Kick-Ass, violência, Shakespeare e notas mínimas [Leituras, teatro, filmes e bobagens] – 12/08/2010 a 18/08/2010

Numa semana pouco produtiva em termos culturais, diverti-me assistindo Kick-Ass. Antes de continuar, já aviso: não darei bola aos puristas. (Ao menos hoje.) O filme, Kick-Ass, nasceu quase como uma HQ, não tenho claro qual das mídias é a matriz; discussão desnecessária, aliás, porque a ideia foi desenvolvida por Mark Millar, que fez dos quadrinhos seu parque de diversões e ganha-pão. Li um ou dois textos sobre o filme e resolvi escrever esta nota, tangencial à do crítico Roger Ebert. Já fiz algo parecido quando escrevi sobre algo que João Pereira Coutinho criticara o realismo no último filme da franquia Batman.

Em sua crítica, Ebert reclama da falta de contexto para toda a violência protagonizada por uma garota de 11 anos, Chloë Moretz no papel da vigilante mirim (e fatal) Hit-Girl, sidekick de Big Daddy, seu pai, uma espécie de Batman armado vivido por Nicolas Cage. Esse tipo de violência – contextualizada ou não – pode até mesmo ser novidade nos cinemas, mas já existia nos quadrinhos: Frank Miller levava ao papel relação militarizada parecida em Batman O Cavaleiro das Trevas; há uma ressalva importante, que é o fato da Robin Carrie, apesar de toda sua coragem, treinamento e determinação ainda estar sujeita a sentimentos como medo e ansiedade.

Qual o ponto principal da crítica de Ebert? Se a questão principal for a associação entre a idade e a violência ao redor de Hit-Girl, lembrarei-nos da infante personagem Julieta, de Shakespeare (pra quem quiser se arriscar, o texto original aqui), que se mata por amor, insatisfeita com as tiranias de seu pai e do pai de seu amado.

Páris

Ambos gozais de honrosa consideração, e é muito lamentável que hajais vivido inimizados tanto tempo. E agora, senhor, que respondeis a meu pedido?

Capuleto

Respondo o que já respondi: minha filha é ainda uma estranha no mundo. Ainda não viu completarem-se seus quatorze anos. Deixa, pois, dois verões se extinguirem em seu esplendor, antes que possamos julgá-la sazonada para ser uma esposa.

Páris

Outras mais moças do que ela já são mães felizes.

(Tirei isso da minha edição, da Editora Abril) Tudo bem, talvez o pai de Julieta não seja tão tirano quanto faço soar; mas considero uma tirania querer impor o que hoje se chama politicamente correto a tudo que há no mundo; esperar que uma situação seja exposta sempre com a intenção de denunciar é ser, na minha opinião, raso e didático demais. Há um bocado de estórias violentas nos escritos mitológicos (religiosos) e mesmo nas estórias infantis. Esse tipo de estória costuma ter uma lição moral muito bem definida que costumeiramente se fixa às pessoas pelo medo. E isso, convenhamos, é um tipo de violência. O quê, afinal, é contexto, então? Aquele dentro da ficção proposta ou aquele em que vivemos e nos deparamos com tal ficção? Gosto de lembrar o que Oscar Wilde diz no prefácio de O retrato de Dorian Gray:

Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito. Eis tudo.

Tal ideia pode ser facilmente expandida a todo o universo das artes, creio. Talvez eu não tenha sido claro no que diz respeito ao contexto. Se for o caso, pode reclamar.

Aproveito pra citar algo que pode ser encontrado na página 25 da edição que acabo de linkar; espero que o trecho fale por si só e pelo que já foi discutido nessa entrada:

Vale, assim, concluir que o tradutor, inevitavelmente, é um estilista.

Se cada tempo exige novas traduções, o ideal portanto é o tradutor assumir o caráter passageiro de seu trabalho, esclarecendo suas opções e levantando hipóteses. Mesmo que a princípio tal atitude pareça estranha, apenas ela revelará o aspecto literário do trabalho do tradutor: algo inequivocamente preso ao seu tempo. Do mesmo jeito, aí então a disciplina tomará a importância que merece nos estudos literários, com todas as conseqüências para a figura do tradutor, fundamental para a constituição de qualquer cultura. (…)

A semana foi um tanto cheio em filmes e outras atividades – acho que dessa vez, faltou tempo pra ler e escrever (nessa ordem), mais que qualquer outra coisa – e, portanto, avancei menos que o desejado em Shakespeare: The Invention of the Human e, quanto a Deus, um delírio, fiz notas mas não as coloco aqui, por agora. Faço, entretanto, uma ressalva: por necessidade, estou lendo A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, e há algo lá que considero interessante, quiçá divertido. Há ecos desse mesmo pensamento no livro de Bloom, em breve trecho sobre a peça A Megera Domada:

“True obedience” here is less sincere than it purports to be, or even IF sexual politics are to be invoked, it is as immemorial as the Garden of Eden. “Strength” and “weakness”interchange their meanings, as Kate teaches not ostensible subservience but the art of her own will, a will considerably more refined than it was at the play’s start. … Kate does not need to be schooled in “counciousness raising”. Shakespeare, who clearly preferred his women characters to his men (always excepting Falstaff and Hamlet), enlarges the human, from the start, by subtly suggesting that women have the truer sense of reality.

Enquanto a personagem de João Ubaldo nos diz (p. 66-67, editora Objetiva):

(…) Então o Bob Graves e eu temos sérias dúvidas sobre essa questão de a mulher ter sido sempre dominada. O contrário, na verdade, é que parece que aconteceu. Mas isso não vem ao caso, não se pode querer ver a afirmação da mulher como vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, preservando a baixaria humana. Em segundo lugar, você pode até alegar que isso forçou as mulheres a desenvolver aptidões pouco louváveis, como dissimulação, chantagem emocional e sedução com golpes baixos, mas a verdade é que as mulheres sempre tiveram um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado preferiram o inferno e todos os seus diabões a passar de novo pelo que lhes fez passar alguma mulher. O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico. Aquilo que, numa primeira visão, oprimia somente as mulheres oprimia mais os homens, que até hoje vivem cercados por um cortejo de mulheres fantasmagóricas, reais e imaginárias, sempre prontas a esquartejá-los, se o pegarem fora desses padrões. E não adianta psicanálise, nem ficar arrotando liberações. Eles têm medo, eme-é-dê-ó, cagam-se de medo. Medo, teu nome é macho, não disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o corcunda de Nôtre Dame. Até mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, “você é feia, e eu não vou lhe comer”, não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos possíveis – “você nunca, tá?” –, as mulheres sabem do que estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem fêmea.

Há uma outra parte em que me lembrei de Kinsey, mas deixo pra lá; apesar do filme homônimo, quase nunca ouço alguém lembrar de Proc, pra nada. Pra entender essa minha nota, experimente o livro e o filme.

Deveria, ainda, falar neste de A Origem e Sinédoque, Nova York. Os dois merecem textos maiores, tendo sido realizados, respectivamente, por Christopher Nolan e Charlie Kaufman; o primeiro, diretor e roteirista que está se tornando figura das mais proeminentes do cinema blockbuster americano e, o segundo, roteirista criador de estórias memoráveis que chegou à direção neste filme que, estando eu preparado ou não, me surpreendeu.

Comments
One Response to “Kick-Ass, violência, Shakespeare e notas mínimas [Leituras, teatro, filmes e bobagens] – 12/08/2010 a 18/08/2010”
  1. Não deixa pra lá coisa nenhuma. O q vc ia falar de Kinsey?

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