George Bernard Shaw e o Dilema do Médico: pequena introdução

Estamos acostumados a assistir os filmes mais malucos, com tecnologias as mais diversas e, ainda assim, em sua imensa maioria, a estética que se busca é realista; mesmo naqueles filmes em que se procuraa fugir da realidade, como Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas ou Matrix, a iluminação segue uma coerência tal que é possível perceber em que tipo de ambiente, um grupo de personagens está. Talvez um bom exemplo disso seja o duelo entre Luke Skywalker e Darth Vader, em O Império Contra-Ataca, em que os dois passam por salões escuros e terminam o embate sobre uma passarela iluminada por uma luz bastante fria. Entretanto, e isso deve ser lembrado, a luz também pode ser usada como código e nesta cena, do filme mais sombrio da primeira trilogia de Star Wars – pra mim, ainda o melhor de todos – ela colabora para a atmosfera dark e ainda mimetiza o que está em jogo entre os dois personagens, num belo jogo de luz e escuridão. Ou seja, a luz até pode ser como Neston ou Bombril.

O teatro é uma arte que existe, numa forma já bastante parecida com a que conhecemos hoje, há pouco mais de 2000 anos. Foi, durante muito tempo, uma fazer quase que exclusivo do dramaturgo e do ator e é somente nos últimos 150 anos que o iluminador – o desenhista e o operador de luz – veio a ser figura importante no processo teatral: a primeira vez que uma obra teatral (na verdade uma ópera) foi encenada com as luzes do público em baixíssima intensidade aconteceu no século XIX, a pedido de Richard Wagner. Desde então, muito mudou no conceito de iluminação para as artes do palco.

Ainda no século XIX, surgiu nas artes o movimento realista, em oposição ao romantismo que era, então, o movimento artístico mais influente. Abaixo às emoções!, abram alas pra (alguma realidade objetiva.

gbs

Um importante dramaturgo do movimento realista foi o irlandês George Bernard Shaw, nascido em Dublin no ano de 1856. Oriundo de uma família sem muitas posses e indignado com a qualidade da educação que lhe era dispensada na escola, aprendeu muito sozinho estudando na biblioteca do British Museum, onde escreveu seus primeiros textos. Shaw conseguiu estabelecer-se como escritor fazendo crítica de arte em 1885; já publicara alguns de seus romances, mas estes não obtiveram sucesso quando lançados. Seus textos, embora realistas, costumavam divertir, não se poupavam em entreter. Shaw era um visionário e tinha uma visão de arte que muitos não conseguem entender ainda hoje – digo isso pensando especialmente em quem acredita numa arte didática –. Pensador feroz, criticava arte e respondia às críticas textualmente, longe dos tribunais tanto procurados por qualquer um, hoje (uma vergonha, praqueles que escrevem); lutou, aliás, duramente contra a censura em seu país: suas peças eram mais bem recebidas, às vezes, nos Estados Unidos que no próprio Reino Unido, que cerceava a liberdade de expressõ através de um imoral conselho moral. Respondeu a tantos críticos que acabava, muitas vezes, escrevendo prefácios pra suas peças que eram maiores que a própria peça (veja o exemplar do prefácio de O Dilema do Médico, aqui e a peça completa, ali).

A iluminação teatral, claro, existe há tanto tempo quanto o teatro, tendo sido usadas fontes naturais nos primórdios das artes cênicas – o que me remete à idéia de carpet shows de Peter Brook, em nossos tempos modernos –, mas somente quando o teatro passou a acontecer sob tetos é que houve a necessidade do desenvolvimento de técnicas diferentes de iluminação. O panorama permaneceu praticamente o mesmo por muito tempo, até o desenvolvimento das primeiras mesas de operação de luz que eram controles rudimentares para refletores rústicos e tinham como fonte de energia o gás.

“Por seu trabalho, marcado por idealismo e humanidade, sua sátira estimulante freqüentemente encharcada com uma beleza poética singular,” Bernard Shaw foi laureado com o prêmio Nobel de literatura; ele não queria o prêmio em dinheiro, pedindo que este fosse usado na tradução de livros suecos para o inglês. Não bastasse isso, é o único na história a ter ganho um Oscar de melhor roteiro, graças à adaptação da peça Pygmalion para o cinema, dando origem ao filme de mesmo nome e, mais tarde, ao musical My Fair Lady.

O Dilema do Médico foi apresentado ao público pela primeira vez em novembro de 1906 e, um século depois, ela continua atual – o que, em minha opinião, demonstra o quão poderosa era a visão realista de Shaw. O dilema, fio condutor, é nada mais nada menos que uma questão de saúde pública, daquelas que podemos ver nos noticiários brasileiros; mais ainda, na América do Norte, como bem lembrou Alan Brodie (ele acabou de fazer o desenho de luz de uma montagem deste texto que está acontecendo no Shaw Festival): nos EUA tem havido uma discussão muito aberta sobre o futuro do sistema de saúde e como o governo deve lidar com isso e, no Canadá, discussões similares vêm ocorrendo, envolvendo os planos de saúde para pessoas com mais de 50 anos.


Sinopse

Um doutor renomado, Ridgeon, descobridor de um método de cura para a tuberculose, é procurado por uma belíssima mulher, Jennifer, pra que cure seu marido da doença. O médico se apaixona pela garota, mas precisa decidir entre que pacientes salvar, pois poderia salvar uma quantidade limitada de pacientes por vez; se tratado de forma incorreta, o paciente morre. Este é o dilema principal, que justifica o nome da peça. O marido de Jennifer, Dubedat, é um artista de grande qualidade técnica, mas demonstra ser um malandro convicto; o doutor Ridgeon percebe isso, facilmente. Outro amigo seu, um honesto e pobre médico, Blenkinsop, conta a Ridgeon ter a mesma doença e pede por tratamento. O dilema é colocado em novo plano e, enquanto Ridgeon trata do paupérrimo e justo médico, seus amigos doutores – cada qual com suas próprias idéias mirabolantes que fogem à qualquer análise científica – tratam do jovem artista. No final, Dubedat morre e sua esposa publica um livro em sua homenagem, promove uma exposição em seu nome e se casa com outro homem, acusando Ridgeon de assassinato e deixando-o solitário.

Garanto: me diverti.

Estrutura

Ato I – Consultório de Ridgeon

A situação é exposta e a primeira parte do conflito é estabelecida: Ridgeon conhece Jennifer e começa a considerar a possibilidade de trocar um de seus pacientes pelo marido moribundo da bela mulher. Todos os amigos médicos de Ridgeon são apresentados, com suas idéias divertidas (pra platéia) sobre o que é a medicina e como exercê-la.

Ato II – Restaurante

Os médicos se encontram pra festejar a nomeação de Ridgeon a Sir e aproveitam pra conhecer Dubedat e a esposa. São, praticamente todos, enganados pelo artista que faz empréstimos descaradamente enquanto a esposa não está por perto. O caráter de Dubedat é exposto por suas ações e pela descoberta de que possivelmente é bígamo, tendo enganado uma esposa – a anterior – de quem tirou cada um dos centavos. Blenskinsop também expõe sua necessidade do mesmo tratamento reinvidicado para o artista, tornando o dilema em assunto ainda mais esférico.

Ato III – Estúdio do artista

Todos os médicos se encontram com o casal Jennifer e Dubedat no estúdio do jovem artista, e discutem o dilema. Quando Jennifer não está por perto, Dubedat exibe suas idéias que fogem ao moralismo convencional e escandalizam doutores que, por suas escolhas profissionais, também não são grandes campeões da honestidade.

Ato IV – Estúdio do artista

Os dois homens recebem a vacina, mas enquanto Blekinsop, inoculado por Ridgeon, fica bem, Dubedat, tratado por outro médico, sofre e se prepara pra morrer. O artista discursa para a esposa, com todos os médicos presentes, fazendo uso máximo de suas capacidades dramáticas e de seu momento de ocaso.

Ato V – Exposição de quadros

Depois da morte de Dubedat, uma exposição é feita com os quadros por ele pintados, organizada por Jennifer, que também escreve um livro enaltecendo a alma do artista morto.Ridgeon é acusado pela viúva de assassinato. Ela se casa logo depois de enviuvar e Ridegon fica sozinho.

Comments
2 Responses to “George Bernard Shaw e o Dilema do Médico: pequena introdução”
  1. Vanessa disse:

    Ah, os realistas!!!

    Sem dúvida, os melhores…

    • @caducotavio disse:

      Sem dúvida? I beg to differ, não porque aponte pra quem seja melhor, mas porque há indevida exacerbação por artistas que defendiam ideais; até aí, tudo bem, mas faço birra quando os realistas fazem questão de serem didáticos – pra serem captados, insultando a inteligência alheia (não acho que seja o caso de Shaw) – e mais birra ainda quando não percebem que tratam diversos pontos como se estes fossem a verdade e a vida, fechando os olhos pro que é, (ironia) em realidade, um ideal sobre a verdade e a vida.

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