Great Expectations, uma pergunta e Testemunha de Acusação [Leituras e um filme] – datar pra quê?

As leituras vinham emperradas, todas.

Não vinha conseguindo ler um único livro, do começo ao fim, sozinho, por conta do ritmo que vinha me impondo; isso significa que janeiro deve ser um mês em que darei cabo de vários livros (ou não, tem dessas). De qualquer maneira, prestes a viajar para o ano novo, resolvi deixar alguns trechos, como amostra grátis.

Charles Dickens está sendo – não deveria, afinal é considerado autor dos mais importantes entre os que escreveram em língua inglesa – uma grande surpresa. Um livro especial, pra mim, definitivamente. Separei dois trechos; este primeiro tem relação com algo que vinha pensando (em Great Expectations, escrito por Charles Dickens, edição da Barnes and Noble, p. 167-168)

‘Instead of that,’ said I, plucking up more grass and chewing a blade or two, ‘see how I am going on. Dissatisfied and uncomfortable, and – what would it signify to me, being coarse and common, if nobody had told me so!’
Biddy turned her face suddenly towards mine, and looked far more attentively at me than she had looked at the sailing ships.
‘It was neither a very true nor a very polite thing to say,’ she remarked, directing her eyes to the ships again. ‘Who said it?’
I was disconcerted, for I had broken away without quite seeing where I was going to. It was not to be shuffled off, now, however, and I answered, ‘The beautiful young lady at Miss Havisham’s, and she is more beautiful than anybody ever was, and I admire her dreadfully, and I want to be a gentleman on her account.’ Having made this lunatic confession, I began to throw my torn-up grass into the river, as if I had some thoughts of following it.
‘Do you want to be a gentleman, to spite her or to gain her over?’ Biddy quietly asked me, after a pause.
‘I don’t know,’ I moodily answered.
‘Because if it is to spite her,’ Biddy pursued, ‘I should think – but you know best – that might be better and more independently done by caring nothing for her words. And if it is to gain her over, I should think – but you know best – she was not worth gaining over.’

e este próximo, relacionado a algo que ouvi há alguns anos e virou mote de outros textos (em Great Expectations, escrito por Charles Dickens (edição da Barnes and Noble, p. 305),

(…) ‘I don´t remember.’ ’ Not remember that you made me cry?’ said I. ‘ No,’ said she, and shook her head and looked about her. I verily believe that her not remembering and not minding in the least, made me cry inwardly – and that is the sharpest crying of all.
‘You must know,’ said Estella, condescending to me as a brilliant and beautiful woman might, ‘that I have no heart – if that has anything to do with my memory.’
I got through some jargon to the effect that I took the liberty of doubting that. That I knew better. That there could be no such beauty without it.
‘Oh! I have a heart to be stabbed in or shot in, I have no doubt,’ said Estella, ‘and of course, if it ceased to beat I should cease to be. But you now what I mean. I have no softness there, no – sympathy -sentiment – nonsense.’

Existe um filme, recente – ok, 1998 não é recente, confesso – em que um bocado da estória foi alterado. Não assisti a ele e tampouco pretendo traçar paralelos entre filme e livro; ou melhor, quero: Gwyneth Paltrow pode ser um bocado especial, mas não diria que transmite a mim a altivez ácida de Estella (um ícone, ela).

Gwyneth Paltrow, em Grandes Esperanças

Mudando de assunto – como sempre, repentinamente – pra viajar na literatura…

Paro aqui pra levantar algo que comentei com Santos, uma impressão minha: estariam os autores brasileiros e os tradutores para língua portuguesa presos, incapazes de fugir do formalismo de nossa língua, do que é tido como a boa escrita? Digo isso porque – e talvez seja um problema do meu espaço amostral, pobre – encontrei muito mais autores em língua inglesa que escrevem quase como se falassem, respeitando antes tradições orais a regras gramaticais, que livros escritos em língua portuguesa que tenham algo parecido (Monteiro Lobato me vem à memória, agora). Em Great Expectations, Rob Roy e Lord of the Flies, a linguagem coloquial é usada, dentro de características específicas de cada situação sem qualquer pudor. Parece-me que só assumimos qualquer postura nesse sentido a partir do movimento modernista, ou seja, muito recentemente.

Pra quebrar novamente o assunto e fugir finalmente dos livros, um trecho de Pessoa que li durante essa madrugada, enquanto trocando referências com Pereira Silveira; porque, apesar de conversando com alguém, cada qual estava em seu canto e o texto ainda diz muito, inda mais nesses tempos de internet (no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa):

O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança. A presença de outra pessoa – de uma só pessoa que seja – atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o contato com outrem é um estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contato é um contra-estímulo, se é que esta palavra composta é viável perante a linguagem. Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono. Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir. Só os meus amigos espectrais e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em sonho, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é presente como uma imagem num espelho.

Pesa-me, aliás, toda a idéia de ser forçado a um contato com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de definir. A idéia de uma obrigação social qualquer – ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida –, só essa idéia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.

“Os meus hábitos são da solidão, que não dos homens”; não sei se foi Rousseau, se Senancour, o que disse isto. Mas foi qualquer espírito da minha espécie – não poderei talvez dizer da minha raça.

Testemunha de Acusação

Houve um tempo em que receberia uma e outra indicação de livros e filmes e passaria batido. Não era questão do tempo, de ser naquela época, nem de tempo, porque tempo pra buscar e acompanhar eu tinha; era vontade mesmo ou, melhor dizendo, falta de vontade. Agora mesmo, enquanto escrevo, passa na TV Slumdog Millionaire, que ninguém insistiu muito: –  “Olhe, olhe!” – e continuo na mesma, ligando nada.

Pois que finalmente assisti a Testemunha de Acusação. Falarei nada sobre, a experiência ainda está um tanto viva e preciso assistir novamente, com olhos ainda mais atentos. O filme é fantástico e, infelizmente, daqueles que não mais conseguimos fazer; uma comédia cheia de suspense que jamais se encaixaria em qualquer dos gêneros que utilizamos hoje em dia – – nunca. Se quer ler uma resenha agora sobre este filme, passe no 50 anos de Filmes. Eu, entretanto, recomendo a experiência completa: o filme é um desbunde.

Comments
One Response to “Great Expectations, uma pergunta e Testemunha de Acusação [Leituras e um filme] – datar pra quê?”
  1. Flores disse:

    Meu livro preferido de Charles Dickens é *The Old Curiosity Shop*. Este blog é ótimo, parabéns pelo seu trabalho. Buque de Rosas

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