Usando a ficção científica pra falar da nossa sociedade

É incrível o tipo de sociedade em que vivemos. Muito difícil imaginar que consigamos passar por essa nossa infância, que Sagan tanto retratou em seus textos – um dilema muito presente no romance Contato (recomendadíssimo) – e citado por Kaku em seu Física do Impossível, sem muito criar alarde.

De acordo com Kaku (P. 140, Physics of the Impossible: A Scientific Exploration Into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel pro Michio Kaku), as civilizações poderiam ser classificadas em quatro tipos diferentes,

1. Type I civilizations: those that harvest planetary power, utilizing all the sunlight that strikes their planet. They can, perhaps, harness the power of volcanoes, manipulate the weather, control earthquakes, and build cities on the ocean. All planetary power is within their control.

2. Type II civilizations: those that can utilize the entire power of their sun, making them 10 billion times more powerful than a Type I civilization. The Federation of Planets in Star Trek is a Type II civilization. A Type II civilization, in a sense, is immortal; nothing known to science, such as ice ages, meteor impacts, or even supernovae, can destroy it. (In case their mother star is about to explode, these beings can move to another star system, or perhaps even move their home planet.)

3. Type III civilizations: those that can utilize the power of an entire galaxy. They are 10 billion times more powerful than a Type II civilization. The Borg in Star Trek, the Empire in Star Wars, and the galactic civilization in Asimov’s Foundation series correspond to a Type III civilization. They have colonized billions of star systems and can exploit the power of the black hole at the center of their galaxy. They freely roam the space lanes of the galaxy.

sendo que destes, estes citados três dizem respeito a uma civilização planetária, no mínimo. Nós, nós seríamos representantes de uma civilização Tipo 0 (ZERO), nessa classificação (P. 141, Physics of the Impossible: A Scientific Exploration Into the World of Phasers, Force Fields, Teleportation, and Time Travel por Michio Kaku),

 (…)  our own civilization qualifies a Type 0 civilization (i.e., we use dead plants, oil and coal, to fuel our machines). (…) Local cultures and customs will continue to thrive in thousands of varieties on the Earth, but superimposed on this mosaic of peoples will be a planetary culture, perhaps dominated by youth culture and commercialism.

próximos de nos tornarmos uma civilização Tipo I, mas sem conseguirmos ser, ainda, nos entendermos como uma única comunidade planetária, ainda segundo Kaku. Estamos mais, creio, pra co-ocupadores da mesma pequena vila: nos aguentamos, mas não nos entendemos de verdade.

Vim dizer tudo isso porque fui ao teatro, semana passada. Assisti a O Beijo no Asfalto, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet (serviço no link) e fiquei  pasmo com a atualidade do texto de Nelson Rodrigues. Hipocrisia e bons costumes, ciúmes, violência policial, o poder da mídia: vivemos como há 60 anos, quando o texto original foi publicado.

Encenação de O Beijo no Asfalto (foto da Veja SP, por Lenise Pinheiro)

Vivemos como há 60 anos, com as mesmas contradições. Nossas culturas nos levaram ao espaço, nos extremos do sistema solar, e também nos levam aos cantos mais escuros de nossa natureza.

É um dos pontos de apoio da série inglesa Doctor Who. Em especial, ao final da peça, me veio à memória episódio que acabara de assistir, Cold Blood (nono episódio da temporada de 2010 – se quiser, assista aqui, sem legendas). Nele, um dilema moral é apresentado e um representante dos humanos nos representa da pior maneira possível – – em nome, claro, de fazer algo bom: proteger a família – -, colocando em risco toda a humanidade. Diferente da peça de Nelson, entretanto, a desgraça não se instaura sobre nós (é TV e é o Doutor): tudo se resolve e, enquanto ainda ficava em mim uma vontade de maldizer quem cometera os atos maldosos, o Doutor deixou passar. O pior da humanidade havia sido exposto, fazendo com que seu melhor aflorasse. Fantástico.

Agora, de volta à vida real, semana passada o cartunista Laerte foi notícia por não ter conseguido usar o banheiro feminino de um restaurante (mais sobre a escolha de Laerte, em Carta Capital). Assunto que pode gerar briga na justiça, novamente ficamos envoltos por questões morais.

