Uma e outra nota sobre Kastelo, do Teatro da Vertigem

[Publiquei há alguns dias um texto sobre a peça Kastelo, do Teatro da Vertigem, no Amálgama. Reproduzo-o na íntegra e, após foto feita na praça La Défense, reproduzo trecho de Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman]

Sexta-feira, noite, trânsito na Av. Paulista, quase chego atrasado ao SESC Paulista para assistir a Kastelo, peça montada pelo Teatro da Vertigem livremente a partir de O Castelo, de Franz Kafka. Quase. Não contava com o trânsito encontrado, saí correndo entre pessoas, atravessando ruas sem olhar pros dois lados, ficando esbaforido. São Paulo tem de tudo (principalmente trânsito) e tem, entre outras coisas, muito teatro; diria que praticamente todas as combinações possíveis podem ser encontradas por aqui.

As montagens do Teatro da Vertigem costumam impressionar e causar estranhamento logo de cara, porque freqüentemente são encenadas em espaços alternativos, fora dos palcos do teatro italiano. Há quem já espere por montagens assim deste grupo; não é de se espantar, já que já usaram como cenário uma igreja na região central de São Paulo (O Paraíso Perdido), um hospital (O Livro de Jó), um presídio (Apocalipse 1,11) e, ainda, o Rio Tietê em um de seus mais poluídos trechos (BR-3). Tais espaços não são escolhidos por serem espetaculosos, pura e simplesmente; antes, são um símbolo.

Kastelo segue essa linha de uso de espaços alternativos (ou de uso alternativo de espaços, como você escolher). Sendo baseado em livro de Kafka, podemos dizer sem rodeios: a montagem trata de controle; pensando em O Castelo e correndo o risco de chegar perto de um spoiler, podemos concluir que a exclusão também é tema central da peça. Juntando os três pontos,  temos: os atores excluídos do edifício, do prédio, da sala de teatro, atuando sobre balancins e discutindo realidades muito diferentes de funcionários de uma mesma empresa. Todos incapazes de controlar suas vidas, em algum aspecto – desde a mais alta executiva até o ascensorista ou o motoboy; todos tentando exercer algum poder que lhes resta e, com isso, excluindo e podando alguém.

Não é um bom texto, apenas. É uma boa montagem, porque cenário, iluminação, sonoplastia e atores contribuem para uma obra que não se esforça em ter menos que o necessário pra servir à arte. O grupo é cheio de experimentos e de intenção. Se tiver oportunidade, aproveite. Ligue para o teatro (importante, porque as peças do Teatro da Vertigem costumam ter lotação esgotada). É um exercício de sensibilidade que recomendo fortemente. Fiquei preso no trânsito que me impedia de chegar ao teatro, mas fiquei feliz ao ser lembrado de que essa falta de controle faz, cada vez mais, parte da condição humana.

A praça La Défense, em Paris, um enorme quadrilátero na margem direita do Sena, cocebida, comissionada e construída por François Miterrand (como monumento duradouro de sua presidência, em que o esplendor e grandeza do cargo foram cuidadosamente separados das fraquezas e falhas pessoais de seu ocupante), incorpora todos os traços da primeira das duas categorias do espaço público urbano, que não é, no entanto – enfaticamente não é -, “civil”. O que chama a atenção do visitante de La Défense é antes e acima de tudo falta de hospitalidade da praça: tudo que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a permanência. Os edifícios fantásticos que circundam a praça enorme e vazia são para serem admirados, e não visitados; cobertos de cima a baixo de vidro refletivo, parecem não ter janelas ou portas que se abram na direção da praça; engenhosamente dão as costas à praça diante da qual se erguem. São imponentes e inacessíveis aos olhos – imponentes porque inacessíveis, estas duas qualidades que se complementam e reforçam mutuamente. Essas fortalezas/conventos hermeticamente fechadas estão na praça, mas não fazem parte dela – e induzem quem quer que esteja perdido na vastidão do espaço a seguir seu exemplo e sentimento. Nada alivia ou interrompe o uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar, nem árvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante. (Há, é certo, um grupo de bancos geometricamente dispostos no lado mais afastado da praça; eles se situam numa plataforma um metro acima do chão da praça – uma plataforma como um palco, o que faria do ato de sentar-se e descansar um espetáculo para todos os outros passantes que, diferentemente dos sentados, têm o que fazer ali). De tempos em tempos, com a regularidade dos horários do metrô, esses outros – filas de pedestres, como formigas apressadas – emergem de debaixo da terra, estiram-se sobre o pavimento de pedras que separa a saída do metrô de um dos brilhantes monstros que cercam (sitiam) a praça e desaparecem rapidamente da vista. E a praça fica novamente vazia – até a chegada do próximo trem.

(Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida, Jorge Zahar editor)

Comments
3 Responses to “Uma e outra nota sobre Kastelo, do Teatro da Vertigem”
  1. André HP disse:

    O bauman é impagável.

  2. Excelente Bauman.
    Excelente Otavio.

  3. Vanessa disse:

    Adoro alegorias. Fico viajando….

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