Porque não assistir Batman: Ano Um

Acabei de assistir à adaptação animada da HQ Batman: Ano Um, lançada em 2011 nos EUA. Essa é uma das HQs de maior importância para o estabelecimento da personalidade e história de Batman, sendo mantida quase intacta através das muitas restruturações do Universo DC. Claro, tratando-se de quadrinhos americanos, isso dificilmente aconteceria se, independente de quaisquer qualidades, essa estorinha não pudesse ser considerada como (atenção para os termos técnicos) legal pacas.
Tendo dito isso, falemos da animação.
A adaptação é razoavelmente fiel ao que é apresentado na HQ usada como base. Entretanto, fora dos limites do razoável, perdeu-se algo presente na essência dos personagens e daquela Gotham City corrupta e inescrupulosa – que remontam, como ignorar, a um american way of life (que de americano talvez só tivesse o nome e a propaganda) típico dos anos 80.

Voice over

O primeiro e mais real incômodo está no uso do voice over, a narração em off. Isso porque nessa estória temos apresentada por Frank Miller, de maneira magistral, o que se passava nas cabeças do então tenente-recém-chegado a Gotham City James Gordon e de um Bruce Wayne jovem, ousado e ainda incerto sobre como usar o que aprender para combater o crime. A cena em que ele realiza seu primeiro ataque como Batman perdeu muito de sua potência nesta versão: deixaram, não sei porque, os pensamentos do cruzado de fora. Syd Field certamente reprovaria o modo como o voice over foi utilizado e, gurus do roteiro à parte, sei que reprovo.

O recurso voice over, muito bem utilizado

Os vícios e a cidade

Outras características que fazem parte da HQ e apareceu moderadamente na animação são elementos de humanização/decadência moral. O cigarro, elemento frequente tanto no trabalho original quanto na série Mad Men, compõe uma época e  humores e ainda surgindo como elemento de sedução; Skeevers, me frustrou ainda mais: na versão animada, aparece contando dinheiro, enquanto na HQ está cheirando uma carreira. É, deve ser quase a mesma coisa para quem está em casa, contando o dinheiro das vendas deste DVD.

Citei estes dois elementos, sem nem querer chegar à Zona Leste; fato é que a cidade liberava sua sujeira por entre todas as páginas da revistinha e os vícios faziam parte disso. Aquela Gotham City desenhada pelo trio Miller, Mazzucchelli e Lewis é terrível, tendo escapado de qualquer ordem e planejamento, numa versão mais complexa que a criação de Anton Furst para Batman, o filme (1989); ainda interessante notar – e deixo pra outro texto – os problemas daquela Gotham dos quadrinhos persistem em São Paulo.

O traço

Quanto uma história em quadrinhos conta com o traço do desenhista? Houve época em que o traço, a ilustração, tinha de ser bela, e só. As ilustrações traziam basicamente a mesma mensagem para além do que podia era sensível numa leitura reta. No meio do caminho, ali mesmo na década de 80, começaram a aparecer os trabalhos de ilustradores como Bill Sienkiewicz e Dave McKean; são apenas exemplos aos quais pode se somar a arte de Mazzucchelli. Já lera por aí sobre a importância da imprecisão de seu traço na construção desta trama; ao assistir o desenho animado, bem, isso se perdeu. Também se foi o clima noir que as cores de Richmond Lewis ajudavam a compor: a animação é composta por arte que até busca mimetizar o trabalho original, mas certamente traz leveza ao clima que fora proposto pelo trio na HQ.

Bicicleta

Enfim, a animação tem um bocado bem maior de ação que a HQ, que parece ter por foco nos situar no universo do homem morcego. Exemplo disso é a perseguição final: enquanto nos quadrinhos Wayne a faz de bicicleta, na animação ele saltita por entre prédios com grande habilidade e sem equipamento, nos lembrando do Demolidor, personagem de outra editora. Como outro exemplo de ação desnecessária, cito uma relacionada à imagem que coloquei mais acima: aquela cena sem a narração em off é esvaziada, sobrando apenas a violência física de um mascarado contra pequenos assaltantes. Concluo dizendo que as duas questões são no mínimo tangentes, a narração e a ação: outro exemplo claro de esvaziamento surge quando a cena mais definidora de Batman e Gordon aparece na animação, onde a força dos personagens é trocada por um feito acrobático do mascarado e um acaso na vida do sargento.

O desenho extraiu a estória da HQ e deixou toda sua essência de lado. Comparasse os desenhos Batman: Ano Um e Cavaleiros de Gotham, certamente escolheria o segundo para ter em minha prateleira; nem como grande fã de Batman que sou compraria esta animação. Mas essa conclusão pode muito bem ser birra.

Skeervers, sem carreira

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