Ou melhor, não ficamos envoltos por questões morais e sim culturais. Porque a moralidade varia entre culturas diferentes e varia através dos tempos. E continuará a variar, até o dia em que nos tornemos uma civilização Tipo I.

Sem esforço, novamente à ficção científica

A classificação de Kaku serve como indicador, mas não exatamente delineia quais seriam os pré-requisitos para nossa mudança de uma civilização Tipo 0 para Tipo I; isso porque ele coloca o que eu acredito serem os pré-requisitos como efeito da mudança entre tipos e não como pré-requisito para o upgrade. Uma economia globalizada, sistemas evoluídos de transmissão de informação, a eleição de um idioma e, ainda como resultado disso tudo (e pré-requisito, também) para uma sociedade do Tipo I, uma cultura global que respeite e permita a sobrevivência de culturas locais, estas são características que um civilização precisa ter para sobreviver à sua infância cósmica. Do contrário, acho que as tensões internas existentes na tessitura destas sociedades – que, por estarem no mesmo globo não podem ser chamadas, gratuitamente, globais – acabarão por nos destruir.

Viva Nelson Rodrigues. Viva Doctor Who. Viva Laertón.

Comments
5 Responses to “Usando a ficção científica pra falar da nossa sociedade”
  1. YCK disse:

    Achei interessante a conclusão. Você diz ser necessária para mudarmos de tipo 0 para tipo 1, entre outras coisas, a eleição de um idioma. Não seria melhor, na sua opinião, fazer como a cultura, e respeitar e permitir a sobrevivência dos idiomas locais?

    • @caducotavio disse:

      Eu não disse que a eleição de um idioma deve significar a morte de todos os outros. Um idioma é parte da cultura de um povo, encaixando-se perfeitamente em minha conclusão, olhaí de novo:
      “Uma economia globalizada, sistemas evoluídos de transmissão de informação, a eleição de um idioma e, ainda como resultado disso tudo (e pré-requisito, também) para uma sociedade do Tipo I, uma cultura global que respeite e permita a sobrevivência de culturas locais, estas são características que um civilização precisa ter para sobreviver à sua infância cósmica.”

      • YCK disse:

        Pensei em perguntar uma coisa, mas fui por outro viés, talvez por achar que existe uma cadeia cultural, paralela à cadeia alimentar, onde uma cultura se sobrepõe a outra.
        Mas como, na sua opinião, se daria essa eleição de um idioma?
        Temos o globish, sendo cotado como possível eleito para uso mundial e no Firefly existe a fusão da cultura ocidental com chinesa, o que resulta no inglês com expressões em chinês e mais algumas variações.

      • @caducotavio disse:

        Provavelmente uma cultura se sobreponha à outra, mesmo, pelo menos é o que tem acontecido até agora. Não significa que o cenário não possa mudar, mas isso vem de entendimento, vivência e, ainda mais, do uso; E é assim que eu acho que se firmará uma nova língua. O inglês já é dominante no cenário mundial, porque apesar de o chinês ser mais falado, ele é muito menos relevante.

        O latim pode servir de exemplo. Que eu saiba (e o Maduc responderia isso com muito maior propriedade), o latim era língua oficial e, pela mistura com idiomas locais, novas línguas surgiram, modificadas pelas diferentes interações que chamamos de uso. É como nosso português. Tá, existe um português oficial, mas quem disse que o português falado no interior do Acre é igual ao português do Rio de Janeiro?

        Uma nota lateral: não adianta ter birra com a língua inglesa. Essa relação de dominador e dominado pode se dar de muitas formas diferentes e escolher um único item pra reclamar… sei lá, não me leva a lugar algum. Mas certamente, tentar impor uma língua oficial que ninguém usa, ué, de que adianta? É igual imposto: tá lá, mas sempre tem um jeito de não pagar.

  2. YCK disse:

    Cara, faz quase um ano que eu uso esse post para roubar emprestado a parte do Kaku, achei válido postar agradecendo e pedir maior frequência nos posts na outra casa.

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