Experimentos, Das Experiment, O Estrangeiro [Leituras, filmes, teatro – 22/10/2010 a 07/11/2010]

Muito aconteceu nos últimos dias, um bocado de experiências a relatar.

Pra começar, uma dica teatral: O Estrangeiro, em cartaz no teatro Eva Herz. Guilherme Leme interpreta o texto inspirado na obra de Albert Camus; cenário praticamente vazio, mas também desnecessário, em parte pelo desenho de luz da peça. Como aprendiz de iluminador, fui porque me foi recomendado notar a luz desenhada por Maneco Quinderé; fiquei feliz quando a mulher que eu acompanhava declarou, logo quando cessaram as palmas: -”Caramba, que luz!” – afinal tivéramos algumas discussões sobre meu fazer, minhas atividades (reprovara-me, jocosamente, usando uma certa lógica).

Guilherme Leme em O Estrangeiro

Não lemos O Estrangeiro, eu ou ela, eu e ela; fica como resolução, pra depois de Great Expectations, Lord of the Flies e algum clássico russo, indicado por ela e cujo nome perdi nas noites que passaram. (Pois que montei uma fila de ficção, sim.)

Experimentos

Às vezes passamos pela vida sem experimentar nada, zumbis operacionais, que só fazem querer, hã, sopa – é Santa Joana dos Matadouros na minha cabeça, desculpem a referência inútil – e, por isso, acabei gostando muito do texto que foi sugerido por Lira, Notas sobre a experiência e o saber da experiência, de Jorge Larrosa Bondía. Separei um trecho que discutira com Lira antes mesmo de haver tido contato com o texto – o pensar e fundamentar pensamentos de que falava Schopenhauer –, reproduzido aqui:

O sujeito da experiência (…) é um sujeito alcançado, tombado, derrubado. Não um sujeito que permanece sempre em pé, ereto, erguido e seguro de si mesmo; não um sujeito que alcança aquilo que se propõe ou que se apodera daquilo que quer; não um sujeito definido por seus sucessos ou por seus poderes, mas um sujeito que perde seus poderes precisamente porque aquilo de que faz experiência dele se apodera. Em contrapartida, o sujeito da experiência é também um sujeito sofredor, padecente, receptivo, aceitante, interpelado, submetido. Seu contrário, o sujeito incapaz de experiência, seria um sujeito firme, forte, impávido, inatingível, erguido, anestesiado, apático, autodeterminado, definido por seu saber, por seu poder e por sua vontade. Nas duas últimas linhas do parágrafo, “Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo”, pode ler-se outro componente fundamental da experiência: sua capacidade de formação ou de transformação. É experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação.

O texto inteiro é saboroso, aproveitem. Falaria de algo mais, sobre a palavra e os perigos – e o mote que ainda me permite escrever aqui – mas, de novo, isso fica pra você criar relações (ou não).

Aproveitando que tenho tomado parte em um experimento, acabei assistindo a Das Experiment, filme alemão interessante que retrata nossa natureza (isso, nossa: minha, sua, a natureza humana). Virou referência pra Santa Joana dos Matadouros, que estou experimentando este mês. Acaba de sair um remake americano deste filme mas, tenho certeza não deve ser tão poderoso quanto a versão alemã (e provavelmente não tem luz tão interessante, também).

[é fato que estou com preguiça e não quero dedurar quem me apresentou o filme, afinal, costumo dar nomes aos bois]

Comments
One Response to “Experimentos, Das Experiment, O Estrangeiro [Leituras, filmes, teatro – 22/10/2010 a 07/11/2010]”
  1. Shirley disse:

    Gosto muito do seu blog; os posts são sempre interessantes e motivam à leitura. Continue com o excelente trabalho. Shirley de Souza Flores

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