De revoltibus uspianus…

A Reitoria esta livre! Viva a Reitoria Livre! Os tanques americanos desfilam pelas ruas do campus da USP-Capital saudados por uma multidão delirante agitando freneticamente bandeirinhas do estado de São Paulo e da Polícia Militar. Aclamado por dez milhões de vozes, o reitor sobe em um palanque improvisado e declama as palavras longamente ensaiadas na sua cabeça, palavras que entrarão nos anais da Historia do estado de São Paulo como a quintessência de tudo o que ele representa: “USP ultrajada, USP quebrada, USP martirizada, mas USP liberada!”.

Paris liberada em 45....

Os parisienses acolhem com grande euforia as forças aliadas.

O ridículo evidente do quadro acima me fez ficar sem jeito; onde já se viu usar a liberação de Paris na Segunda Guerra Mundial como paralelo a uma reapropriação de bens da reitoria? Pois é… mas esse ultraje se torna menos risível quando pensamos nas imagens de estudantes encapuzados como traficantes das melhores e mais bem armadas favelas – brandindo pedaços de pau ao invés de armas militares, certo… – que nos foram mostradas em todas as mídias nesses últimos dias.

Depois da Intifada, a Emaconhada no campus! Se o DCE pode transformar um protesto pueril em um grande debate digno de mobilizar a maior e mais prestigiosa universidade da América Latina, por que não poderia eu comparar a liberação do prédio da reitoria com a de Paris em 1945?

Os conflitos e tensões na USP já foram muito documentados, muito falados… mas foi observando todo esse rebuliço que vim a me fazer uma pergunta: qual a diferença entre uma transgressão e uma atitude revolucionária? Por que em nosso país uma mentalidade abertamente de esquerda tem o mesmo discurso que a direita assumida? (A saber: exilar/despojar a facção oposta, de preferência através de uma luta armada ou de ações extremas praticadas por outros que os que bradam as idéias.)

Para tentar responder a essas perguntas, parti da fagulha inicial, a maconha. Todavia, antes de entrar no tema vou contar uma outra história tirada de meu universo paralelo. Afinal, quem já tomou a liberdade de zoar a liberação de Paris pode muito bem se permitir mais uma sacanagem, pois onde come um comem cinco. Falemos então do Império Romano.

Quem já viu estátuas da Antiguidade percebeu um detalhe que marca quase a totalidade delas: a cara destroçada. Pois é; isso faz parte de um processo velho como a humanidade que tem por nome deletio memoriae (destruição da memória). Assim, depois de conquistado um povo, as rebeliões e insurgências eram punidas com a destruição do patrimônio cultural e identificador do povo para que esse, desprovido de tudo o que o liga a seus ancestrais e às lembranças de glórias passadas, parasse de encher o saco, se sujeitando definitivamente à Pax Romana. A destruição do templo de Salomão é um excelente exemplo, bem como nivelar Cartago e salgar seu solo… pois é, os caras não brincavam em serviço.

Agora, imaginem um exército romano que, ao invés de estripar as forças de outros povos, tentasse se impor marretando narizes e mutilando braços de mármore. Imaginaram?  Pois é, devemos admitir que um império dificilmente se mantém desse jeito. Esse comportamento, a que hoje em dia chamamos de iconoclasta, precisa de uma sustentação mais forte para ser legítimo e eficaz sob pena de não ser visto de outra maneira que vandalismo puro e simples.

Voltemos agora à maconha, aos campi universitários e à PM. Lembremo-nos também que fumar maconha na nossa sociedade brasileira é crime passível de pena.

Idealmente, um campus universitário é um lugar reservado aos estudos, ao debate de idéias, ao desenvolvimento do conhecimento em seu sentido mais complexo e avançado. Quando praticado, esse desenvolvimento traz seus frutos em novas formas de pensar o mundo, alternativas aos aspectos mais duros da vida de todos os dias que permitem à humanidade se elevar como um todo para um futuro de prosperidade e respeito do outro.

Woodstock, 1969. Sexo, muitas drogas e rock'n'roll para lançar uma mensagem nos EUA em plena guerra do Vietnam. Protesto sim, e um protesto surpreendente se o compararmos com a mobilização do pais durante a Segunda Guerra...

A realidade de certos períodos históricos facilitou a aproximação entre pratica e teoria, não podemos negar. Vimos isso na França em Maio de 68, nos EUA dos anos 69-70, no Brasil da época do AI 5. Em todos esses casos, novas idéias brotaram em um ambiente de repressão que fez com que o ideal só pudesse se manifestar clandestinamente através da transgressão, ou ainda da iconoclastia que chocava sociedades apáticas cegamente confiantes em instituições corrompidas. Mas e agora?

Tem alguém aí que ainda acredita cegamente em nossas instituições? Levante a mão!

Como ex-uspiano, sei muito bem que a maconha é parte do cotidiano do campus. Quem não fuma aprende a tolerar, quem não suporta junta suas coisas e vai para casa assim que terminam as aulas. Não há como andar na USP sem tropeçar em uma rodinha de baseado ou topar com a figura distante do Maconheiro Solitário, defensor dos frascos de comprimidos (de preferência de tarja preta…) e não podemos negar que essas atitudes têm hoje muito pouco, senão nada, de protesto ou de elevadas. Fuma-se pela diversão, porque é gostoso, porque o barato é bom. Fuma-se, ao mesmo tempo que a vida se enquadra perfeitamente na moldura que a sociedade nos deu, fuma-se porque o baseado se tornou um dos ícones da vida universitária, bem como a birita e, é claro, o sexo no estacionamento do bolsão. O estudante que lê jornal, defende idéias políticas ultrapassadas e fuma seu baseado persegue uma idéia romântica construída em cima do único fator que ele ignora: a mudança através da renovação, da criação de novos conceitos. Ele é um arquétipo ultrapassado que sonha com os bons tempos das barricadas e do hino da Internacional Socialista sussurrado nos porões. Sua vida é frustrada, pois hoje ele pode expressar suas idéias livremente, sem correr o risco de acabar em um dos porões do DOICOD.

Face a tal desespero de liberdade, quem pode resistir à possibilidade de tomar uma lata de gás lacrimogêneo na cara? Poxa, ao menos é mais emocionante do que passar horas tentando elaborar sugestões de mecanismos para uma sociedade mais igualitária, trancado em uma sala de debates com outros nerds que pensam o mundo com uma esperança séria, baseada em horas e mais horas de leitura e observação.

Et Deus fecit PM…

Juntemos então a fome com a vontade de comer. Após uma onda de assaltos, assassinatos e estupros ocorridos no campus da USP, chegou-se à conclusão de que a guarda universitária – que provara algumas vezes sua eficiência ao multar casaizinhos por atentado ao pudor – não tinha formação nem equipamento para lidar com problemas mais graves. A fim de preservar alguma segurança nos locais, o estado apelou para a PM. Não se podia esperar nada melhor: o ódio da ditadura militar que ainda corre nas veias de uma geração dos anos 90 marcada pelos açoites de videogames e idealismos reciclados se incendiou como um barril de Napalm ao ter que dividir seu espaço com aqueles que têm como única função exercer a repressão do estado…

De um lado, os estudantes filhinhos de papai que se revoltam "porque têm tempo de sobra para fazer isso"...

.... do outro, os que se opõe a ocupação retratados como cretinos obtusos e ricos (reparem na rolex)... ou seja, até os estereotipos são conflitantes.

Mas não estamos agora em um estado democrático?

Mas a PM não estava no campus para evitar estupros, assaltos e assassinatos?

Mas a maconha não é ilegal em território nacional?

Mas que importância tem tudo isso quando a mentalidade parou nos anos 70?

Sejamos realistas: a PM não tem função de mediadora entre estudantes e governantes, tampouco saberia fazê-lo. Ela é uma ferramenta do estado para impor o respeito às leis. O que mais é, uma ferramenta militar na qual não existe o beneficio da dúvida ou a relativização dos delitos. Dispenso aqui a discussão interminável sobre a corrupção e o abuso de poder, pois se é inegável que isso existe, devemos lembrar que essas se limitam a alguns indivíduos, operando em bairros distantes e isolados; não nas regiões mais abastadas da cidade e muito menos em uma área onde estudam 90% dos filhos da elite paulistana.

Só que essa elite desrespeitou a lei, e os milicos aprendem desde cedo a serem casca-grossa. Deu no que deu.

Exigências de retirada da PM "dos morros e das universidades". Qual a reflexão por tras desse pedido? Quais são as propostas de outras alternativas?

É evidente que a necessidade de uma força de proximidade treinada para lidar com o meio estudantil existe, mas qualquer um que tenha o mínimo de contato com a realidade brasileira sabe que não existem recursos para sanar esse problema de imediato. Na ECO 92 colocou-se o exército nas ruas do Rio; o problema do tráfico já vem de longa data, mas só agora foram implantadas as UPPs, que são apenas uma das várias medidas a serem tomadas para resolver o problema de maneira permanente. Por que, então, as elites que estudam na USP exigem mais verba para a formação de uma polícia universitária ao invés de monitorar esse dinheiro para que seja aplicado de forma efetiva em setores onde a precariedade se faz sentir muito mais? Equipamentos em salas de aula, qualidade dos locais, salário dos funcionários e qualidade dos professores estarão tão bons assim?

