Sobre política, recortes e falácias

[escrevi este texto há algum tempo para o coletivo Amálgama e, frente à novas possibilidades, reedito-o com updates e pequenas modificações; pra ver o original, clique aqui]. Pra ver updates a esta entrada, vá pra .]

Estamos em época de eleições e é importante que tenhamos critérios pra observar as disputas partidárias e, por que não, midiáticas que estão a ocorrer em nosso Brasil varonil. Muitos dos argumentos utilizados pra defender propostas, idéias e fugir de perguntas são falaciosos, pra não dizer sofismáticos (há diferenças; temo que os operadores, políticos, não tenham mais claras as diferenças entre falácia e sofisma). Sem generalidades, como blogueiro convidado pela casa pensei: “ok, de nada adianta discutir casos genéricos, comecemos por discutir nossa casa, o Amálgama”.
Venho pensando com meus botões questões do método científico, ultimamente; acabei de escrever um texto sobre ferramentas conceituais que precisamos dominar e já preparo, como complemento, um texto sobre falácias, recurso que tantos utilizam e cujo uso mal percebemos. Entre um e outro post, entretanto, lembrei-me que o Amálgama, por ser um portal esquerdista, provavelmente não se daria ao trabalho de discutir a declaração de nosso presidente sobre juízes, decisões e nossa constituição: -“(…) não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não fazer.”
Não acredito ter procurado o suficiente – declaro isso e deixo que o façam por conta própria – mas me parece que os blogues e portais de esquerda que fizeram algum comentário sobre o caso (como o IG, aqui e aqui) se limitaram a reproduzir autoridades, em atitude que se contrapõe às severas críticas publicadas nos mesmos periódicos eletrônicos quando discutindo pataquadas da (assim chamada) oposição. Levantaria, aqui, em primeiro lugar, a falácia da seleção das observações: tais noticiários selecionam uma realidade, que é retratada de acordo. Pra alguns pode parecer uma grande bobagem, o que estou a dizer, mas nem sempre este recorte da realidade é percebido, levando a conclusões e discussões que muitas vezes beiram o surreal. — Eu mesmo fiz um recorte, que usei como motivação pra este texto.
Encontrar recortes nos textos da esquerda é de interesse e nos permite identificar a falácia da incoerência; isso fica claro quando resolvem bater nos quadros realizados pela revista VEJA, tida como tendenciosa. VEJA é tendenciosa, verdade (tenho isso claro, pra mim), mas também o são os blogueiros de esquerda (que, adoram insistir, são isentos): cada um defendendo sua ideologia. Observe, não estou a justificar os erros de um com os erros do outro – um outro tipo de falácia -, mas aponto uma contradição. Somos injustos por natureza: Nietzsche já discutiu isso em Humano, Demasiado Humano:

32. Necessidade de ser injusto. – Todos os juízos sobre o valor da vida se desenvolveram ilogicamente, e portanto, são injustos. A inexatidão do juízo se dá primeiramente no modo como se apresenta o material, isto é, muito incompleto, em segundo lugar em como se chega à soma a partir dele, e em terceiro lugar no fato de que cada pedaço do material também resulta de um conhecimento inexato, e isto com absoluta necessidade. Por exemplo, nenhuma experiência relativa a alguém, ainda que ele esteja muito próximo de nós, pode ser completa a ponto de termos um direito lógico a uma avaliação total dessa pessoa; todas as avaliações são precipitadas e têm que sê-lo. Por fim, a medida com que medimos, nosso próprio ser, não é uma grandeza imutável, temos disposições e oscilações, e no entanto teríamos de conhecer a nós mesmos como uma medida fixa, a fim de avaliar com justiça a relação de qualquer coisa conosco. A conseqüência disso tudo seria, talvez, que de modo algum deveríamos julgar; mas se ao menos pudéssemos viver sem avaliar, sem ter aversão e inclinação! – pois toda aversão está ligada a uma inclinação, e igualmente toda inclinação. Um impulso em direção ou para longe de algo, sem o sentimento de querer o que é proveitoso ou se esquivar do que é nocivo, um impulso sem uma espécie de avaliação cognitiva sobre o valor do objetivo, não existe no homem. De antemão somos seres ilógicos e por isso injustos, e capazes de reconhecer isto: eis uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência.

Ao menos uma outra linha de argumentação costuma ser implementada, nos textos incoerentes: freqüentemente usam falácias ad hominem, não se preocupando com o assunto em questão, mas se limitando a atacar quem argumenta (categoricamente, querem acreditar): “Ah, se foi fulano quem disse, então só pode estar errado, só pode ser bobagem”. Existe a possibilidade de que uma pessoa fale somente bobagem, mas isso não significa que sua palavra tem a capacidade de mudar a realidade imediata. Um exemplo muito recente da falácia ad hominem em ação pôde ser testemunhado globalmente e tem como protagonista o âncora Zeca, que ameaçou estudantes de jornalismo, atacando-os de toda forma possível sem precisar fornecer qualquer resposta mínima às críticas por eles proferidas.

Podemos, todos, ser vítimas de campanhas de marketing bem realizadas, quer seja por alguns, isentos, quer seja por outros, detentores da verdade ou, quem sabe, por quem tem altos índices de popularidade – como nosso já citado presidente Lula que ousa discursar como se estivesse acima da constituição de nosso país (tenha claro: não está) –. Não é muito difícil que alguém venha a este texto pra criticá-lo; aliás, é justamente pra isso que ele veio à tona: provocar o senso crítico.

Comments
2 Responses to “Sobre política, recortes e falácias”
  1. Daniel disse:

    Tu sabe que dos esquerdopatas eu não sou o pior, então deixa eu dizer. O problema maior permanece: não existe uma revista de esquerda no Brasil tão ruim quanto a Veja, de direita. Problema pra Veja e pra direita, claro. Se o informativo do PSTU fosse uma revista semanal, talvez as coisas estivessem mais equilibradas.

    Não é questão ideológica. É de qualidade e de honestidade e de sobriedade. Simplesmente não dá pra comparar o espírito que anima uma Carta Capital com a boçalidade da Veja. (Não, a CC não é perfeita, um país do tamanho e da importância do nosso também merecia uma semanal de esquerda mais bem feita.) Tu já deve ter lido boas revistas de direita como National Review, Commentary e Economist. Já não falo nem nas resenhas de meia página da Veja, ou do culto a celebridades, mas é além disso uma revista que faz jornalismo ruim e com histeria. Estou lendo um livro do Tony Judt sobre a falência do neoliberalismo. Tu sabe, o Judt é um liberal de esquerda bastante respeitado nos EUA e na Inglaterra até por quem discorda dele. Mas já pensou se um cara desses é brasileiro e, pior ainda, elogia o Lula? Quais adjetivos o Reinaldão não reservaria a ele?

    Eu sempre digo: defender a Veja é um desserviço para o bom pensamento conservador. Se eu fosse de direita, já teria criado um site político animado pelo espírito de um Raymond Aron.

    • @caducotavio disse:

      Daniel,

      parabéns pelo comentário de número 100! Iiipi. Ok, fim da festa, bazinga, conversemos.
      O fato de não haver uma revista de esquerda igual a Veja significa o quê? Que não há uma porção de pessoas – na imprensa e fora dela – que repetem discursos cegamente e são incoerentes? Acho que não. No jargão popular, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.”

      Sobre os adjetivos dados por Reinaldão, que dizer? Ele pode responder por si próprio. Assim como quem quer que seja, que esteja disposto a se dar ao trabalho. Entretanto, noto que há, sim, uma quantidade grande de chistes jocosas nos escritos de Reinaldo e isso não me incomoda tanto; por outro lado, ver tanta gente preocupada com conselho de jornalismo, mecanismos de regulação, etc., isso sim me preocupa: é um tipo de censura. O debate pode ser aberto, franco e, por que não, jocoso. Eu não aprecio tanto o humor do CQC nas matérias jornalísticas envolvendo políticos, mas isso não justifica querer amordaçá-los.

      Quanto ao desserviço, acho válido o comentário. Tão válido quanto dizer que nosso presidente – logo ele, que deveria simbolizar um cidadão seguidor da lei – foi multado por campanha política em momento impróprio (e ainda soltou um comentário que pelamor, não dá). E é num caso como esses que a falácia da incoerência surge: porque as esquerdas não dão deram pito em seu ícone? (se deram, não fiquei sabendo) Por que defendê-lo ou, ainda, defender alguém que se permite citar com titulação que não possui não é um desserviço, pra não dizer… como é mesmo? ah, sim: “está faltando aos nossos honestidade e sobriedade?”

      (Ah, as tendências…)

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