Ficção científica: um mote para Michio Kaku e outros, tantos

Comecei a ler dois livros simultaneamente: Physics of the Impossible (Física do Impossível), de Michio Kaku, e Bad Astronomy, de Phil Plait. Fazia tempo que não lia algo relacionado a divulgação científica e estes dois me pareceram bons candidatos.

Ambos têm um prefácio em que são colocadas nas alturas as estórias de ficção científica, em pequenas declarações de sua importância como fonte de inspiração para muitos que, resolveram devotar seus esforços, seu trabalho, ao desenvolvimento da ciência.

A ficção científica é um gênero literário que tem seus primeiros registros nos manuscritos de Kepler (parece; antes a informação que eu tinha era de que as primeiras estórias de ficção científica foram escritas por Cyrano de Bergerac). Pelo volume do que já foi escrito no gênero e mesmo produzido para o cinema e TV, não se pode levar a sério qualquer previsão realizada por autores e produtores em suas obras: muita coisa é bobagem mesmo ou explicação macarrônica pra algo que simplesmente não poderia ser explicado.

Mas isso não quer dizer que nada fica impresso em nossa cultura. São boas oportunidades, pra dizer pouco, pra ficarmos inspirados.

Como será que viajaremos entre as estrelas?

Temas

A ficção científica, como tudo mais em nossa  sociedade, é produto também de um tempo. Digo isso porque é importante lembrar que o que ontem era tema de ficção científica, hoje já pode ser uma realidade. Sem entrar em detalhes, cito rapidamente Da Terra à Lua e Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne,  Jornada nas Estrelas – A Nova Geração (pode ser a série original, também) e De Volta Para o Futuro. Estamos cada vez mais próximos de alguma ideia da ficção científica.

Kaku escolhe colocar as impossibilidades que escolheu em três categorias diferentes, separadas pelo nível de complexidade do impossível – este, o impossível, também produto de um tempo –: a) impossibilidades de Classe I, que são aquelas que podem ocorrer num futuro próximo e não violam as leis da física de maneira alguma; b) as impossibilidades de Classe II, que estão fora do escopo de nosso conhecimento, nos limites de tudo que pudemos entender ou prever a respeito da natureza, mas não viola lei alguma da física e c) as impossibilidades de Classe III, que violam claramente as leis da física como as conhecemos hoje e que, se um dia vierem a ser verificadas como verdadeiras, mudanças muito profundas em nosso entendimento da natureza estariam em curso.

A escolha de tópicos parece óbvia e, sendo Kaku físico, diria que também corajosa – afinal, já ouvi falar de planetário no Brasil que não fala sobre a ida do homem à Lua porque “o assunto é capcioso e o público faz perguntas.” Kaku discute com desembaraço temas populares, sempre procurando arranhar as possibilidades e teorias científicas relacionadas à idéia ficcional; cheguei a ficar desconfortado, até um pouco perdido, dadas as voltas que ele dá pra encaixar algo que ele considerou digno do seu esforço e do leitor. Nem de longe significa dizer que não há valor em seu trabalho; existe uma superficialidade no tratamento de ideias, dada a abrangência escolhida, mas há de se reconhecer que muita informação bastante atual nos é trazida: os últimos avanços nas fronteiras de nosso conhecimento vêm à baila.

Sem diminuir a qualidade do livro, faria ao menos uma ressalva: o tratamento dispensado à teoria de cordas. Ele a vende como a teoria final, mote que pode nos levar a uma teoria geral, unificando todas as interações da natureza de maneira elegante e concisa sob o mesmo conjunto de regras. O termo que acabo de usar, “vende” até pode parecer fora de lugar, mas é justamente o que Kaku, ele mesmo pesquisador em supercordas e supersimetria, faz: sem qualquer restrição propagandeia a teoria que ele próprio pesquisa, como um vendedor mesmo, quase como se estivesse à procura de apoio financeiro. Ele chega a fazer a crítica possível às superteorias, mas acho que elas descem por água abaixo quando surge o seguinte trecho, no livro:

“Vendo que hoje tantos físicos estão correndo para trabalhar em teoria de cordas, Steve Weinberg escreveu, “Teoria de cordas fornece nossa única fonte de candidatos à uma teoria final – como alguém pode esperar que tantos dos brilhantes jovens teóricos não viriam a trabalhar nela?”

[Physics of the Impossible: A Scientific Exploration Into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel by Michio Kaku, p. 265 – tradução do trecho: minha]

Provavelmente formas de vida alienígenas também apresentam simetria bilateral.

Pra mim, fica uma sensação ambígua de que “se tem tanto cientista, e tanto cientista bom, trabalhando nisso emtão não tem como isso não dar (ser) certo.” Ainda no que diz respeito às supers, outra coisa me incomodou: Kaku cita como essas teorias podem ser comprovadas, mas não como elas podem ser descartadas – e é esse o grande critério para determinar se uma hipótese pode ou não ser considerada científica: a falseabilidade –; claro, isso não significa que a teoria não precisa dar conta dos dados existentes, esse é outro critério, muito necessário. E Kaku apenas fala deste último.

Ato falho, comum à todos que vendem ideias. Ainda assim, um livro muito recomendável, bom exemplar do quanto caminhamos e do quanto ainda temos pela frente.

Querendo saber mais? Saca só os temas:

Impossibilidades de Classe I – Campos de força, invisibilidade, phasers e Estrelas da Morte, teletransporte, telepatia, psicocinese, robôs, extraterrestres e OVNIs, naves estelares, antimatéria e antiuniversos.

Impossibilidades de Classe II – mais rápido que a luz, viagem no tempo, universos paralelos.

Impossibilidades de Classe III – máquinas de movimento perpétuo, precognição.

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