Luxúria, hipocrisia, Donka e uma dica de blog [Leituras, teatro e bobagens] – 19/08/2010 a 26/08/2010



Começo por um mea culpa: seis pequenos motivos – ou, sendo tristemente honesto, cinco – me mantiveram longe do computador quando esta entrada deveria ser preparada. Acabei por atrasar.

Das desculpas às explicações, começo por contar à Vaneça qual a ligação que fiz entre Kinsey e o livro A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, em pousté anterior. Então, cito a personagem de João Ubaldo (p. 133):

Todo homem é veado, em maior ou menor grau, e toda mulher é lésbica, em maior ou menor grau. Ninguém é alguma coisa de forma absoluta, não há hipótese.

No filme que carrega o nome do famoso sexólogo Kinsey, é exposta a idéia de que os seres humanos não podem ser classificados meramente como heterosexuais, bisexuais ou homosexuais; a idéia do filme até poderia ter sido veiculada de forma errada, mas eis que em Sexual behavior in the human male (p. 656), livro escrito pelo próprio Kinsey, é fundamentado o discurso da personagem de João Ubaldo:

Since only 50 per cent of the population is exclusively heterosexual throughout its adult life, and since only 4 per cent of the population is exclusively homosexual throughout its life, it appears that nearly half (46%) of the population engages in both heterosexual and homosexual activities, or reacts to persons of both sexes, in the course of their adult lives. The term bisexual has been applied to at least some portion of this group. Unfortunately, the term as it has been used has never been strictly delimited, and consequently it is impossible to know whether it refers to all individuals …

A ligação que não pretendia fazer entre a obra dos acadêmicos era originalmente essa. Havia desistido, mas fica aí a pedidos.


Shakespeare: The invention of the human

escrito por Harold Bloom

Escrevi há algum tempo uma entrada contando o porquê, em minha opinião, Sandman é importante. Shakespeare tem uma pequena e importante participação nessa série, aparecendo em três edições diferentes. Na primeira vez em que ele e Sonho se encontram, fazem um trato que explicaria a obra do dramaturgo inglês, afinal ainda há controvérsias sobre a genialidade e mesmo a autoria do bardo (achei este texto aqui interessante). Mas, como ia dizendo, na primeira vez em que vemos Shakespeare nas páginas de Sandman, ele está a conversar com Marlowe, declarando a inveja que sente do outro dramaturgo e demonstrando seu desejo de barganhar com quem fosse pra ser capaz de “dar aos homens sonhos que vivessem até muito depois que eu tiver falecido”; Morpheus e Shakespeare logo se retiram e fazem um trato. — não pretendo contar tudo aqui, procure nas páginas de Sandman, leia, leia — Aparentemente não existem muitas estórias que descrevam encontros entre os dois dramaturgos, e Bloom faz questão de falar sobre a influência de Marlowe sobre Shakespeare. O que eu queria deixar aqui, ao final das contas, é o trecho em que as trocas entre os dramaturgos são declaradas e onde talvez tenhamos alguma explicação sobre o porquê de Marlowe estar com uma das pernas enfaixadas (mera curiosidade, P. 64-65):

We do not know, but it is a safe surmise that the two rival dramatists consciously exchanged influences and suggestions. Tradition has left us no anecdotes concerning any encounters between Marlowe and Shakespeare, but they must have met frequently, sharing the leadership of the London stage until Marlowe’s murder by the government in early 1593. Marlowe personally may have frightened Shakespeare rather in the way that Richard III shocks audiences; Shakespeare was anything but personally violent, while Marlowe was a veteran street fighter, a counterintelligence agent, and generally bad news, in ways that can remind us of Villon and Rimbaud, neither of them pillars of society. (…)

Mudando completamente de assunto mas ainda falando sobre o livro escrito por Bloom, conecto três assuntos completamente diferentes, mas que se resumem a um só: a palavra. Quase usei a palavra tradução, mas estaria cometendo um equívoco (explico adiante, promessa). Prestei um bocado de atenção à leitura que Bloom faz da peça Romeo e Julieta, a partir do instante em que ele declarou ser esta uma peça cheia de sensualidades. Não me lembrava disso quando a li, há alguns anos e, tendo como tema em meu grupo a luxúria – eis a motivação pra parar tudo e experimentar o livro do Ribeiro, repentinamente – finquei o olho nas páginas. Bloom faz uma declaração sobre o Ato I, cena IV, que achei digna de nota: Romeo interrompe um longo discurso de Mercucio, com as seguintes palavras:

Peace, peace, Mercutio, peace!
Thou talk’st of nothing.

e, de acordo com Bloom, nothing é uma gíria para vagina. Uau. Como encontro isso em português? Na minha edição, temos pura e simplesmente:

“Silêncio, Mercúcio, silêncio! Estás falando de ninharias.”

Cito isso por conta da péssima tradição de uma tradução – ou, se preferir, dublagem e transcrição de legendas – moralista dos filmes que por aqui aportam. É muito comum um “vá se foder” virar um “vá se catar” e um “filho da puta” virar “filho da mãe”. Parece bobagem? Então leia o que segue! (verídica, é história)

Essa semana, após uma apresentação teatral, uma professora evangélica que levava um grupo de alunos ao teatro resolveu se manifestar, porque achava um absurdo a quantidade de palavrões falados pelos personagens durante a apresentação (aliás, é importante que se entenda a distinção entre atores e personagens e, sinceramente, acho que ela não percebia essa diferença); praticamente pediu pros atores que se desculpassem pela apresentação. O Véio, nada indignado, começou sua resposta dizendo “O teatro é um lugar de liberdades”. Depois de longa explicação e de ficar nítido que os alunos não viram nada demais nos palavrões, porque percebiam o jogo platéia-encenação, ele concluiu “quando faço apresentações pra crianças, eu falo palavrão, falo mesmo. Afinal, qual a diferença entre cocô, merda, bosta e excremento, senão aos pesos que escolhemos dar à elas?”

Pergunto-me o que não estará você pensando disso… normalmente o paulistano nem liga tanto pra isso, mas minha experiência diz que nós de São Paulo falamos mais palavrão que os habitantes de outras cidades e estados e, portanto, o palavrão nos incomoda muito, muito menos.

Teria algo mais pra falar sobre Romeo e Julieta e A Invenção do Humano, mas chega, chega por hoje.

Sem citar os filmes A Origem e Sinédoque, Nova York, não posso deixar este escrito sem dizer “Se o espetáculo Donka – Uma Carta a Chekov passar por tua cidade, assista, dê um jeito e vá. Paguei R$10,00 na meia entrada (no SESC Pinheiros, graças!) e, particularmente, arrisco dizer que o custo-benefício beira o infinito. Ok, exagerei, mas é fato que a peça é deleite para olhos e ouvidos. Preste atenção pra qualquer notícia de visita ao Brasil.


Ah, olha só, não posso deixar este sem a dica do André Forastieri de um blog pra fãs de super-heróis e filmes, o Hero Complex. Conhecia de uma matéria que rebloguei via tumblr, mas não havia atentado pro espaço, pra tudo que ele trazia. De qualquer forma, fica a dica do blog do Los Angeles Times pra quem tiver curiosidade ou simplesmente for suficientemente nerd.

Comments
2 Responses to “Luxúria, hipocrisia, Donka e uma dica de blog [Leituras, teatro e bobagens] – 19/08/2010 a 26/08/2010”
  1. Sim, sim

    Assisti Kinsey logo que vc passou a dica!

    Não é um filme de abalar a estrutura interiorm(apesar que achei a idéia de uma ousadia!)… E ainda que tenha uma linguagem bem acessível, bem blockbuster, penso que seja raro a exibição na tevê. Pelo menos na aberta.
    Onde enfiar o maldito moralismo, nénaum?
    Parece que esse povo mi-mi-mi desconhece o mundo virtual e a gama de informações que ele proporciona, porra!

    O fato é que, de maneira subjetiva, a informação pode servir enquanto peça de desestrura. Vc Otávio, com toda sua particularidade/característica, juntamente com a assimilação do mundo externo, é totalmente diferente da Ana, da Vanessa, da Catarina .
    Daí que quando uma cultura é desmascarada, desconstruída, voltamos àquela primeira condição meramente sexual(mas isso é subjetivo demaisssss); antes da formação de uma identificação erótica pelo sexo X ou Y, ou mesmo Z.
    E quem vai querer esfregar na cara do povo que TUDO ISSO(as relações sociais)não passa de um jogo?

    Os nossos valores para a noção de bissexualidade é completamente diferente da dos gregos, por exemplo. O normativo, o esperado, é homem e mulher, logo, qualquer comportamento que não seja esse é prontamente classificado como desviante.

    Ah, sabe outra coisa que me arrepia os pêlos? Qndo cientista fica comparando cérebro de homossexual-homem com cérebro de mulher. Ahm??

    E por fim…
    Claro, a relação dele(Kinsey) com Ubaldo tem tudo a ver.
    😉

    • @caducotavio disse:

      Pois é, os pós-modernos (que eu saiba, andei discutindo isso com o Daniel, do Amálgama) vivem dizendo que somos produtos do meio, não única e exclusivamente escravos de uma determinada origem genética. Kinsey já dava seus pitacos no assunto há 50 anos, e ainda nem existia o pós-modernismo…

      De qualquer forma, gosto do filme pelo tratamento que dá ao método cientifico e, também, ao moralismo que nos rodeia. Não muito mais que isso, no no.

      Eita, seu comentário foi quase um post!

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