Fragilidade

A posição do artista é frágil. Precisa viver, comer, viver, viver e comer. Não, não precisa: se ele não vive e come, não produz arte. Produzir. Fazer arte. Produzir é fazer, fazer é produzir. Importa a escala da produção? E se a escala da produção estiver ligada diretamente a uma linha filosófica? Ses. O teatro produzido pelas grandes produções e empresas broadwaynescas replicam o modo de produção industrial. Essa crítica já foi levantada por Duchamp, em outra área; os ready-mades ainda hoje são tidos como obras de arte e, claro, justamente porque replicados, replicados e incansavelmente replicados. Fetiche: qualquer coisa feita por Duchamp tem valor maior, afinal… é uma cópia original.

Vender ou não vender, eis a questão.

A venda é questão de preço, de valor? Uma obra preparada pra cair nos gostos da população tem que valor? Uma obra preparada pra que não caia nos gostos da população, e esta, tem que valor? Não se pode atribuir um valor a qualquer mensagem? No conhecimento? Se ele não pode ser vendido, pode ter um valor intrínseco que admita segurança, exija proteção?

A cena cultural sempre parece vazia, sempre. E sempre pode ser preenchida pelo cânone. Shakespeare é conhecido – e há controvérsias sobre sua existência, ainda –. Picasso e Van Gogh, e Modigliani. Não me lembro de ouvirem falar, em nossa escolinha, de Beckett. Escolhas são feitas e, às vezes (mas não muito às vezes) alguém é deixado de lado, alguém passa fome. Há artistas demais no mundo. Há artistas demais no mundo? Há artistas demais no mundo. Não há muito sendo dito.

Escolhas são feitas. Mensagem número 1. Mensagem número 2. Mensagem número 3. Faça seu pedido, escolha pelo número. Escolhas são feitas e a mensagem, ela, sempre ela, ela sempre precisa ser vendida. Outro modo de produção. Pesquisa de mercado, formação de novos consumidores, perversão de velhos consumidores.

Sedução.

A idéia precisa ser vendida ou, do contrário, não há arte. A arte. Independente do suporte, ela sempre é alguma idéia, é o mínimo denominador entre todos os artistas que já existiram. Idéia, suporte, arte. A inexistência de idéia é uma idéia. A inexistência de suporte, também. Idéias.

Arte livre é uma falácia. Se o artista não vende sua arte, ele morre. Ele não vira cânone, ele não influencia. Comer, comer vem depois, ou Van Gogh se importava com isso? Modigliani? Nietzsche? Opa, Nietzsche era artista? Kafka foi pobre? Se o artista não vende sua arte, ela se perde na história. Mas, espera, a história é feita todos os dias, então nada disso deveria importar. Ainda assim, o artista precisa viver. Todos os dias. Como e o que vender, em arte.

Fizemos escolhas, voltamos ao cânone. “A boa arte é…” Épico, épico é excelente pra dizermos aquilo a que viemos dizer. Não inventamos nada (nem temos que) e usamos os ombros de Brecht! Estamos alinhados! Viva! E lá se foi a liberdade. Fazendo escolhas, somos reféns. Não fazendo, também. Reféns de nosso tempo, de uma estética, de um gênio. Ou vários. Não discutimos fora desta perspectiva, discutimos?

Aí pergunto: que fazer quando oito entre dez artistas dizem as mesmas coisas, usando imagens diferentes? Van Gogh (de novo ele) é tido como marco de um rompimento. Brecht, quando ouço falarem dele, escuto algo parecido. Shakespeare, esse tem apenas duas obras originais – de tantas e tantas que permeiam tudo em nossas vidas, hoje – e, mesmo assim, diz-se que criou o humano, nos definiu. Produtos de um tempo. Eleitos. Gênios. Únicos, cada um deles? Duvi-de-o-dó. Sobreviventes na história? Certamente.

Vampiros estão e estiveram na moda. Dá pra fazer samba com uma nota só? E esse samba... será necessariamente isso ou aquilo?

E os outros? Produziram as mesmas coisas, usaram embalagens diferentes, exploraram outros detalhes, outros pontos de vista. Não sobreviveram. Mercado. A Apple domina o mercado de tablets. A Motorola resolveu pular fora. A Samsung continua tentando, sem muito sucesso. A Amazon, dizem, tem diferencial pra competir mas, ao mesmo tempo, apresenta um produto filosoficamente diferente. Mercadorias, idéias, a venda, a produção: acontecem o tempo todo.

Fruição é consumo. Fruição é consumo. Fruição é consumo. Fruição é consumo.

Fruição é consumo.

Fruição

É

Consumo.

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