40 anos esta noite

Ir à Lua não foi um empreendimento fácil. A primeira ficção científica, O Outro Mundo: a História Cômica dos Estados e Império da Lua, foi publicada em 1657 por Savinien de Cyrano, autor que ficou muito conhecido porque teve sua vida romantizada no teatro (em cartaz em São Paulo!) e em filmes (o mais antigo realizado em 1900!, e o mais famoso em 1990 – porque o filme Roxanne, com Steve Martin e Daryl Hannah, foi esquecido). Outra referência importante é Le Voyage Dans La Lune, de 1902, a obra mais conhecida dos irmãos Meliès. Apenas dois exemplos pra ilustrar o quanto esse sonho sempre esteve presente entre nós (e do quão distantes essas fantasias podiam nos parecer).

Realizamos saltos à la Superman – que começou saltitante e hoje voa livremente por aí –: há 490 anos, Magalhães capitaneou a primeira circunavegação de que se tem notícia. Essa primeira expedição contava com 5 embarcações e cerca de 265 tripulantes, dos quais apenas 18 conseguiram completar a jornada. Em 1492, a expedição de Colombo, composta por 3 embarcações, cruzou o Atlântico. O principal navio dessa expedição, Santa Maria, tinha cerca de 21 metros de comprimento e abrigava 40 pessoas. Por volta do ano 1000, Bjarni Herjólfsson e Leif Ericson podem ter realizado as primeiras viagens dos europeus à América continental.

Até que os primeiros passos – ou melhor, vôos! – fossem dados em direção à conquista espacial, muito tempo se passou. A ficção começou a se tornar realidade somente na década de 1950. U.R.S.S. (espero que alguém ainda saiba o que significa) e E.U.A. já viviam intensamente a Guerra Fria e haviam desenvolvido suas bombas atômicas. Em meio a tudo isso, o aclamado autor de ficção científica Arthur C. Clarke propunha e detalhava o uso de satélites de comunicação que viriam a beneficiar o planeta inteiro. Diferentes e independentes esforços que possibilitaram à U.R.S.S lançar o primeiro satélite ao espaço, um ano antes do Brasil papar sua primeira Copa do Mundo: em 4 de outubro de 1957 foi colocado em órbita o Sputnik I, uma pequena esfera cujo peso é o mesmo de um homem adulto médio, 83,6 quilos, nem gordo nem magro; parece pouca coisa, mas a capacidade de lançar um satélite ao espaço, que emitia sinais de rádio em que podiam ser captados por qualquer rádio amador incendiaram a imaginação de todo mundo – afinal era um feito técnico sem igual – e, em especial, do público norte-americano. E se pudessem lançar mísseis, assim? E se pudessem nos espionar usando estes dispositivos (em tempos de Google, que vive guardando nossas informações e vendendo a seu bel prazer, muitos ainda vivem essa paranóia)? Tinha início, definitivamente, a corrida espacial.

Ouça: telemetria do Sputnik, que podia ser captada por rádios

Então, no fatídico 1957, sequer ganháramos nossa primeira Copa do Mundo, o primeiro planetário do Brasil acabara de abrir suas portas e Paul McCartney e John Lennon haviam acabado de se encontrar pela primeira vez.

A hegemonia espacial russa se manteve por alguns anos. Apesar de já existir, a corrida espacial só teve uma linha de chegada bem definida pouco mais de um mês depois que Yuri Gagarin orbitou a Terra pela primeira vez, em 12 de abril de 1961, por meros (e históricos) 108 minutos; pouco mais de um mês depois, Kennedy fez discurso em que delineava o plano dos E.U.A. de alcançar o feito histórico e tecnológico de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta são e salvo. Dava assim novo impulso ao programa Apollo, que fora lançado no ano anterior. O objetivo – levar um homem à Lua e trazê-lo de volta – era distante o suficiente pras duas superpotências. Ainda não havia como dar por certa uma vitória de qualquer das partes.

Há 40 anos, pisávamos na Lua

Já havíamos nos aventurado pelo espaço, antes da Apollo 11. Saíramos das vizinhanças de casa, orbitáramos a Lua e voltamos. Houve, afinal, outras 10 missões Apollo antes da Apollo 11. Em 20 de julho de 1969, a corrida chegava ao fim, quando dois representantes dos Estados Unidos fincaram a bandeira americana em solo lunar (e, por favor, não me digam que a vêem tremulando em alguma foto), como se tivessem alcançado o topo de alguma montanha. Foram 6 viagens bem sucedidas.

Poderia dizer “os americanos pisaram lá”, mas estamos olhando em retrospectiva; essa é, antes de tudo, uma conquista de toda a humanidade. Os americanos realizaram o feito com muito esforço próprio, mas sobre os ombros de gigantes: Kepler, Galileu, Newton e, exagero permitido, von Braun.

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Pé e pegada de Aldrin na superfície lunar

Muitos acreditam que a história dos avanços e feitos científicos acontece numa linha reta, bem definida; engano natural: muito é descartado no caminho, os erros também contribuindo pro resultado final (o que inclui esforços de guerra, justificando o nome de von Braun). Não é incomum que eu ouça “mas por que não colocar esse dinheiro numa boa causa, como aliviar a fome na África, diminuir a mortalidade infantil, garantir algo que realmente valha alguma coisa”, quando o assunto é ciência pura. Nessas horas, lembro-me apenas do grande divulgador João Paulo, que costuma dizer “o que eles descobrirem, tudo em que esbarrarem, certamente melhorará a vida de todos nós”. Amém.

A Terra, vista do espaço pouco antes do pouso da Apollo 11 em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

Terra, vista do espaço pouco antes da Apollo 11 tocar em solo Lunar. Uma imagem, uma lição.

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