Arquitetura e colonização: paramos, andamos?

Divirto-me um bocado (aliás, pensando bem, dou a sensação que só faço me divertir) com as referências que aparecem repentinamente, num movimento aparente de desdobramento do universo; muito aparente, porque elas sempre estiveram por lá, nós é que nunca estivemos preparados pra percebê-las ou, talvez, que não demos bola pro que estava ali, na nossa cara. Os trechos abaixo são do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (26ª edição, 34ª reimpressão, Companhia das Letras). Outro presente, estou lendo aos poucos e com calma, mas fiz questão de ressaltar aqui estes três trechos, que dizem respeito às maneiras que portugueses e espanhóis tratavam a América, quando aqui chegaram.

P.96

Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõem-lues antes o acento voluntário da linha reta. O plano regular não nasce, aqui, nem ao menos de uma idéia religiosa, como a que inspirou a construção das cidades do Lácio e mais tarde a das colônias romanas, de acordo com o rito etrusco; foi simplesmente um triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado. O traço retilíneo, em que se exprime a direção da vontade a um fim previsto e eleito, manifesta bem essa deliberação. E não é por acaso que ele impera decididamente em todas essas cidades espanholas, as primeiras cidades “abstratas” que edificaram europeus em nosso continente.

P. 102

É verdade que o esquema retangular não deixava de manifestar-se – no próprio Rio de Janeiro já surge um esboço – quando encontrava poucos empecilhos naturais. Seria ilusório, contudo, supor que sua presença resultasse da atração pelas formas fixas e preestabelecidas, que exprimem uma enérgica vontade construtora, quando o certo é que procedem, em sua generalidade, dos princípios racionais e estéticos de simetria que o Renascimento instaurou, inspirando-se nos ideais da Antiguidade. Seja como for, o traçado geométrico jamais pôde alcançar, entre nós, a importância que veio a ter em terras da Coroa de Castela: não raro o desenvolvimento ulterior dos centros urbanos repeliu aqui esse esquema inicial para obedecer antes às sugestões topográficas.

P. 110

A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra “desleixo” – palavra que o escritor Aubrey Bell considerou tão tipicamente portuguesa como “saudade” e que, no seu entender, implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que “não vale a pena…”.

Queria falar das praças da Sé e Roosevelt, aqui em São Paulo, mas percebi um possível gancho: do inicio de nossa colonização até hoje, passamos de um estado em que o planejamento urbano não vale a pena para outro em que o não planejamento vale, e vale muito. É, estamos involuindo. Ou simplesmente não saímos do lugar.

Não acredita? Veja esse comparativo da reconstrução do Rio e a do Japão, pós-catástrofes.

(ah, e como cheguei a isso: o referido livro, depois de aulas de arte e escrever um texto em que a definição de arte simplesmente não surgiu naturalmente)

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