Shakespeare, ateísmo e o Predador Entra na Sala [Leituras, teatro, filmes e bobagens] – 05/08/2010 a 11/08/2010

[Sim, esta entrada é uma salada!]

Acometido por uma mania nem tão nova, tenho lido vários livros ao mesmo tempo. O resultado prático mais imediato é a sensação de que estou lendo nada. É fato que estou lendo em ritmo bem inferior à meta que impusera a mim mesmo, mas não deveria me queixar, como se estivesse a ler nada. Com isso em mente, pensei em escrever poustés semanais (será que consigo ser fiel a mim mesmo?) relatando qualquer coisa das leituras relativas à semana, i. e., pretendo que este seja o primeiro de muitas pequenos comentários e anotações. Usualmente coloco uma ou outra nota no Cacarecos, onde deixo trechos e comentários abusando de alguma necessidade imediata; aquele espaço continuará, respondendo a outros anseios. Espero que as finalidades deste canto transcendam minhas motivações originais, que fazem nascer esta entrada.

Shakespeare: The Invention of the Human

escrito por Harold Bloom

Descobri esse livro em 2001 mas nunca me dera ao trabalho de começar a ler. A edição nacional sai por volta de R$ 100,00, um preço que, se não proibitivo, certamente inibe quem não é iniciado em crítica literária. Ainda em 2003 li algum dos livros sobre cânone do Kothe (não sei precisar qual) e ainda não tivera a experiência de ler Bloom. Acabei encontrando o livro à venda em inglês numa edição um pouco menos trabalhada que a brasileira por um preço muito mais convidativo (menos de R$ 50,00) e, ao explicar a idéia de que trata o autor neste tomo ao Santos, ele (o Santos) resolveu que o livro merecia ser lido, o comprou e deixou em minhas mãos, ao menos por enquanto. A saber, a proposta defendida por Bloom é a de que Shakespeare, através de suas peças, sua dramaturgia, lançou novas dimensões ao que hoje entendemos ser humano – que, antes, sequer existia como tal -. É, essa é a mais rasa das resenhas, mas não dá pra ir muito mais longe que isso sem ler mais.

Sem criticar ou me aventurar sobre as propostas e, mesmo já tendo feito anotações pra duas postagens diferentes, deixarei apenas um trecho provocativo, uma anotação que faço de Hamlet e se encontra ainda antes do início do texto de Bloom:

Our wills and fates do so contrary run

That our devices still are overthrown

Our thoughts are ours, their ends none of our own.

Quem fala isso é o Ator Rei no Ato 3, Cena 2. Curioso, procurei em minha edição brasileira (da editora Abril,  de 1981, com tradução de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes) as linhas todas em que este pedaço se inclui e encontrei isso:

Ator Rei

Acredito que penseis o que agora estais falando; mas, comumente, rompemos nossas resoluções. A intenção nada mais é que escrava da memória: violenta ao nascer, mas de pouco valor. Agora, está aderida à árvore como fruto verde; mas cai por si só, nem bem se acha madura. É absolutamente inevitável que esqueçamos de pagar a nós mesmos o que a nós devemos. Aquilo a que nos propomos no calor da paixão, acalmada a paixão, é por nós abandonado. A própria violência da dor ou do prazer destrói juntamente com eles suas próprias ações. Onde mais se goza, mais se lamenta a dor; a alegria se aflige e a aflição se alegra ao menor acidente. Nem sempre é perdurável nosso mundo e, assim, não é estranho que até nosso amor mude com nossa sorte, pois é ainda uma questão a resolver, se o amor governa a sorte ou a sorte o amor. Cai o poderoso e vereis os favoritos fugirem dele; sobe o pobre e de seus inimigos faz amigos. E a tal ponto é o amor escravo da sorte que àquele que não o necessita, jamais faltará um amigo e aquele que na penúria experimenta um falso amigo, converte-o imediatamente em inimigo. Mas, para terminar devidamente o que havia começado, nossas vontades e nossos destinos correm por sendas tão opostas, que sempre nossos planos acabam sendo derrubados. Somos donos de nossos pensamentos; seus fins, não nos pertencem. Assim, imaginais que nunca vos casareis novamente; mas vosso pensamento morrerá, quando morrer vosso primeiro senhor.

Já lera Hamlet, há alguns anos. E passara batido de certas sendas que acabei por perceber, por conta de Bloom. J’adore e, portanto, fica a dica destas duas leituras (e, ainda no caso de Hamlet, das releituras, necessárias). Se você quiser adquirir alguma tradução brasileira ao texto de Hamlet, repasso as dicas da Carol e do Ernesto, respectivamente: a edição adaptada bilíngüe traduzida por John Milton e Marilise Bertin, da editora Disal, e a edição da L&PM, traduzida por Millôr Fernandes.

Outra da minhas leituras atuais é Deus, um delírio, de Richard Dawkins. Antes de voltar a ele, quero deixar anotado outro pequeno trecho de A Invenção do Humano, porque acho que dialoga bem com o livro escrito por Dawkins, o ateu:

We can be reluctant to recognize how much of our culture was literary, particularly now that so many of the institutional purveyors of literature happily have joined in proclaiming its death. A substantial number of Americans who believe they worship God actually worship three major literary characters: the Jahweh of the J writer (earliest author of Genesis, Exodus, Numbers), the Jesus of the Gospel of Mark, and Alla of the Koran.

Deus, um delírio

escrito por Richard Dawkins

O trecho anterior, de Bloom, se encaixa bem às duas citações que Dawkins pinçou – entre tantas – para seu livro e que escolhi reproduzir aqui. A primeira é de Ralph Waldo Emerson:

A religião de uma era é o entretenimento literário da seguinte.

Já a segunda é de Gore Vidal,

O grande e indizível mal no cerne de nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas – o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patricarcais – Deus é o Pai Onipotente –, daí o desprezo às mulheres por 2 mil anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres.

Até o momento Deus, um delírio é um libelo em favor da racionalidade. Dawkins usa algum tempo explicando o tratamento que dispensa à religião – os dois prefácios são realmente importantes nesse sentido –, com a finalidade de deixar seus leitores (ou a parcela deles que nunca concebeu a possibilidade que segue) confortáveis com a possibilidade de que não existe um ou vários criadores, quanto mais zeladores cósmicos. “Podemos sair do armário,” ele afirma categoricamente; logo depois, cria preocupação: o teísta deveria merecer, de comum acordo entre todas as partes, respeito por sua posição – ao menos entre aqueles de mesma cultura ou crenças muito similares entre si – enquanto os ateus… estes, além de irem para o inferno de quaisquer religiões que concebam tal lugar, ainda passam por maus bocados em vida. Para aqueles que anseiam por uma humanidade racional, merece bastante destaque a discussão sobre o respeito especial que é conferido às religiões em debates diversos. Alarmante.

Pra finalizar, deixo a dica de uma peça: O Predador Entra na Sala, escrita e dirigida por Marcelo Rubens Paiva. Falo pouco sobre, porque opero a luz da peça: nem dá pra eu fingir imparcialidade. Se quiser saber mais, entre em um dos dois últimos links que coloquei aí pra riba, ou assista a matéria feita pra TV Cultura, aí embaixo!


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