Pequeníssimo texto sobre os pequenos números

Acaba de passar na tv aberta um novo programa humorístico – ou seria jornalístico? Existe uma denominação pro tipo de jornalismo –, Legendários. Não acho que cabe qualquer crítica às qualidades do programa, aqui: é cedo demais e sinto que a equipe ainda não sabe bem que fazer pra ter uma personalidade própria, única.

Por outro lado, há uma crítica possível e que não é pertinente apenas a esse programa ou, que seja, a uma classe de programas ou um tipo de mídia: sobre o uso de falácias. Elas são freqüentemente utilizadas em discursos os mais diversos, em círculos impressos, televisivos, virtuais, acadêmicos e, por que não, na roda de amigos.

Fujamos das falácias, de modo geral, e mantenhamos o foco na crítica original: a questão dos pequenos números. Em matéria para o programa realizaram um experimento com um pequeno número de pessoas; a produção procurava um padrão que indicasse preconceito por parte de clientes de um serviço de massagens.

A idéia seria interessante não fosse ela um recorte tão rude da realidade: qualquer pesquisa ou experimento realizado uma quantidade pequena de vezes, com poucas medidas, não tem um grau de precisão muito bom. Por exemplo, se desejamos fazer uma pesquisa pra saber quem está mais bem cotado para ser eleito presidente de nosso país nas próximas eleições, não é suficiente entrevistar apenas duzentas pessoas no vão do MASP.

Essa insuficiência existe porque uma quantidade muito pequena de pessoas, numa área bastante específica pode, em princípio, apresentar laços, referências e anseios comuns que não necessariamente são compartilhados por tantas outras pessoas espalhadas pelo país. De maneira similar, a preferência de duas crianças por suco de acerola pode não refletir o gosto da maioria das crianças, que prefere (dou, agora, um chute que não reflete a realidade) groselha.

Portanto, pretender transformar um quadro – que não é nada jornalístico, ao recortar a realidade de maneira tão acintosa – em que uma pequena quantidade de pessoas faz a mesma opção em dada situação é fugir à realidade pra corroborar a premissa de que somos preconceituosos. A conclusão pode até estar correta, mas a argumentação, o experimento, é falacioso.

E é aí que lembro da proposta do matemágico Arthur Benjamin: uma mudança no currículo dos cursos de matemática que nos levasse à estatística ao invés do cálculo poderia mudar, e muito, nossa perspectiva sobre a mídia e nosso mundo.

Comments
4 Responses to “Pequeníssimo texto sobre os pequenos números”
  1. Gostei da reflexão, baby.

    beijos.

    c.

  2. Vanessa disse:

    Sem dúvidas. Sem dúvidas

    Ah, não consigo visualizar a matemática sendo aplicada/ensinada dessa maneira…

    • McFly disse:

      Justamente por isso que é difícil romper a barreira e ensinar de forma diferente. Há quem não consiga pensar fora da caixa e há quem consiga, mas tenha preguiça.

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