Escrita, de leite

Há graça no processo de vasculhar-nos a nós mesmos por momento, aquele, em que somos arrebatados por uma experiência; ao final do jogo, encontra-se não somente uma experiência, tão fundadora quanto possivelmente seja – e não identificada –, mas a experiência, ponto de transformação. Inventados ou não por Shakespeare, nossas dimensões se manifestam no espaço, cores, sons e tempo. Nem todos têm a mesma sorte e, mesmo os que têm, como já dito, nem sempre percebem as variações, grandes ou pequenas: são a própria medida e, como tal, imutáveis.

Exercito minha fé, acreditando ser capaz de identificar quando a necessidade de escrever surgiu – reflexão já existente e recentemente despertada em conversa com autor, outro – e sei, sei bem, de quando comecei a ler. Amigo de quadrinhos e, depois, livros, jamais registrara o instante em que adentrei um universo literário cheio de camadas; mesmo quando lemos o que são considerados clássicos, estamos presos a uma mera tarefa, lição de casa tediosa e, por si só, plana: “acabe o danado e prepare-se pra prova.” Admirei meu primeiro Machado de Assis muito depois de ter sido apresentado a outros livros do autor, anos antes. Sou tão medíocre quanto qualquer outro.

Novos horizontes surgiram, sempre surgem. Ainda não posso concordar com a tese de que o bardo tenha inventado o homem (Maduc deixou o livro aqui, a uma braçada de distância), mas digo com convicção: em minha curta experiência, foi Saramago quem uniu literatura e arte. Opinião pessoal, tenho e tenham certeza, os livros não estão num espaço ordenado, estão a diferentes distâncias que dizem respeito às nossas inclinações e apoios. Maduc apresentou-me o velho duas vezes, mesmo que não se lembre; na primeira vez, um e-mail por ele enviado resultou em escárnio em correspondências e no aviso recitado quase sem propósito: – “O português é difícil.”

E seria Maduc quem mo apresentaria de novo – e não sem alguma insistência – depositando em minhas mãos A história do cerco de Lisboa. Caos. Novidade. Senso estético. Meta. Reflexão. Tempo. Identificação. Provocação. Encontrei, no pouco que li de seus romances, críticas políticas e religiosas que qualifico, sem qualquer dificuldade, como humanistas; não há gratuidade, o texto é exato, como uma bela teoria matemática. Preciso.

Abro mão de qualquer análise, discutir defeitos, revisitar textos e temas. Registro, provavelmente em vão, o profundo senso de inspiração que me apresentou, ele, José Saramago, em tinta e delicada subversão. E, se falho fragorosamente, não peço perdão, “porque tudo isso são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada”.

Comments
2 Responses to “Escrita, de leite”
  1. antonio gil pacheco chaves disse:

    tenho intresse em fazer curso de teatro

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