Quadrinhos, traduções, política e os argumentos esquisitos

Andou rolando uma pequena polêmica esses dias, pelo twitter; quando dei por mim, já estava a ler sobre no blog Melhores do Mundo (MDM) – a entrada parece ser bem completa –.

O fato é que andaram a reclamar de uma tradução feita na revista Batman 98, publicada no Brasil pela editora Panini. Não entro em detalhes aqui sobre o acontecido (já linkei a postagem do MDM, leia lá), mas já deixo claro que não é por me divertir lendo Reinaldo Azevedo que estou escrevendo esta entrada. Não: assim como o MDM não estava a defender uma posição política, também não estou; ou talvez estejamos os dois, mas nenhum dos dois quer pensar nisso. Não importa. Eis o trecho que considero mais complicado em toda a argumentação do Bugman, no MDM:

Então pergunto ao Google: o termo “petralha” tem essa conotação plural ou é exclusivamente político? E ele me diz que a Panini está errada. Seja qual for a intenção da editora, sua ação acaba trazendo uma discussão que nenhum leitor de quadrinhos quer ver quando vai ler um gibi do Batman. Se ninguém liga se Bruce Wayne ou os personagens de seu universo são republicanos ou democratas, que tal não fazer essa opção por ele? A gente só quer saber como ele vai derrotar seu vilão e não em quem ele vota. Grato.

Levanto o assunto por aqui porque não consegui concordar com a argumentação do Bugman. E tenho direito de falar. Então, sobre o referido erro da Panini, duas notas iniciais, minhas:

(a) já discutira tema parecido, neste mesmo blog (aqui). Nossos tradutores escolhem referenciais que nem sempre podemos entender ou, mesmo quando entendemos, achamos que poderia ser outro, melhor (tudo bem, tradução não é uma ciência exata e depende de uma série de fatores, entre eles o contexto em que se insere o tradutor e aqueles que o lerão). Talvez – e não pela conotação política –, usar o termo petralhas possa não ter sido a melhor escolha possível para nasty, verdade; mas, como já apontara (ver link anterior) nossos tradutores – e dubladores, por que não? – parecem trabalhar ainda dentro dos moldes da ditadura: “fuck you”, em nossas TVs, passa muito bem, obrigado, por “vá se danar”; “shit”, por “caramba”, ou “ferrou”, e assim por diante;

(b) não dá pra usar o Google como árbitro nesse tipo de disputa. Por mais que ele seja interessante e útil, usar o Google como árbitro-tradutor é uma demonstração de ingenuidade. Algo nessas linhas já dizia o senhor Umberto Eco, em entrevista à Der Spiegel:

O Google cria uma lista, mas no momento em que olho para a lista que o Google gerou, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas – não para os adultos como eu, que adquiriram conhecimento de outro modo -, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas deveriam ensinar a arte da discriminação.

É necessário ter critério para analisar as informações que o Google despeja em nossas telas, fazer uma seleção da seleção que essa ferramenta incrível, mas ainda desprovida de inteligência, nos traz a cada busca feita.

Parece coisa do passado, essa discussão. Mas não é. Alguém se lembra da cena em que Ferris Bueller descreve seu amigo Cameron, em Curtindo a Vida Adoidado – ótimo título, mas quem traduziu do original, Ferris Bueller’s Day Off? é um bom exemplo do que estou a falar. Ninguém fala sobre isso (se falam, por favor, indique).

Tá, o editor confirmou terem errado, e daí?

O erro da Panini, nesse caso, me parece ter sido mais de marketing que de tradução. O fato de alguns consumidores reclamarem não indica necessariamente que a tradução não é boa; quantos leitores entenderam o sentido de petralhas e, por isso, não se manifestaram? Todo mundo reclamou, e pronto. Só espero que numa próxima vez argumentos melhores sejam utilizados nesse tipo de discussão. Que não se esqueçam, por exemplo, que o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, tem fortíssimas conotações políticas – – não é uma grande estória só porque o Batman dá porrada no Superman, não. Alguém, por favor, puxe a orelha do Sr. Miller, que não respeitou os leitores de Batman? E Alan Moore, que criou Watchmen… – -.

Digo tudo isso bem tranqüilo, cheio de vontade de conseguir pôr as mãos no livro Sonetos de Shakespeare – Faça Você Mesmo, organizado por Jorge Furtado. São várias traduções de sonetos de Shakespeare, feitas por pessoas diversas, muitas delas sem qualquer relação com o mundo dos tradutores, a não ser pelo fato de, well, falarem inglês. O livro é um convite pra que desenvolvamos nossas próprias traduções pros sonetos; qualquer hora (quando eu tiver o livro) coloco por aqui as duas traduções propostas por Furtado para o soneto LVI (que soneto!, que soneto!). Fica pro futuro.

Comments
One Response to “Quadrinhos, traduções, política e os argumentos esquisitos”
  1. YCK disse:

    Assume o erro pede desculpa, nunca mais acontecerá. Fecha e passa a régua.

    Agora o problema é se o tradutor se sentir confortável em continuar partidarizando o serviço.

    Bom blog e bom texto.

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