House e um método

Um seriado que tem chamado atenção há algum tempo é aquele em que o protagonista é o médico ranzinza House. A série é protagonizada por um cara que não é o típico bonzinho, que acha que métodos educativos podem ser temperados com sarcasmo e ironia, um protagonista que tem parâmetros muito próprios sobre certo e errado, que mesmo manco – ou, como ele mesmo prefere dizer, aleijado – é tido como galã. Estes motivos já são suficientes pra colocar essa série no rol das que merecem alguma atenção crítica. House M.D. ecoa a regra que o bruxo Larry David impôs à unha em Seinfeld, “sem abraços, sem aprendizados”; porque House vez por outra aprende: é de sua natureza fazê-lo.

Seriados de investigação costumam prender minha atenção, por afinidade: eles promovem o uso de métodos que muito se aproximam do científico e, no mínimo, expõem a existência (e necessidade) do pensamento crítico e da evidência empírica. Exemplos de uso de observação e verificação na TV podem ser encontrados em Batman (a série camp dos anos 60), na franquia CSI: Crime Scene Investigation, Monk, Bones,  The Mentalist, pra citar algumas séries; todas elas, num ou noutro momento fazem alusão a Sherlock Holmes, o astuto consultor criado por Arthur Conan Doyle. Holmes é um dos mais populares detetives da literatura – em breve nos cinemas, novamente – e, certamente, o personagem que mais influenciou os outros investigadores das histórias de detetive. Os primeiros contos detetivescos são de autoria de Edgar Allan Poe, com seu detetive Dupin (tido como um detetive inferior por um seguro – outras pessoas diriam arrogante – Sherlock Holmes), mas foi Conan Doyle quem criou as bases do que viriam a ser as idéias do detetive literário e das séries modernas de TV.

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

Spock repete as palavras do detetive Holmes no novo Star Trek: -"Uma vez eliminado o impossível, tudo que resta, não importando quão improvável, deve ser verdade".

House tem muito da personalidade de Holmes e alusões são feitas às histórias de detetive de Conan Doyle freqüentemente. Ambos, ótimos observadores, conseguem juntar conjuntos de dados invisíveis ao olho não treinado pra montar um cenário, uma história. Ou, como escrito por Sherlock num artigo: – “De uma gota de água um raciocinador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos que a compõem.“

Holmes realiza experimentos científicos em busca de novas evidências, invisíveis – procurando por pistas que não encontraria usando o simples olhar humano – e confronta as novas informações com hipóteses que já montara, as validando ou descartando, como necessário (e factível). House, por sua vez, soa mais agressivo porque além de criar um cenário a partir das observações que faz sobre o estilo de vida de cada paciente, seus experimentos usam o próprio paciente como parte de seu laboratório. O sofrimento, em House M. D., pode fazer parte da experiência e as respostas ao tratamento fornecem pistas sobre o problema existente.

Outra forma de colocar o parágrafo anterior é dizer que ambos, House e Holmes, fazem um conjunto de observações e, partindo delas, levantam hipóteses (conhecidas genericamente como possibilidades). O passo seguinte nessa cadeia que podemos chamar de método é verificar como cada hipótese se comporta quando comparada à realidade, quando novas informações são coletadas. Hipóteses caem por terra, outras se tornam mais fortes e, eventualmente, o quebra-cabeças é solucionado: chegam os investigadores a uma resposta satisfatória – Holmes descobre como se deu o crime e quem o cometeu; House consegue finalizar seu diagnóstico, embora nem sempre salve o paciente –. Simples assim.

"Todo mundo mente"

"Todo mundo mente"

Entrando por uma perna de pinto e saindo por uma perna de pato…

Esses escrutinadores, conhecedores da natureza humana, seguem um mesmo preceito que House vem imortalizando: todo mundo mente. Confrontados os fatos, as observações, com os discursos de todos, mentiras ficam transparentes. House desenvolve suas idéias sobre a mentira, dizendo que é ela que nos separa das bestas; ele indica três tipos de mentira, pelo menos:

(a)    Brancas: as mentiras pros outros se sentirem melhor;

(b)    Racionalizações: as mentiras pro próprio mentiroso se sentir melhor;

(c)   Omissão: as coisas que não dizemos.

Estes detetives aceitam que o homem é falho e mente – não necessariamente com más intenções –. Há ainda outro tipo de mentira que existe por causa dos nossos sentidos; guardamos um testemunho dos fatos que nem sempre correspondem à realidade: excesso de confiança em nossas capacidades. Por exemplo, quando penso em House lembro-me dos testes, análise e filosofia da mentira que levam o grupo de médicos ao diagnóstico, enquanto Emilio Gonzalez lembra-se somente da aplicação do ceticismo dos doutores, em crítica onde dois personagens – sim, isso mesmo – têm seus ceticismos confrontados; Gonzalez deixou o lema e pessimismo de House de fora da análise que construiu. Qualquer um pode assistir a alguns episódios de House M. D., ler o texto de Gonzalez, acompanhar diferentes noticiários e tomar suas próprias conclusões. Eu me pergunto quais seriam as suas.

Um método deve ser usado por todos e sempre, sempre devemos buscar mais informações, apurando a forma como vemos o mundo.

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