Energia, de novo

O texto abaixo foi publicado originalmente no coletivo Amálgama há quase 3 anos e, sinto dizer, continua atual. Fiz alguma pequena modificação ao texto aqui colocado, porque achei necessária; a essência, entretanto, é exatamente a mesma. Pra não incorrer no risco de parecer desonesto, vez por outra o assunto ganha frescor nas mãos e vozes de pessoas da mídia, como aconteceu dia 04 do mês desta entrada; cheque o que foi dito na rádio, aqui.

A pergunta que cientistas e leigos deveriam se fazer, quando o assunto é energia, é: temos, hoje, políticas que fomentem o desenvolvimento e desejo pelo uso de fontes de energia limpas? Pois é…

Camada pré-sal não é pra avestruz

Nos últimos anos, nos impressionamos mais e mais com perspectivas sombrias para o futuro próximo. “Como serão as coisas daqui 100 anos?” é uma pergunta que o personagem-título da peça O mentiroso, que conta com trabalho meu, faz. Perguntamo-nos freqüentemente como será nosso futuro. É fenômeno comum a todos. Como indivíduos, costumamos nos preocupar com nossa família, trabalho. Como parte de uma coletividade, as preocupações costumam ser outras: viveremos numa sociedade melhor?, o mundo será tão ou mais saudável para nossos filhos em 2015, 2025, 2050?

Tem-se falado muito sobre o futuro do Brasil nos últimos meses, por causa do tal do pré-sal. Marketing, mania, ferramenta pra que esqueçamos de tantas outras coisas, somos bombardeados todos os dias com novas notícias: nova estatal!, Brasil cheio da bufunfa, de ouro negro!, Lula quer apressar, oposição quer atrasar… A lista é grande.

E, já que é pra nadar em marketing e desinformação, pensei em fazê-lo com um tanto de estilo. Afinal, toneladas de filmes já trataram do futuro, sob uma ou outra ótica. Relembro duas séries de filmes, a começar por aquela que conta a história de Mad Max, que lançou Mel Gibson ao estrelato. Road movies pós-apocalípticos, os filmes dessa série contam o que se passa numa Terra “em um futuro não muito distante”. No final das contas, as histórias do segundo e terceiro filmes da série tinham como mote a sobrevivência num mundo sem fontes de energia; que se dirá do tão cobiçado petróleo, plataforma de energia sobre a qual colocamos nossos carros e tantas indústrias. E quanto à Batertown, a cidade movida por fezes?

Pra contrabalançar estes filmes – e pulando de um estilo a outro, oposto –, lembrei da trilogia De volta para o futuro, onde a energia acaba por se tornar motivação pra quase todas as dificuldades que acabam por acontecer nos filmes: no primeiro, começamos com plutônio e acabamos num 1955 sem fonte de energia que gere o 1,21 Gigawatt necessário pra que o capacitor de fluxo seja ativado e a viagem de volta para casa, possível; no segundo filme, somos apresentados ao Mr. Fusion, que gera toda a energia necessária pra que o DeLorean voe e, claro, leve o doutor e o garoto à 2015 (caramba, já estamos perto e nada de carros voadores, roupas com ventiladores, tênis que fecham automaticamente…); no terceiro filme, nada de petróleo: é um trem maria-fumaça, com máquina a vapor envenenada, que leva “Clint Eastwood” de volta à 1985. Abordagens completamente diferentes a um mesmo problema: como viver sem energia?

A pergunta é boa e vale um bocado para nós que vivemos uma realidade pós-apagão (ainda não pós-apocalíptica, relaxa). Acabamos por esquecer completamente de algo que nós, brasileiros, estávamos a fazer bem: desenvolver fontes alternativas de combustível. Vínhamos, aliás, caminhando à frente da concorrência, nessa fundamental busca por fontes mais limpas e renováveis de energia. Os Estados Unidos, um dos principais desenvolvedores de novas tecnologias no mundo, vinham apostando muito no etanol de milho. Os lobistas do milho norte-americano tentaram passar a lábia na natureza, no governo e na população mundial, em ânsia de vender sua produção e tecnologia. Mas essa natureza, ah!, ela tem sua maneira de ser… muito própria. Acabamos por sermos nós, brasileiros, favorecidos pelas inclinações dela, porque cientistas de todo o mundo concluíram que o etanol de milho não é uma fonte de energia tão limpa quanto o etanol da cana de açúcar, produzido em larga escala aqui no Brasil. Os parâmetros pra comparação são diversos e alguns deles podem ser consultados nos sites da ABIN e Rastro de Carbono. Temos informações espalhadas por aí, ao menos.

Particularmente, não sei se houve qualquer mudança nos planos de investimentos em pesquisa para novos combustíveis e tecnologias (e pesquisa e tecnologia são coisas de que carecemos sempre, e sempre mais que de nova estatal, principalmente se temos planos de nos tornarmos país avançado). Tais notícias deixaram de fazer parte dos noticiários e são deixadas de lado ante a uma ânsia de encontrar novas fontes de renda pra produzir populismo. Imediatismo puro. Enquanto isso, Índia e China avançam, produzindo veículos elétricos cada vez mais baratos e eficientes. Claro, a eletricidade pode não ser a solução definitiva para os problemas energéticos e ambientais que estamos a enfrentar, mas me soa mais repleto de perspectivas que a produção de mais petróleo.

Triste, dureza. E sequer falei em outras fontes de energia, como aquela extraída do núcleo atômico… Só espero que não resolvam queimar a Amazônia inteira pra produzir carvão! Buscar petróleo na camada pré-sal não é tarefa pra avestruz: tratemos de manter um olho pra fora da terra, no futuro.

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