Nook Touch – opinião sobre uma plataforma de leitura eletrônica

Caiu nas minhas mãos, não de pára-quedas ou como balão, mas caiu: passei alguns dias lendo livros em uma plataforma de leitura eletrônica Nook Touch. (Antes de continuar, uma nota sobre o termo que escolhi: livro eletrônico ou e-reader, apesar de serem as formas mais utilizadas para designar este tipo de aparelho, não me parecem a melhor maneira de nomear este tipo de dispositivo eletrônico. Afinal, o livro tal como o vínhamos conhecendo é ambos plataforma e conteúdo. Eco e Carrière já falavam, em _não contem com o fim do livro – resenhei para o Amálgama, há algum tempo –, que paredes cheias de hieróglifos podem ser consideradas como livros; esta é a primeira vez na história em que o conteúdo literário está tão descolado da plataforma para a qual foi pensado)

Em algum lugar do passado (ou só uma perspectiva)

Já podíamos ler livros em computadores há dez anos; catando coisas aqui e ali, pela internet, com alguma paciência (e conhecimento da língua inglesa) era possível encontrar aquele livro pra baixar ou, ainda com mais paciência, podíamos scannear pra ter o conteúdo digitalizado, sem ônus de carregar volumes pesados pra lá e pra cá — e assim vivi minha pôs-graduação, como tantos amigos e colegas: à base de cópias Xerox, tomos reais e muitos arquivos pdf e DjVu (você pode conferir livros gratuitos nesses formatos neste link)–. Há, hoje, três tipos de plataforma de leitura eletrônica no mercado: (a) os tablets, que são multimeios o que significa dizer que são, de maneira sucinta, telas de alta definição com múltiplas funções, (b) os telefones celulares, que fazem cada vez mais coisas, e (c) os dispositivos conhecidos por e-readers, que têm sua tecnologia desenvolvida em torno do papel eletrônico, a. k. a. e-paper.

A diferença de tecnologia nas telas influi muito na qualidade da leitura, porque as telas de telefones e tablets normalmente cansam mais a vista (dizem por aí que as tecnologias mais recentes já não apresentam este problema); como os computadores ou nossas TVs, as telas de tablets e telefones celulares emitem luz e  o uso prolongado é similar àquele passado olhando por muito tempo para uma tela de computador. Os dispositivos com tecnologia baseada em papel e tinta eletrônicos, por sua vez, refletem luz – como a página de um livro  ou qualquer coisa que só conseguimos ver quando há suficiente luz ambiente –. Tablets, telefones e plataformas de leitura eletrônica, cada um haverá de ser bom em suas condições propícias (eu arriscaria indicar, em termos de conforto para os olhos: tablets e celulares para ambientes de baixa luminosidade, plataformas de leitura eletrônica em ambientes de alta luminosidade – como uma boa e velha leitura sob o céu diurno -), e não é simples a tarefa de avaliar quem haverá de causar estragos à seus olhos (andaram falando sobre isso aqui).

Ainda sobre tela e bateria

A tela do Nook Touch é sensível a toques, mas não é capacitiva. A sensibilidade da tela é suficiente (e só). Ela é usada para navegação entre menus e como teclado. As mudanças de páginas também podem ser realizadas pela tela: toque perto da margem esquerda e toque perto da direita levam o leitor ao trecho anterior e posterior ao que estavam, respectivamente.

O consumo de bateria não é gigantesco, dá pra ler por (pelo menos e aproximadamente, não fiz um teste cronometrado com estes fins, lia conforme andava pela cidade) quatro horas diárias durante duas semanas. Com uma tela sensível ao toque, seria de se esperar que a bateria durasse pouco, mas como o papel eletrônico apenas reflete a luz ambiente, a bateria não é consumida durante o ato de leitura propriamente dito, mas quando há mudanças de página. O grande consumidor de baterias do Nook Touch, entretanto, me pareceu ser o wi-fi do dispositivo, usado para acessar a Barnes & Noble virtual.

Abrindo a caixa

Não vi a caixa do aparelhinho, sequer sei como veio embalado e, sinceramente, não é de grande importância – porque abrir a caixa pela primeira vez, ora, só se faz uma vez, mas usar o aparelho… –. Ou, talvez, seja: deve haver viciados em abrir embalagens, assim como há aqueles que são apaixonados por cheirar livros.

O Nook era uma plataforma de leitura eletrônica disponibilizada no mercado pela livraria norte-americana Barnes & Noble, uma das maiores concorrentes da gigante virtual Amazon; como tal, ele compete com o Kindle pela mesma fatia de mercado. Ou quase. Voltaremos a isso, depois das impressões causadas pelo aparelho.

Acompanham o aparelho um cabo USB-microUSB e um adaptador de energia que pode ser ligado ao cabo já comentado. Apesar do carregador, é perfeitamente possível recarregar a bateria apenas conectando o Nook Touch ao computador.

Como se parece

O Nook Touch é mais ou menos do tamanho de um livro em formato pocket. Não tem teclado e conta, ao todo, com  seis botões: cinco na frente e um atrás. Quatro dos botões da frente estão posicionados nas margens laterais da tela (na moldura) e têm por função acionar a mudança de páginas; destes, os dois botões que ficam na parte superior permitem que sejam avançadas páginas e os dois de baixo, o movimento oposto. Isso significa que, diferente de um livro, sem muito esforço dá pra segurar o Nook Touch com qualquer das mãos, direita ou esquerda, e adiantar ou voltar páginas à vontade. Com uma única mão. Perfeito pra quem não vê problemas em ler em pé dentro de um ônibus. Acessando o menu de configurações é possível inverter essa ordem.

Nook Touch entre livros

O outro botão que fica na frente do aparelho permite o acesso à barra deslizante de destravamento e, uma vez que o Nook Touch esteja destravado, o botão acesso à tela principal, biblioteca, loja, campo de pesquisa dentro de um livro e menu de configurações.

O botão na parte traseira pode ser usado para travar e destravar a tela, colocando-o em descanso  e, além disso, pode ligar e desligar o aparelho.

Diferente das primeiras versões do Kindle, o Nook Touch não tem teclado físico; existe um teclado virtual acessível pela da tela sensível a toque, que não é capacitiva.

Existe uma entrada USB, pra que arquivos sejam transmitidos ao aparelho diretamente de um computador. Pra esse fim, o Nook Touch funciona basicamente como uma chave USB: é só espetar e transferir os arquivos pra pasta certa. Também existe uma entrada de cartão SD, muito bem vinda para colaborar com os 236Mb de memória interna.

Perfil do Nook Touch entre livros

Por experiência própria

Tive a oportunidade de ler livros eletrônicos na plataforma Nook e em um iPhone. Antes que digam que o celular multimídia da Apple é por demais pequeno para tal tarefa, digo apenas que o tamanho das fontes pode ser alterado (como no Nook), que é das primeiras coisas que se nota nos arquivos de livro eletrônico. Claro, há distinções importantes entre livros no formato ePub  e aqueles no formato pdf, sendo que a mais marcante é que os livros em formato pdf parecem – digo parecem porque não sei se é regra geral – ser tratados tanto por iPhones quanto por Nooks como se fossem arquivos de imagem; isso significa que enquanto nos arquivos ePub o tamanho das fontes é alterado, nos arquivos pdf é possível dar zoom pra aumentar ou diminuir o que está na tela; ou seja, o conteúdo dos arquivos em formato ePub se adaptam ao tamanho da fonte escolhida e da tela de leitura, e os arquivos em formato pdf recebem tratamentos diferentes: no Nook algumas páginas se alteram, outras não; no iPhone, a mudança sempre aconteceu como se o livro fosse um arquivo de imagem, no que diz respeito a ampliação e tamanho das fontes. Além disso, algumas páginas de arquivos pdf contém imagens e estas podem não se adaptar ao Nook Touch.

Em outras palavras: é plenamente possível ler um arquivo pdf no Nook ou no iPhone e a experiência nem de longe é muito mais desagradável que fazer o mesmo no computador. A mobilidade mais que compensa a leitura em telas menores, mas já defendo: a leitura de arquivos pdf no Nook flui de maneira mais agradável que no iPhone.

Os arquivos no formato ePub, por outro lado são uma experiência à parte. Isso porque não aparecem como arquivos de imagem, quando bem preparados. Mas o que “bem preparados” significa?

Índices e Notas – você é um pesquisador?

Entre arquivos pdf e ePub que acessei, percebi que há arquivos ePub com e sem índice – parece bobagem, mas não é –, enquanto todos os arquivos pdf não os tinham (ao menos não índices eletrônicos); pois é, não estou falando de um índice como aquele encontrado em livros, uma página inicial que contenha indicações de páginas para tópicos ou capítulos específicos, não, estou falando em índices como aqueles usados em linguagem html, como um hiperlink: lá no começo do livro, do arquivo, mas com a condição de que clicando sobre um capítulo específico você é levado diretamente a ele. Em outras palavras, o arquivo ePub que chamo de bem preparado, como citado anteriormente, é esse arquivo que contém índices eletrônicos funcionando como guias.

Trabalhando de maneira similar aos índices, estão as anotações. Num arquivo ePub lido no Nook Touch é possível fazer uma seleção de texto através da tela sensível a toques e até mesmo uma anotação sobre um texto selecionado, pelo teclado virtual. É aí que a ideia de índice se mostra importante: marcadores em páginas, textos destacados e anotações aparecem em índices próprios e podem ser acessados durante a leitura de um dado livro. A pena é que se um pedaço grande de texto for destacado, este trecho não aparecerá inteiro no índice de marcações; achei isso um tanto frustrante, porque me vi precisando encontrar soluções para achar marcações com temas específicos – no Nook Touch mostrou-se mais lógico destacar ou comentar palavras chaves a selecionar trechos inteiros, de modo a facilitar buscas. Essas buscas, aliás, são outra frustração: é possível encontrar palavras usando a ferramenta de busca tanto em arquivos pdf (nem sempre) quanto ePub, mas essa ferramenta não acessa as anotações feitas pelo usuário, ou seja, não dá pra fazer uma busca por algum termo ou trecho que tenha sido escrito/preparado pelo usuário. Se sua intenção é ter uma ferramenta que o ajude academicamente, bem, diria que ele cumpre apenas metade do serviço, porque é mais fácil depender de papel e caneta, que te permitam folhear seu próprio texto a encontrar algo no Nook Touch (a menos que sua anotação seja pequenina, seguindo o modelo das palavras chave citei ainda neste parágrafo). É ainda importante dizer que, no estado atual do sistema operacional do aparelhinho, não é possível sincronizar anotações com qualquer outro dispositivo, como seu computador.

(no quesito marcadores de páginas, o software Preview, que acompanha o OS Lion nos computadores da Apple – deve ser lembrado, justamente porque todas as páginas marcadas aparecem em um mesmo índice, comum)

Distribuição

Um ponto a pesar contra a aquisição de um Nook reside no fato de que ele compete com o Amazon Kindle apenas pela mesma fatia de mercado norte-americano. Enquanto o Kindle pode ser adquirido em países como o Brasil, a distribuição do Nook se dá apenas na América do Norte. Ou seja, importar um Nook requer amizades em trânsito ou o gasto de uma quantia de dinheiro que, se não é exorbitante, é certamente um gasto (em câmbio e imposto) excessivo.

O fator distribuição é importante ainda por outro motivo: sem endereço fixo nos Estados Unidos registrado junto à Barnes & Noble, não é possível adquirir conteúdo algum da B&N pela internet. História diferente acontece com a Amazon, que exporta Kindles pela internet e também vende conteúdo para ele, sem as mesmas restrições de fronteiras. Os Kindles, entretanto, são chatos no que diz respeito à formatação de livros: a única plataforma móvel que lê os arquivos preparados pra dispositivos da Amazon é o próprio leitor da Amazon; note que falei em plataforma móvel: existe um software da Amazon para leitura e sincronia de leitura. Provavelmente com isso em mente, a Livraria Cultura preferiu adotar outro padrão, o DRM da Adobe, que possibilita a leitura dos livros em plataformas de marcas diferentes, entre elas o Nook Touch (era assim até há pouco, ao menos – será que mudaram de idéia? O Nook Touch não aparece mais listado como plataforma compatível -). É possível instalar o software de leitura da Barnes & Noble em seu computador pessoal e, de novo com restrição a endereços (pra baixar softwares na appstore) no iPad/iPhone, para leitura de livros adquiridos para o Nook Touch. Com DRM da Adobe, o usuário tem uma identificação e, usando-a, é possível ler seus livros na plataforma de leitura eletrônica de sua vontade. O Kindle também tem algo parecido, mas no que diz respeito a plataformas portáteis, ele é ditatorial: só dá pra ler no Amazon Kindle.

Na expectativa de que num futuro próximo nosso mercado venha a produzir conteúdo digno (tanto em qualidade quanto em variedade) para leitura nessas plataformas portáteis, o Nook me parece mais atraente. Mas só por isso.

Eu estava certo, mas estava errado. Mesmo sendo possível ler o conteúdo do Nook Touch em plataformas diferentes, não existe qualquer possibilidade (ainda, o usuário sempre ficará com o ainda na garganta) de sincronizar os conteúdos: notas, marcadores e a página de leitura, nada disso passa de uma plataforma para outra porque o software da Barnes & Noble não dá esse tipo de suporte. Por outro lado, em termos de sincronia de conteúdo, o software Kindle desenvolvido para PC parece ótimo.

Novas Versões

Entre outubro e novembro passados, foram lançados novos modelos de Nook e Kindle que estão mais para tablets que para plataformas de leitura. São plataformas multimídia e consomem um bocado de bateria. Têm o nome da marca, mas são dispositivos muito diferentes do Touch aqui citado, já que são plataformas multimídia. Deve ter resenhas dos aparelhos por aí.

Por conta do surgimento destes novos aparelhos, o preço do Nook Touch acaba de cair e está, neste momento, abaixo de 100 dólares. Ainda há pouco foi liberada uma nova versão do firmware (descobri aqui) que, claro, não resolve os problemas de sincronização levantados neste post, mas eliminou o navegador de internet que, sinceramente, acho dispensável nesse tipo de dispositivo. A ausência de qualquer outro elemento que não seja característico de uma plataforma de leitura eletrônica pode nos dar alguma vantagem tributária, como aquela aplicada à compra de livros no exterior, na hora de importarmos esse tipo de traquitana.

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