Por que Sandman é tão importante?

Acabo de ler uma postagem sobre o tema e, achando a abordagem bastante fútil, resolvi deixar meus dez centavos sobre o tema. Fujo da estrutura que o outro texto tem, simplesmente porque não vejo necessidade, aqui, de discursar sobre quem é Neil Gaiman, o autor responsável por essa que é das séries mais importantes já editadas pela gigante americana DC Comics. Mais importante que lhes apresentar Gaiman, é contextualiza o que vinha acontecendo no mundo dos quadrinhos, lá pelo final da década de 1980 e começo da seguinte.

batmanfilhododemonio

Pra começo de conversa, super-heróis já existiam há muito; em 1989, Batman já fazia 50 anos e eu comprava a revista sob o selo Graphic Novel (#7), O Filho do Demônio, que já apresentava um tratamento adulto e que fora lançado no mercado norte-americano em 1987 – esta é considerada por uma galera como uma das melhores HQs já lançadas com o homem morcego –. Pros lados da Marvel, o mercado mutante estava em ampla expansão de negócios e temáticas, abordando religião e moralismos, trazidos à tona num universo que nunca entendi muito bem (afinal, convenhamos: essa história de discriminação mutante funciona bem quando o assunto é X-men, mas como o desinformado cidadão desse universo sabe a diferença entre um mutante e o Homem-Aranha, Capitão América ou qualquer um dos integrantes do Quarteto Fantástico?). Nem começo a falar sobre o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, ou Watchmen, de Alan Moore: este pousté ficaria enorme e, pros nossos propósitos, basta lembrar que estas mini-séries existiram e chacoalhavam as fundações do mundo das Hqs. Eis o pano de fundo sobre o qual a série Sandman foi criada.

sandman-dodds

A nova série proposta por Gaiman deveria ter como personagem principal um outro Sandman, Wesley Dodds, já existente no universo DC, mas a então editora Karen Berger pediu ao autor inglês que usasse o nome do outro personagem em um novo conceito. Diante dessa necessidade de trabalho, foi criado um novo Sandman, Sonho (é outro nome possível), um dos sete perpétuos, entidades que simplesmente existem – supostamente para todas as formas de vida –. Ele tem por irmãos Destino, Morte, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição; estes são nomes genéricos, mas os perpétuos podem ter uma infinidade de outros nomes e formas, que dependem da cultura que os representam. Permitir essa multitude de culturas (e sem preconceitos banais e banalizados) é um dos motivos pelos quais Sandman é importante. Não era pura atitude mercadológica, mas avançar rumo a um universo fantástico fora dos Estados Unidos e, muitas vezes, dentro e somente dentro de nossas próprias cabeças. Os perpétuos, em uma ou outra forma, estão presentes em quaisquer culturas e, mais ainda, nas mentes de quem lê quadrinhos e de quem não dá a mínima pra eles.

O primeiro volume encadernado, Prelúdios e Noturnos, é basicamente uma estória de horror. Fantástica em cada uma de suas páginas,encontramos, neste primeiro volume, lirismo envolto por atrocidades. Há surpresa inclusive quando os super-heróis entram em cena colocando-se, com todo seu poder, alguns níveis abaixo de Sonho; ora, e porque não, se mesmo Lúcifer, o demônio, é humilhado por Morpheus? Afinal (spoiler alert): “De que serve o inferno se aqueles que nele estão não podem sonhar com um lugar melhor?”

Todo mundo sonha.

Ser pontual nas informações que posso dar sobre a estória que se desenvolve ao longo de 75 edições seria chover no molhado – pra isso tem blogs, tem Wikipédia, tem as edições vendidas por aí (novos encadernados aqui, edições em capa mole lá fora e, não posso deixar de comentar, as edições Absolute)–. Como minha opinião só está aqui, digo o motivo de eu considerar Sandman tão importante: ela permitiu a aproximação de leitores diferentes através de um mesmo material. Os leitores de HQs que cresceram e quiseram algo mais, diferente dos super-heróis (constantemente reformulados e reformulados e reformulados e…), os leitores que nunca gostaram muito de super-heróis mas desejavam fantasias e entretenimento, os leitores mais refinados, que podiam sair dos livros e beber nas fontes de Gaiman, sem se sentirem idiotas – porque, sim, isso pode acontecer: basta pensar em termos de livros, Paulo Coelho, Dan Brown e outros autores que, quando mencionados, fazem com que este tipo de leitor queira tomar uma garrafa de vinho inteira sem, claro, ler uma página de seus textos – e o leitores que perceberam poder se aproximar de Shakespeare, Marlowe e todo tipo de universo mitológico (bíblico, grego, nórdico, you name it); todos puderam se debruçar sobre as mesmas páginas. Outro ponto que considero importante é o fato de que em Sandman são respeitados os bons e velhos arcos a que os leitores de quadrinhos estão acostumados, mas com uma pitada muito diferente: pequenas referências que aparecem num conto são retomadas em tempos muito diferentes e há aqueles momentos em que a estória foge completamente ao arco presente, apresentando um conto único que poderá fazer algum sentido muito depois. Gostaria de dizer que este é um sinal de tempos pós-modernos, mas deixo pra lá: quem sabe não retomo isso outro dia.

Voilà: não se trata de ter havido uma passagem dos quadrinhos para um universo adulto, não (o Gravata escreveu sobre a relação entre quadrinhos e seu suposto avanço para públicos adultos), mas de se abrir referências. Não sei quanto a você, mas eu só vim a ler Sonhos de uma noite de verão depois de ler a estória homônima presente no quarto volume encadernado. É, este sou eu. E pra você, porque Sandman é tão importante?

Comments
4 Responses to “Por que Sandman é tão importante?”
  1. Patricia C. disse:

    Gostei do texto, Otávio!
    Lembro-me de ter lido o primeiro Sandman meio por acaso. E lembro também do impacto desse primeiro contato – quantas referências a mitos, culturas e, principalmente nos primeiros volumes da série, como me empolgou a maneira como Gaiman conseguia entrelaçar as estórias e nos manter interessados na trama.
    E como era difícil também conseguir as revistas naquela época, né? As editoras mudavam no meio da série e a gente não conseguia achar nas bancas! Claro que, depois que a gente virava fã, isso era bastante entristecedor…
    Sem dúvida, um clássico do mundo das HQ, que estou relendo, agora numa bela edição definitiva (não resisti e acabei comprando, claro!).

    • @caducotavio disse:

      Pois é, eu tenho duas edições das antigas que caíram nas minhas mãos meio que por acaso. São: A Casa de Bonecas, que comprei da Abril e vinha em papel jornal, e Sonhos de Uma Noite de Verão, que veio com uma Speak Up e era inteirinha em inglês.

      Nem me dava ao trabalho de procurar porque, convenhamos, essa troca de editoras era dos males mais conhecidos, e a série sempre, sempre voltava ao começo nas mãos de outro grupo.

      Quando o mercado se abriu, entretanto… dá-lhe novidades. É boa essa edição nacional, definitiva? Eu sei que pelo dobro do preço se compra a versão Ultimate, que engloba quatro encadernados numa qualidade muito superior… e só. Conta, vai… como está essa edição?

      • Letícia Oliveira disse:

        Eu comprei a definitiva, mas achei que a Panini pecou – e muito – em não colocar as notas e referências que existem em todas as edições brasileiras de Sandman que eu já tive em mãos – Abril, Conrad e Pixel Media.

        A série é muito rica em referências que, sem as notas, ficam completamente soltas para quem não sabe do que se trata. Eu dou uns 3 pontos negativos pra edição por causa disso.

      • @caducotavio disse:

        Bom saber, olha que interessante. Eu tenho apenas quatro encadernados, e todos eles vêm com notas diversas. Claro que adoro edições especiais, mas como disse antes, pelo dobro do preço você leva uma edição ABSOLUTE, que bem ou mal tem quatro volumes numa encadernação que, no mínimo visualmente, é muito mais rica que a edição definitiva que está no mercado. Cada hora vem um formato diferente, com algo a mais e vamos gastando, gastando…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • RSS Ouvindo?

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • RSS Curiosidades

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
%d blogueiros gostam disto: