Poesia, música e respostas rápidas [Leituras, música e da memória – 03/09/2010 a 09/09/2010]

“Prefiro sentir-me desprezada a saber que fui desprezada,” dissera em momento de puro devaneio, antes que o mundo literalmente ficasse de cabeça pra baixo. Estatelado, resposta alguma cabia e voltamos à música e à poesia. E, entre todas as reviravoltas artístico-escolares da semana, deparei-me com versos que já lera antes, de Sonho de Uma Noite de Verão:

Puck

If we shadows have offended

Think but this, and all is mended,

That you have but slumber’d here

While these visions did appear,

And this weak and idle theme,

No more yielding but a dream,

Gentles, do not reprehend:

If you pardon, we will mend

Feita a exposição, voltemos dos sonhos. Ouvi também, inúmeras vezes, citarem o poema Para uma menina com uma flor, de Vinícius de Moraes. Conheço o texto, a carta, há quase dez anos, mas nunca mais retornara a ele – a vida é tão corrida… –. É texto daqueles que devem ser revisitados, apesar das quedas de romanos e românticos. Sem autorização, reproduzo o texto de livro que ainda não tenho (ainda, ainda: Para Uma Menina Com Uma Flor – 1966, editora Cia. Das Letras, 1a edição, 2009):

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua ddc para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara na Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora — tão purinha entre as marias-sem- vergonha — a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos — eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aleia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações — porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

E se o que Vinicius escreveu não foi pra mim – nada, nada –, ao menos posso me lembrar dele e tudo que pode sensibilizar (Santos já indicara e dividira seu apreço; eu é que não sou musical e, tonto, me perco). Li Vinicius, ouvi Vinicius e lembrei que quem escrevia pra mim era Cartola e Peyroux e Sinatra e Washington. Guardo a dica de Stacey Kent e ponho em repeat,

…e pensar que esse texto diria somente, e tão somente, que “Shakespeare não gostava de advogados”.

 

 

Música e memória

 

“Prefiro sentir-me desprezada a saber que fui desprezada,” dissera em momento de puro devaneio, antes que o mundo literalmente ficasse de cabeça pra baixo. Estatelado, resposta alguma cabia e voltamos à música e à poesia. E, entre todas as reviravoltas artístico-escolares da semana, deparei-me com versos que já lera antes, de Sonho de Uma Noite de Verão:

 

Puck

If we shadows have offended

Think but this, and all is mended,

That you have but slumber’d here

While these visions did appear,

And this weak and idle theme,

No more yielding but a dream,

Gentles, do not reprehend:

If you pardon, we will mend

Feita a exposição, voltemos dos sonhos. Ouvi também, inúmeras vezes, citarem o poema Para uma menina com uma flor, de Vinícius de Moraes. Conheço o texto, a carta, há quase dez anos, mas nunca mais retornara a ele – a vida é tão corrida… –. É texto daqueles que devem ser revisitados, apesar das quedas de romanos e românticos. Sem autorização, reproduzo o texto de livro que ainda não tenho (ainda, ainda: Para Uma Menina Com Uma Flor – 1966, editora Cia. Das Letras, 1a edição, 2009):

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para

trás, transfere sua ddc para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos

foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara na Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a

perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora — tão purinha entre as marias-sem- vergonha — a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos — eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aleia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações — porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

E se o que Vinicius escreveu não foi pra mim – nada, nada –, ao menos posso me lembrar dele e tudo que pode sensibilizar (Santos já indicara e dividira seu apreço; eu é que não sou musical e, tonto, me perco). Li Vinicius, ouvi Vinicius e lembrei que quem escrevia pra mim era Cartola e Peyroux e Sinatra. Guardo a dica de Stacey Kent e ponho em repeat,

 

 

…e pensar que esse texto diria somente, e tão somente, que “Shakespeare não gostava de advogados”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • RSS Ouvindo?

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • RSS Curiosidades

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
%d blogueiros gostam disto: