Homem de Ferro 2 – uma pretensa resenha (e um paralelo)

Finalmente fui assistir a Homem de Ferro 2, muito estimulado por texto do @ernestodiniz (leiam, leiam seu texto!); fui armado de um preconceito que ia na contramão crítica desenvolvida pelo midiático escritor: este filme não poderia ser tão bom quanto O Cavaleiro das Trevas, não poderia (inspirado no texto de outra pessoa, escrevi também — aqui). Justifico meu preconceito sem mais rodeios, afirmando que o universo do homem-morcego me é mais aprazível – talvez porque autores tão importantes tenham criado-o, talvez simplesmente porque eu tenha investido mais tempo neste personagem, sua Gotham e a incrível galeria de vilões que nela vive –.

The Dark Knight

(Já me perdi discutindo Batman… retorno ao ponto, ao filme:)

Contrário a outras críticas lidas pela internet, considero esta continuação superior ao primeiro filme, ao menos no quesito entretenimento: as vilanias cometidas em Homem de Ferro perderam sua força no confronto final, pífio – o que considero um problema de roteiro, independente da atuação de Jeff Bridges –; já este conta com dois vilões que se somam e sobrepõem sem criar excessos: Mickey Rourke está confortável num papel que não foge à sua natureza e Sam Rockwell dá um passeio, caracterizado de patife sem finesse.

Gwyneth Paltrow e Scarlett Johansson aparecem pouco e, enquanto a primeira pouco provoca, a segunda, mesmo quando soa desnecessária, consegue arrancar suspiros (os meus, ao menos; eis outra inclinação minha). A parafernália do laboratório de Stark, por outro lado, já começa a tornar-se excessiva, com os robozinhos tornando-se suporte exclusivo pra piadas, sem mais representar.

im2-SJ

Sobre armaduras

Bebo da água do Viajante do Tempo, de Wells, pra dizer que as armaduras de Wayne (em Batman) e Stark acabaram por me soar como uma espécie de constante baleia, de onde os homens podem ressurgir, recriados tanto como símbolo – questão, aliás, que já era tratada em Batman Begins – quanto como homens/heróis, conferindo um sentido à vida de ambos que estes não puderam encontrar de outra maneira; os dois se recriam, sem perder um núcleo que sempre esteve presente, quer seja ao ser carrancudo, quer seja ao ser um mordaz piadista, as armaduras estendem o potencial sem destruir os homens que as vestem.

ironman-movie-tony-stark Há uma diferença – nada natural, deixo claro, porque ambos os filmes se baseiam em super-heróis dos quadrinhos – entre os universos levados às telas destes personagens: o mundo de Stark me soou quadrinístico demais, cheio de inovações tecnológicas que condizem com o universo das HQs, mas dão um ótimo ar de irrealidade ao filme. Em Batman, por outro lado, há um esforço (sincero, quero crer) em trazer toda Gotham pra um lugar mais próximo de nós. Mas, convenhamos: como trazer o Homem de Ferro às telas sem fugir completamente à realidade? Me basta saber que a armadura não é de algum tipo de ferro mole ou, argh, moléculas instáveis (velho subterfúgio do universo Marvel).

Uma crítica que encontrei no UOL, aliás, discute a relação dos filmes com os quadrinhos de maneira muito semelhante à de João Pereira Coutinho (que já discuti aqui – esse link eu coloquei lá em cima, logo no começo do texto, mais vai de novo pros perdidos). Este outro autor comete o mesmo erro de Coutinho, fundamental: parte do pressuposto que o filme não tem seu foco no entretenimento e pretende, sim, desenvolver um enredo pra discutir temas sérios; a paz mundial serve, na verdade, como mote e, como tal, é suficiente (especialmente num filme de entretenimento) pra causar reflexões, com ou sem piadas.

A Marvel acertou, novamente. Ainda não sei qual o custo do acerto, porque a transposição dos quadrinhos está, finalmente, acontecendo de maneira tão tranqüila, que algo pode dar errado, ainda: afinal, se tem algo que me incomoda com relação aos quadrinhos americanos é a ausência de um fechamento, ou a forma como estes acontecem e acontecem de novo e de novo. Enquanto os dois últimos filmes de Batman foram feitos como obras cinematográficas fechadas, que se contém, os novos filmes da Marvel fazem referências diretas uns aos outros, criando uma experiência gostosa pro ávido fã e, também, um castelo de cartas que pode bem desmoronar. Então, que o castelo seja muito bem construído, porque este Homem de Ferro 2 já figura, pra mim, como das melhores traduções dos quadrinhos pras telonas. (Mas ainda prefiro O Cavaleiro das Trevas.)

Update em 16/05/2010 [recebi livro da Record pra resenhar pro Amalgama e tropecei nisso. Parece caber perfeitamente no que disse sobre a ausência de fechamento nos filmes de heróis da Marvel – mas aplicado ao cinema, no trecho exposto, única e exclusivamente]

Jean-Claude Carrière: Você falava dos originais das grandes criações dos quadrinhos jogados nas lixeiras depois da publicação. Foi a mesma coisa com o cinema. Quantos filmes desaparecidos dessa forma! É a partir dos anos 1920 ou 1930 que o cinema torna-se a “sétima arte” na Europa. Em todo caso, a partir dessa época vale a pena preservar obras que doravante pertencem à história da arte. Razão pela qual são criadas as primeiras cinematecas, primeiro na Rússia, depois na França. Porém, do ponto de vista americano, o cinema não é uma arte, sendo ainda hoje um produto reciclável. É preciso constantemente refazer um Zorro, um Nosferatu, um Tarzan, e por conseguinte desfazer-se dos antigos modelos, dos velhos estoques. O antigo, ainda mais se for de qualidade, poderia concorrer com o novo produto. A cinemateca americana foi criada, vejam bem, nos anos 1970! Foi uma longa e dura batalha para arranjar subvenções, para fazer os americanos se interessarem pela história de seu próprio cinema. Da mesma forma, a primeira escola de cinema no mundo foi russa. Nós a devemos a Eisenstein, para quem era indispensável implantar uma escola de cinema do mesmo nível que as melhores escolas de pintura ou arquitetura.

Eco, Umberto; Carrière, Jean-Claude.  _não contem com o fim do livro. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Record, p. 27

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • RSS Ouvindo?

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • RSS Curiosidades

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
%d blogueiros gostam disto: