Falácias no discurso do universitário transgressor


Venho escrevendo há algum tempo e não tenho lá muitos leitores. Os números, claro, podem contar (e muito) exatamente como acontece com a chamada grande mídia. Apesar de conhecer a relação que pode ser criada a partir do número referente à visitação, ainda prefiro o conteúdo à quantidade de leitores e, levando isso em conta, tracei alguns limites; eles podem não ser claros, mas uma campainha sempre toca quando percebo que eu ou outra pessoa ultrapassou esses limites. É por isso que aqui, neste, estou agora, fazendo a velha ranzinza (mas não a velha histérica).

Li esta postagem no coletivo Amálgama e fiquei pasmo com a argumentação; veja bem, não é segredo que nossa polícia atua, por vezes, de maneira truculenta ou corrupta (ou ainda um e outro simultaneamente) – e não dá pra generalizar para a corporação inteira, não –, mas o autor do artigo levanta argumentos contestáveis e não admite opinião contrária de “portas” ou escrita de maneira “deselgantes” (isso mesmo, está escrito errado e este será um ponto logo mais). Vamos por partes.

A adolescência

Diz o autor que é a época em que descobrimos quem somos e o que queremos e, durante este processo, o adolescente comete muitas besteiras e erros. Diz também que o adolescente não precisa da PM para lhe demonstrar o que chama de caminho correto. Pois é, o adolescente realmente não precisa e este não é o papel da PM. Ela pode – deveria – sim ser capaz de atuar de outra maneira, mas não é papel da PM (e só da PM) educar os adolescentes.

Acho que cabe lembrar que os pais têm função de educar seus filhos e que estes, durante a adolescência, tomam quase como esporte a transgressão das regras de sua própria casa. Isso não quer dizer que não deve haver sanções ou conversas; aliás o entendimento de que há regras e limites surge também no momento em que são pegos e a negociação entre pais e filhos acontece.

Lugar de contestação

O campus é um lugar de contestação por natureza, diz o autor. Oposição entre leis e práticas dentro dos muros da universidade, dos limites do campus? É assim que se justifica qualquer transgressão? Pergunto-me o que ele quis dizer por transgressões. Pergunta boba, parece, mas se ele afirma – e ele faz isso nos comentários – que a lei é passível de interpretação; é bom lembrar que, 1) ela é passível de interpretação em qualquer lugar, não só nos campi e 2) que ele não definiu o que é transgressão (já que ele pretende mesmo utilizar esse arcabouço, replico-o). Será que trote violento é uma transgressão cabível? Passeata do orgulho hétero? Passeata do orgulho branco?

Da maneira que o autor fala, parece que toda essa contestação só cabe dentro dos campi. Os campi, antes de serem espaço de transgressão são espaços de estudo e reflexão, sem os quais a transgressão é vazia. É possível refletir e estudar durante a vida inteira. É possível transgredir a vida inteira. Há vida depois da universidade, há vida fora dela. Mas, claro, os intelectuais de passeata, ah, estes gostam de ficar pela universidade; costumeiramente reclamam da qualidade da educação e lutam por qualquer tema que apareça pela frente, mas não se dão ao trabalho de sair da faculdade com menos de 6 anos cursados, segurando cadeiras como se o contribuinte – que os inclui, claro – tivesse a obrigação de mantê-los por lá. Lutam por todas as causas sem, olha só, conhecimento de causa, sem experiência, vivência e – importante repetir – reflexão. Esquecem de todos os outros que querem estudar e refletir; esquecem daqueles que, fossem mais bem estruturados, poderiam ajudar a construir uma sociedade melhor. Puro cinismo de quem deseja se considerar gênio. Compram idéias anacrônicas como o filatelista compra selos velhos. De comunistas a consumistas.

Este blog é pró-protestos (feministas, sejam bem-vindas pra protestar contra essa foto)

A legitimidade

O autor levantou a questão da legitimidade, edificando-a sobre terreno pra lá de condenado. Não há o que discutir quando a questão é a possibilidade de um melhor treinamento para a polícia ou condutas mais humanas, na padronização na prestação de um serviço de qualidade para a população. Falar o quê sobre?

A conversa sobre espaços públicos já deveria ter acontecido há tempos. Há pelo menos dois lugares importantes em São Paulo que eram locais de aglomeração e protesto e acabaram por ser desconfigurados durante o regime militar. Pois é, a praça Roosevelt e a praça da Sé foram desmontadas, despidas de uma utilidade; elas não eram, necessariamente para a aglomeração, mobilização e discussão (assim como a universidade não é, pura e simplesmente, para a transgressão), mas eram utilizadas com tais finalidades. É muito mais fácil, aliás, do ponto de vista da opinião pública, – mesmo sendo mais caro – reprimir encontros pela reorganização e redistribuição urbana que simplesmente mandar a polícia sentar a borracha (que pode ser eficiente, mas tem cara de, bem, polícia sentando borracha em atitude não humana/humanista). No caso da praça da Sé, veja só: a maior estação de metrô da cidade, ligação entre duas linhas de trens, o progresso avançando., piuí. Ótimas desculpas pra diluir algum movimento sem fazer uso de força.

Deseja-se, entretanto, manter essa idéia romântica de que a universidade é um espaço de liberdades. Não é, não pra qualquer coisa. Discutir temas e quebrar paradigmas não se faz necessariamente enquanto violando leis. Liberdade de pensamento e liberdade de ação são campos completamente diferentes. Se a violação na universidade se faz necessária, por que não aproveitar pra fazer experimentos com gás mostarda, experimentos invasivos com animais para fins cosméticos e outras coisas mais, a fim de abrir discussões? Qual o limite? Ele existe? Os alunos que foram encontrados fazendo uso de maconha estavam a protestar contra algo, por algo?

Esse texto nem existiria não sentisse eu que o autor simplesmente despreza as regras do debate, em nome de seu ponto. Fácil, facílimo, apontar o dedo e chamar o estado de facista; antes, durante e depois de não debater, de somente usar de ironia e pequenas picuinhas com os modos alheios (caixa alta, opinião contrária, escolha o modo de sua preferência), mais fácil ainda. É fácil ser cínico. Fácil ser hipócrita. Eis o intelectual perfeito de qualquer regime stalinista. Simples assim.

Ah, e por favor: se for pra reclamar de caixa alta por conta de deselegância, experimente não trocar letras. Os leitores agradecem.

NOTA FINAL sobre a imagem utilizada dentro deste post: este blog sabe que podem protestar contra a escolha. A possibilidade de que feministas protestem contra a escolha de uma imagem gerada por outras feministas me causaria algum espanto, mas não muito. Querendo, tamos aqui.

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