A passagem de Michael Jackson, um ídolo

Já ficou evidenciado, lá no Amálgama – e Giuli reforçou, aqui no Caducando –, que existem muitas idéias diferentes pro que seja arte. Alguns falam em beleza, outros em estranheza, outros na beleza da estranheza. Independente de qual seja o conceito de arte a ser aplicado, Michael Jackson foi considerado pela maior parte dos habitantes desse planetinha como um dos maiores artistas que já viveu. Sua música transcendeu barreiras etnológicas e cronológicas, seus passos de dança foram aprendidos e copiados ad nauseum por quem queria dançar numa festinha e por todas as grandes boy bands; Madonna, depois de Michael, pôs a mão no sexo e assumiu novo status, tornando-se (com méritos) a mulher mais poderosa da indústria da música pop.

Ainda ontem conversava com a Foreman sobre o grande ídolo. Lhe falava do show da Dangerous World Tour, que tive a felicidade de assistir, num já distante outubro de 1993.

– Foi caro, valeu a pena o preço? – ela me perguntou.

– Olha, pagar o que pagam num show do U2, eu não pagaria. Se ele viesse hoje e cobrasse 500 reais, eu acharia caro pra caramba; mas ia me esforçar pra arrumar a grana e ir.

– Eu acho caro, quando vou aos shows do Iron, Judas Priest, sei lá… eu acho os shows deles caros, já.

– Verdade, mas esses caras tão aqui todo ano. – e ficou por isso mesmo, a discussão.

Por que eu pagaria? O cara marcou minha infância, oras. Seus clipes necessariamente passavam no Fantástico, numa época que o programa não era sinônimo de cabeleireiros das estrelas. Sua música era a mais tocada e seu disco, bom, ainda é o que mais vendeu na história. Entretenimento puro, ele tinha um senso de diversão único.

E o fim chegou. Sua música não vendia mais tanto, ele ficou aquém do que a indústria esperava; os fãs da dança e da música o conheciam por conta do que ele fizera num passado cada vez mais distante. E pelas estranhezas, muitas.

Há quem diga que Michael vinha vivendo seu maior momento artístico, nos últimos anos. Cada estranheza indicava uma nova faceta de uma humanidade que negamos ter: ninguém quer ficar mais bonito, mais inteligente, mais bacanudo, escrever melhor. Ah, mas quer, sim. A maluquice toda é que ele tinha os meios e a coragem pra fazer exatamente o que queria. E, por isso, era notícia o tempo todo: quando vestia roupas de mulher, quando mostrava o filho fora da janela, quando espirrava. Eu aceito essa definição de arte: ela provoca mudanças no ser humano, independente de critérios de beleza ou de moralidade. E me recordo de Oscar Wilde, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray: “Um livro não é moral ou imoral. Ele é bem ou mal escrito. Eis tudo.”

Independente da definição, a história está aí pra quem quiser verificar: o nascimento da MTV coincide com o nascimento do videoclipe como veio a existir por mais de uma década, com o lançamento de Thriller; Michael abriu portas para artistas negros, quebrando barreiras raciais em todos os meios possíveis. Estabeleceu ao redor do mundo a idéia norte-americana de entretenimento, com seus shows mitológicos.

O cara, o rei, o mito, se foi. Não poderemos mais vê-lo em ação, bem ou mal. Meu ingresso passou a valer ainda mais, porque experimentei aquela magia. Terminaria aqui, mas seria pouco. Prefiro brincar com as palavras de Suassuna, através de Xicó:

“Que é que eu faço no mundo sem Michael? Michael! Michael! Não tem mais jeito, Michael Jackson morreu. Acabou-se o entertainer mais artista do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo… morre.”

[Este meu texto foi publicado primeiro no portal Amalgama, aqui. Outros achados dele, no cacarecos.]

Comments
One Response to “A passagem de Michael Jackson, um ídolo”
  1. Carlos disse:

    Eu também fui nesse show.

    Fiquei triste. O cara era o Pelé da música.

    Ou seria o Pelé o Michael Jackson do futebol?

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