Astrobiologia: por onde começar a procurar novas formas de vida?

[uma versão anterior deste texto foi publicada pelo jornal O Escafandro, da faculdade de Oceanografia da USP, em 2008]

O primeiro boom pela busca sistematizada de formas de vida extraterrestre, ciência atualmente conhecida como astrobiologia, provavelmente teve início com as observações de Giovanni  Schiaparelli, no século XIX: um emaranhado de linhas acinzentadas ou esverdeadas que ele acreditava serem canais naturais de água, chamados por ele (em italiano) de canali, e que talvez fossem acompanhados em certos locais por algum tipo de vegetação. Antes das observações realizadas por Schiaparelli através de um telescópio, durante a oposição de Marte – situação em que o planeta encontra-se na mesma direção que o Sol e a Terra, a uma pequena distância de nosso planeta – em 1877, não havia muito interesse científico pela busca de vida em outros planetas.

Observações realizadas até 1887 permitiam a inferência de algumas características de Marte (em especial, pela proximidade da Terra) como a duração aproximada de seu dia ou a existência de calotas polares, o que implica na existência de gelo e não necessariamente gelo de água. As observações de Schiapareli ressoaram entre os astrônomos da época, que confirmavam a observação dos canali e admitiam a possibilidade de que as áreas esverdeadas poderiam ser territórios cobertos por vegetação. É possível, entretanto, que um erro de tradução tenha sido o maior causador do fervor: os canali de Schiaparelli foram erroneamente traduzidos para o inglês como canals ao invés de channels, implicando que os canais eram estruturas artificiais. Os canais marcianos foram importante tópico de estudos por cerca de oitenta anos, ainda. O homem acreditou nos canais porque não havia excluído todas as possibilidades que justificavam sua existência e porque ansiava por companhia.

Anotações originais de Schiaparelli

Anotações originais de Schiaparelli

Das grandes navegações no séculos XV e XVI, passando pelas aventuras que buscavam os pólos terrestres e chegando aos confins do sistema solar – em 2006, enviamos a sonda New Horizons a Plutão –, permanecemos em busca de novos limites. Depois da segunda metade do século XX, o ser humano conseguiu enviar sondas para todo o sistema solar; as primeiras conquistas começaram somente há cerca de meio século, com a corrida espacial rumo à Lua.

O conceito de vida fora de nosso planeta, entretanto, certamente foi menos desenvolvido neste último século que outras áreas da ciência: desde Schiaparelli, criamos modelos que explicam com grande precisão o movimento de todos os planetas do sistema solar e descrevem razoavelmente bem  o comportamento da matéria em seus níveis mais fundamentais. Mas continuamos com uma pergunta que diz respeito a todos, nós: o que é vida?

Quais os critérios que definem a vida?

Parece sempre ter havido consenso no fato de que para haver vida é necessária a existência de água líquida; acreditava-se que a água líquida era necessária à vida (e essa restrição é bastante forte) simplesmente porque não conhecíamos qualquer forma de vida que não precisasse deste elemento, neste estado, para se desenvolver. Nos últimos anos, entretanto, encontramos criaturas que vivem em condições extremas, com o interior de vulcões, em resíduos de reatores nucleares ou mesmo em minas contaminadas. Mesmo que estas recém-descobertas formas de vida, as criaturas extremófilas, não precisem de água em estado líquido para se manterem vivas, ainda não encontramos justificativas que expliquem seu desenvolvimento de algo menos organizado à forma extremófila sem que água no estado líquido existisse. O período anterior soou redundante e para isso forneço uma explicação: a água no estado sólido ou gasoso não representa um meio tão hospitaleiro quanto a água em estado líquido. Sua fluidez é qualidade necessária para que o transporte de moléculas aconteça com maior facilidade e para que determinadas reações químicas aconteçam, e também porque a água é um excelente solvente e muito resistente às mudanças de temperatura.

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte

As formas de vida extremófilas podem ser encontradas em localidades inóspitas para nós, humanos, na Terra e quiçá em Marte ou na lua Europa

Os canali nunca foram encontrados, mas a busca pela existência de água – elemento que também facilitaria a vida do ser humano em outros ambientes – foi levado adiante, como se sempre entendêssemos sua importância para a vida. A busca contínua resultou em anúncio recente de que foram encontradas amostras de gelo de água em Marte. Não sabemos ainda se existe ou existiu vida no planeta vermelho, mas estamos conseguindo montar um cenário em que, eventualmente, essa possibilidade será validada ou completamente esquecida: é o método científico em ação.

A busca pela vida no universo vem assumindo, assim, novos rumos. Há anos temos um experimento em andamento, conhecido popularmente  como SETI, que procura por sinais de vida inteligente através de ondas eletromagnéticas que possivelmente estejam sendo emitidas por alguma civilização inteligente, inadvertidamente. Mas a vida pode assumir as mais variadas formas e, portanto, precisamos ampliar nossas possibilidades de busca.

Além da água em estado sólido encontrada em Marte, desenvolvemos nos últimos anos tecnologia suficiente para detectar planetas fora de nosso sistema solar, conhecidos como planetas extra-solares. Essa busca trouxe resultados muito interessantes e inesperados, já que de partida desfez a idéia de que planetas muito massivos de um determinado sistema estelar deveriam estar a distâncias consideráveis da estrela que circundam – como em nosso sistema planetário: os planetas mais massivos estão aquém do cinturão de asteróides –. Puro preconceito, é bem verdade, mas nunca antes pudemos observar planetas fora do sistema solar: estamos dando nossa primeira espiada. Os métodos são variados e, atualmente, conseguimos encontrar corpos com dimensões parecidas com as da Terra e até mesmo vários ao redor de uma mesma estrela. Outra novidade na busca por planetas extra-solares é o conceito de zona habitável, onde seria possível que um planeta com dimensões similares às da Terra portasse água líquida.

Formas de vida alternativa, que não dependam das mesmas condições que a maioria dos seres conhecidos ou mesmo das criaturas extremófilas, permitem que pensemos a vida como novos paradigmas. Temos vaga idéia do que procurar se esperamos encontrar outras formas de vida no universo, mas as condições – que permitem delimitar parâmetros às pesquisas – não são suficientemente restritivas e novos rumos vêm sendo tomados. Somos levados a crer que é possível que formas alternativas de vida co-habitam a Terra; elas não teriam sido detectadas por apresentarem reações bioquímicas diferentes ou porque nunca tropeçamos nelas – lembremos que sempre encontramos espécies novas na natureza –. Os parâmetros para as pesquisas seriam, então, muito diferentes dos que vêm sendo aplicados. O que podemos dizer com segurança, por enquanto, é que ainda não sabemos muito bem por onde começar.

Comments
2 Responses to “Astrobiologia: por onde começar a procurar novas formas de vida?”
  1. brunna disse:

    nao gostei um pouco mais pela performace adorei ….

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  1. […] da revista Wired, e pensei em deixar como dica; aliás, uma boa dica pra acompanhar uma entrada que escrevi sobre […]



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