Finalmente, tudo isso me faz lastimar o espírito de transgressão. Uma das minhas citações preferidas é a de Benjamin Franklin: “Um povo que abdica da sua liberdade em prol de sua segurança não merece nem um, nem outro”. Poderíamos realmente aplicar isso a esse caso? Acho que não, pois Franklin mencionou essas palavras inspiradas em um contexto de progresso, não de estagnação. Acrescento a isso a cabacice dos que ocasionaram o protesto, pois acho degradante para aqueles que se julgam a “elite intelectual” o fato de terem sido pegos em um campus enorme onde o que não falta é lugar para fazer merda (eu sei, já fiz muitas…). Lembro-me com saudade de B., que guardava suas pontas no espaço oco preparado em seu marcador fosco; ou ainda de V. que sintetizava LSD em seu laboratório e o vendia no CA sem nunca ninguém ter percebido.

Pensando em tudo isso, cheguei à inevitável conclusão de que falta muita coisa nessa história:

Falta grana e meios para uma guarda universitária treinada e preparada para garantir a segurança no campus, mas isso é consenso geral.

Falta também um jeito novo de pensar a política estudantil.

Falta criatividade para imaginar novos meios de pôr em prática essa política.

Falta legitimidade nas transgressões e a malícia para cometê-las.

Falta, sobretudo, a coragem de se assumir quando a coisa fede.

Quando estávamos na escola e éramos pegos colando, enchendo a cara no pátio ou matando aula, sabíamos que o couro ia comer. Isso não nos impedia de fazê-lo, mas nos obrigava a pensar duas vezes. Com esse debate insosso, nossa elite estudantil manda uma mensagem clara para a sociedade e para seus futuros calouros: que nada importa além das medidas tomadas com relação a um cotidiano mesquinho, movido unicamente pelo prazer. Mais grave, porém, é a idéia que o moleque que for pego fumando no pátio do colégio terá um antecedente para reclamar do bedel.

Tudo culpa dos Teletubbies


Comments
One Response to “De revoltibus uspianus…”
  1. Vanessa disse:

    Há alguns dias, estivemos na FFLCH para uma feira de livros que foi adiada. Senti-me realmente desolada com a pasmaceira que por lá, encontrei: nenhum cartaz sobre o tal adiamento e inúmeros outros sobre a “guerra” contra o poder instituído – no caso, a PM…e poucas alusões aos problemas que, de fato, afetam a vida do estudante uspiano: ter condições plenas para estudar, poder promover e participar de debates que impulsionem toda e qualquer universidade ou instituição de ensino brasileira ao desenvolvimento. Mas, pois é… Tornar-se aluno da maior e mais prestigiada universidade da América Latina, implica em passar horas na biblioteca e, claro, usufruir da efervescência que permeia os corpos dentro do campus (para muitos, ingressar na universidade efetiva o verdadeiro corte do cordão umbilical; implica ainda em lembrar-se constantemente daqueles que sentaram-se ao seu lado no dia da primeira fase da Fuvest e fora do campus, ficaram; lembrar-se que antes de ser militante, somos estudantes e que o objetivo primeiro da universidade é nos mostrar caminhos para alcançarmos o conhecimento… E, quando se trata de movimento estudantil, encará-lo no seu cerne e abandonar uma postura saudosista dos anos 70: época na qual a revolução poderia ser feita tão somente através da luta armada ou da promoção da contra-cultura, considerando que havia uma ditadura de fato, tanto que a escola brasileira foi sabiamente destruída pelos generais. Conseqüentemente, sofremos na hora de cobrar nossos direitos enquanto cidadãos e estudantes, pois não sabemos mais como exigi-los… E, do mesmo modo, represália torna-se sinônimo de repressão…
    Sou totalmente favorável ao Carpe Diem e ao fato de que cada um cada se sente bem como melhor lhe aprouver. Mas, sendo uma droga ílicita no Brasil, portar ou usar maconha no campus pode dar fezes. A polícia perde toda e qualquer função positiva na sociedade e torna-se de imediato, a personificação da repressão. Vivemos em uma democracia, quer gostemos dela quer não. Se a resposta é negativa, cabe a nós eleger políticos melhores e então, exigirmos leis que façam valer as nossas vontades – por exemplo, uma real preocupação e seriedade ao tratar, melhorar e expandir o ensino no Brasil, bem como a liberalização as drogas (algo já apoiado por muitos brasileiros). Pode ser que minhas ilusões sobre a verdadeira função da universidade seja vã, mas ainda sinto que ela valha a pena: por que nós, estudantes deste país não nos reunimos para cobrar um ensino gratuito e de qualidade e uma redistribuição de renda para que possamos contribuir para um real desenvolvimento da compreensão, produção e respostas à nossa condição de cidadãos ?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • RSS Ouvindo?

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • RSS Curiosidades

    • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
%d blogueiros gostam disto: