Um pouco de lenha na fogueira da dita alta cultura literária

[A Taizze acabou por publicar em seu blog, o r.izze.nhas, a notícia de que a L&PM está a lançar clássicos em edições simplificadas para leitores que tenham pouca prática, aqui. Pretendia comentar por lá, mas creio que isso possa ser um texto por si só, então cá estamos.]

É fácil pra quem tem internet em casa – que seja discada, pouco importa – dizer que adaptações literárias são pobres e não favorecem o desenvolvimento intelectual. Sair do ensino médio de uma escola qualquer sem saber ler, pra essas pessoas, pode ser uma realidade muito, muito distante. Obviamente que ler um texto integral fornece uma gama de experiências mais rica; mas até aí, o que é uma tradução se não uma adaptação de um texto original? E de que adianta uma maior riqueza de experiências quando estas são inacessíveis?

Essa visão altiva de cultura já vem dos gregos e Umberto Eco discute o tema em Apocalípticos e Integrados:

Se a cultura é um fato aristocrático, o cioso cultivo, assíduo e solitário, de uma interioridade que se apura e se opõe à vulgaridade da multidão (Heráclito: “Por que quereis levar-me à toda parte, ó iletrados? não escrevi para vós, mas para quem me pode compreender. Um, pra mim, vale cem mil, e a multidão nada”), então só o pensar numa cultura partilhada por todos, produzida de maneira que a todos se adapte, e elaborada na medida de todos, já será um monstruoso contra-senso.

Taizze cita ainda o artifício da linguagem como forma de situar o leitor (“é justamente o vocabulário que o situa em décadas diferentes”); eu diria que o vocabulário é importante, mas não necessariamente o cerne de uma obra – ou, pra ser mais preciso em minha crítica ao trecho de texto dela que acabo de citar, não considero o vocabulário como a única maneira de situar o leitor quer seja no tempo, quer seja no espaço-. Que dizer da mensagem, dos símbolos? Por que facilitar a vida, o acesso, daqueles que não estão familiarizados com certas imagens deve ser encarado como um crime cultural? Volto a Shakespeare: os valores de peças como Hamlet, Otello e Macbeth residem única e exclusivamente no local e tempo em que os personagens estão inseridos? Estes textos são continuamente revisitados em livros, quadrinhos, televisão, cinema e teatro somente porque existem tresloucados que insistem em repaginar clássicos de “qualidade insuperável, belas rimas e palavras perfeitas”? Insisto: toda tradução é uma adaptação e quem lê os grandes clássicos – ocidentais, não ocidentais, pouco importa – na língua original que faça o primeiro comentário contra a iniciativa da L&PM.

(Até o ato de escolher os clássicos é um exercício complicado…)

Exemplo de tradução: locações e tempo alternativos

Pra finalizar esta pequena entrada, outra citação de Apocalípticos e Integrados:

Depois Gutenberg inventa os tipos móveis, e nasce o livro. Um objeto de série, que deve conformar a sua própria linguagem às possibilidades receptivas de um público alfabetizado, agora (e graças ao ivro, cada vez mais) mais vasto que o do manuscrito. E não só isso: o livro, criando um público, produz leitores, que por sua vez, o condicionarão

Vejam-se os primeiros impressos populares do século XVI, que retomam, num plano laico e com bases tipográficas mais aperfeiçoadas, a proposta da bíblia pauperum. São editados por tipografias menores, a pedido de livreiros ambulantes e saltimbancos, para serem vendidos ao povo miúdo, nas feiras e praças. Epopéias cavalheirescas, queixas sobre fatos políticos ou de ocorrência diária, motejos, anedotas ou cópias aparecem mal impressas, esquecendo-se, com freqüência, de mencionar local e data, porque já possuem a primeira característica dos produtos de massa, a efemeridade. Do produto de massa têm, além disso, a conotação primária: oferecem sentimentos e paixões, amor e morte já confeccionados de acordo com o efeito que devem conseguir; os títulos dessas estórias já contêm o reclamo publicitário e o juízo explícito sobre o fato preanunciado, e quase que o conselho sobre como fruí-las.

Comments
6 Responses to “Um pouco de lenha na fogueira da dita alta cultura literária”
  1. taizze disse:

    Muito bom.

    Eu cito a linguagem como uma das principais formas de se situar porque é a partir dela que eu me insiro em outra realidade. Presto mais atenção nela do que em certos marcos que indicam local e tempo. Ou seja, isso muda de pessoa pra pessoa, né. =B

    Belo texto. =]

    • McFly disse:

      Acho que procuramos por certas coisas num texto, do mesmo jeito que um autor pode ter um estilo determinado. Não tinha pensando nisso, acho. Interessante…

  2. Vanessa disse:

    Pois eu sou super a favor das adaptações. E fã de carteirinha.

    Além da linguagem acessível, tb tem o fato da própria curiosidade que pode ser despertada.
    Já parti pra clássico depois de ler adaptação – Algumas até pra público juvenil.

    Ao meu ver, a língua serve para interpretar os fatos e a própria realidade, daí a metamorfose. Já seu papel central é o de comunicar. E é por isso que ODEIO quem escreve complicado.

    Por exemplo, aqui em casa rimos demais com o Deleuze, pq simplesmente não entendemos nada do que ele quer falar. É tanta metáfora e metalinguagem, que parece ser necessário ficar interpretando a coisa. E não sirvo pra isso. Nem tenho erudição necessária, acho.

    Olha, estou metendo o bedelho mas não tenho qualquer formação/embasamento na área de linguística ou mesmo de letras. É puro achomêtro/opinião mesmo.
    Qualquer coisa me corrijam.

    • McFly disse:

      (ja aviso que estou sem acentos – maldito problema no hd e enrolacao pra entender o ubuntu!)
      Isso – de nao querer ser compreendido – eh motivo de risada pra um bocado de gente; Schopenhauer deixa bem claro seu desgosto pela falta de exatidao existente no discurso de Hegel, que pode ser interpretado sempre sob uma luz favoravel, jah que escreve de modo a poder ser reinterpretado todo o tempo – um caso que flertava, pra ele, com a desonestidade intelectual. Nao li Hegel, mas esse nao eh o unico filosofo a considera-lo desonesto (Roberto Romano, da Unicamp, tem serias criticas a Hegel).

      Metamos o bedelho, Vanessa, e declaremos nosso desconhecimento educado. Porque o que mais tem por ai eh gente dando pitaco e, de quando em quando, uns malucos precisam apontar diferentes direcoes. Sejamos nos, ja que os escolados preferem o silencio…

  3. Vanessa disse:

    Amo demais o Schopenhauer, McFly!

    Adoro os pessimistas. E ele apavora nesse quesito. Dá náusea até…

    Tb nunca li Hegel. E, por enquanto, nem espero lê-lo…hehehehehe

    Já o Romano foi orientador de um professor aqui da história. Não tem uma boa fama enquanto ‘pessoa política’, mas como pesquisador nunca ouvi qualquer crítica – Tb nunca li nada do trabalho dele.
    Olhe eu fazendo FOFOCA!
    🙂

    • McFly disse:

      Schopenhauer é bem bacana, mesmo. Mas não o acho tão pessimista assim; perto de Nietzsche, ele é um romântico!!!!!

      Ele não tem boa fama como político, rá! Já era de se esperar, o pouco que vi por aí indica que ele não tem muitas papas na língua ou, talvez, tenha: mas adore bater nos inimigos publicamente. Enquanto isso, fico esperando por mais referências dele, porque alguém a se considerar.

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