Adendos a “Não sobre o que é arte, afinal?” e uma reclamação

Escrevi há pouco tempo um pequeno texto sobre arte, sem de fato ser capaz de uma definição final – espero, realmente, tê-lo deixado suficientemente aberto pra que definições ou, quem sabe, sensações sejam apresentadas num futuro não muito distante, por quem passar por mim e, por favor, por quem passar por aqui (sim, isso é um convite e a mídia, cola prática: façamos uso dela) -.

Antes de falar efetivamente de arte, aliás, deixo aqui registrado que a colaboração, a discussão aberta, a exposição (com algum aprofundamento) são itens dos quais sinto alguma falta na rede brasileira. A esmagadora maioria dos espaços colaborativos que mantemos – me corrija, pelamor – surge propositalmente superficial ou cômico, sem qualquer intenção de provocar discussão e fazer crescer o bolo, numa preliminar que, pretende-se, jamais levará a qualquer outra relação ou finalização. Dia desses participei de uma rápida discussão na rede Google +, com Ernesto Diniz (e outros, vários) sobre matéria recente em jornais que afirmava serem as redes sociais responsáveis pela criação de uma geração vaidosa e obcecada por atenção. Acho que não é necessário muito raciocínio pra perceber o jornalismo superficial que apontava pra uma suposta correlação. Posso estar enganado, mas acredito que esse é um jornalismo de tradução, de notícias prontas e já superficiais, totalmente importado e, ao menos nesse caso, despojado de qualquer senso crítico. Qualquer paralelo com a notícia (saiu na mídia há algum tempo) sobre o surgimento de um décimo terceiro signo zodiacal que eu viesse a traçar aqui não seria mera coincidência – ei, essa última notícia certamente vale um texto, não? –.

Como provocação, deixo pequena citação que lembra famoso bordão da Campus Party, encontrado em livro de Guy Debord, “A Sociedade do Espetáculo”:

A Sociedade não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.

Uma sensação a respeito da arte

Tive sorte, comentei sobre o novo livro de Gerald Thomas, “Nada Prova nada” e, tchananam, fui agraciado com um exemplar (obrigado, R.). Um dos textos, dos últimos do livro, chamou minha atenção de maneira especial, por conta do que, ou de como – não sei dizer o modo que provocou meu interesse – a entrada foi escrita. Fica a dica.

nadaprovanada

De dica em dica, fica outra, de livro que tropecei sem querer essa semana: A definição da Arte, de Umberto Eco. Com tempo e dinheiro, definitivamente algo pra se ler.

Aliás, de algo pra se ler pra algo pra se ver, encontrei um livro bem interessante sobre livros de rascunho de artistas diversos. Eu mesmo sou bastante desorganizado em meus processos, costumo concentrar informação demais em meios eletrônicos, num procedimento digitalmente limitado que eu bem gostaria de trazer para um nível mais artesanal. Fica (outr)a dica.

E, pra finalizar voltando ao pousté anterior, Não sobre o que é arte, afinal?, uma nota extraída do livro Profanações, de Agamben:

A separação dá-se também e sobretudo na esfera do corpo, como repressão e separação de determinadas funções fisiológicas. Uma delas é a defecação, que, em nossa sociedade, e isolada e escondida através de uma série de dispositivos e de proibições (que têm a ver tanto com os comportamentos quanto com a linguagem). O que poderia querer dizer: profanar a defecação? Certamente não encontrar nisso uma pretensa naturalidade, nem simplesmente desfrutá-lo como forma de transgressão perversa (o que, aliás, é melhor do que nada). Trata-se, sim, de alcançar arqueologicamente a defecação como campo de tensões polares entra natureza e cultura, privado e público, singular e comum. Ou melhor, trata-se de aprender um novo uso das fezes, assim como as crianças estavam tentando fazer a seu modo antes que interviessem a repressão e a separação. As formas desse uso só poderão ser inventadas de maneira coletiva. Como observou certa vez Italo Calvino, também as fezes são uma produção humana como as outras, só que delas nunca se fez uma história. Por esse motivo, qualquer tentativa individual de profaná-las pode ter apenas valor de paródia, a exemplo da cena da defecação em volta de uma mesa de jantar no filme de Buñuel.

As fezes – é claro – aparecem aqui apenas como símbolo do que foi separado e pode ser restituído ao uso comum. (…)

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