Não sobre o que é arte, afinal?

Tripudio sobre bases que não tenho pra falar de arte. Não sou o primeiro e tampouco serei o último a arriscar. Periculum dicendi non recuso, exponho-me ao risco de falar: só assim esse espaço existe. Demorei, aliás, bastante, para compor este que, desejava eu, fosse uma resposta a um texto no Amálgama, O que é arte, afinal?, escrito num passado já remoto (agosto de 2008). O que entendo por arte não é necessariamente o inverso do que a autora acredita, de maneira pura e simples, não: há discordâncias (isso sim é simples). Ela tem sua opinião e é taxativa a respeito. Que seja: eu tenho a minha e me permito este espaço. Se quiser pular minhas elucubrações, fique à vontade. Estar aqui é, deve ser opcional.

Conceito e contexto – o que é arte, afinal?

A arte traz consigo algum conceito. O conceito é dependente de contexto. Há, aí, um mecanismo que se auto-sustenta: alimentação e retroalimentação. O contexto determina o conceito que, por sua vez, determina, modifica o contexto — simplifiquei –. Não precisa ser óbvio, não tem que. Tento um exemplo: a arte clássica, dos gregos. Embutida nas obras – e por obras, quero dizer esculturas e também sua arquitetura –, há idéias que refletem as relações deste povo com seus ritos e fazeres e, ao mesmo tempo, reforçam estas relações. Isso já acontecia com os egípicios e tornaria a acontecer novamente durante o império romano. São exemplos pequenos. Este tipo de relação existiu e hoje, ainda, existe.

Marcel Duchamp, A Fonte

A importância de falar em contexto e conceito reside no fato de que hoje – aliás, desde quase 100 anos atrás – o fazer artístico pôde se desconectar do eixo ligado à habilidade física do artista e se pendurar na idéia desenvolvida para a obra, desenvolvida nela. A marca mais popular deste acontecimento é, parece, A Fonte, de Marcel Duchamp.

Os artistas começaram a brincar com nossa percepção e nossa cultura. Picasso nos forçava a mudar nossos hábitos, a fim de experimentar suas obras. Os ready-mades de Duchamp, o que são? Como poderiam ser obras de arte? Entretanto, eram, são obras de arte. Nos proporcionam uma experiência (e não, não acabei por definir arte – não creio ser capaz de escrever essa definição, não).

Outros artistas propuseram experiências diversas. Quem participou do Dada, bem, estes sequer se consideravam artistas ou parte de um movimento artístico: negavam tudo. Apareceram pra negar principalmente nossa racionalidade, que nos levou à cifra de mais de 16 milhões de mortos, fatalidades da primeira guerra mundial; a mesma racionalidade que criava armas potentes – este conflito, como poucos na história humana até então, foi marcado pelo fato de que a esmagadora maioria das mortes ter sido causada por armas, e não por doenças – era também capaz de criar obras de arte sublimes. Contexto. Já de cara me pergunto: de que adiantaria prosseguir com uma arte representativa, como aquela tão festejada e adorada, praticada pelos pintores e escultores denominados renascentistas, depois da invenção e popularização da fotografia? Mas fujo disso e cito os novos realistas, que nos provocavam, levando a “novas maneiras de perceber o real”. Afinal, quando um carro é apenas um carro?

César, Ricard, 153 x 73 x 65 cm

E quando um conjunto de tijolos não é apenas um conjunto de tijolos? Contexto. Uma obra simples, mas que convém, aqui, é Sementes de Girassol, de Ai Weiwei. Seu trabalho, como pode ser acompanhado nos links anteriores, tem forte conotação política (não é apenas isso, mas isso e muito, muito mais). Weiwei realiza obras que são muito mais que uma experiência imediata e imediatista, ele provoca. Não há motivo para que o entendimento seja imediato. A experiência, qualquer experiência mais profunda nos consome, no mínimo, tempo.

É fácil, muito fácil declarar questões de gosto. É mais fácil ainda sentir-se enganado por algo não compreendido – ora, é uma explicação, melhor que se sentir ignorante, não? –, mas determinar o que é arte? Determinar o que é arte?, quando existe uma pletora de conceitos e justificativas para tantos movimentos artísticos diferentes, desconsiderando-os em favor de questões de gosto?

Arte é o contrário do repetitivo? Que nos diria Andy Warhol, ícone da pop art? Ou Yves Klein? Arte é o contrário do grotesco? Novamente, Warhol pode ser citado, se pensarmos em seu período laranja.

Não, caros, sua sensibilidade não precisa se amoldar rapidamente. Você não precisa tornar-se especialista em arte. Mas se permitir fruir, desfrutar de uma obra sem desenvolver preconceitos apressados (pra isso você teria pressa, é?), ah, abrir-se pro novo e diferente? Eu não sei definir o que é arte, mas sei que ela não está aí pra que nos fechemos para o mundo, como algumas pessoas tendem a sugerir que façamos.

Comments
2 Responses to “Não sobre o que é arte, afinal?”
  1. YCK disse:

    Porque tanto intervalo entre os posts?!

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