar nossas bolas antes que alguém as esconda de vez!

Comments
3 Responses to “Uma questão testicular…”
  1. Anna Raíssa disse:

    que merda de noite, hein? x-|

  2. camila disse:

    Adorei seu ponto de vista, e achei longe de ser machista! Coitado do seu amigo, caiu nas mãos de uma dominadora acéfala e se deixou dominar…

    Adoro seus textos!

  3. Maduc le Noir disse:

    Anna, sim, foi uma merda de noite até um certo ponto, pois quando sai do bar fui encontrar uns amigos com os quais desci nas catacumbas de Paris…
    Camila, muito obrigado pelo comentario, primeiro e sobretudo porque fz bem saber que existem aqueles(as) que compartilham pelo menos em parte esse sentimento. é algo que a gente SABE que existe, mas uma confirmação nunca deixa de ser encorajadora. E muito obrigado pelo elogio! It made my day. Vou fazer o possivel para merecê-lo.

    Atenciosamente,
    Maduc.

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